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Einar Rivero: Nunca tantas ações negociaram em todos os pregões da B3

Levantamento da Elos Ayta mostra que a presença diária das ações atingiu recorde histórico em 2026, mesmo após anos de IPOs e fechamentos de capital


Einar Rivero. Foto: Divulgação

Einar Rivero

Einar Rivero é engenheiro e especialista em dados financeiros, com carreira dedicada à análise de informações econômicas e à geração de insights estratégicos para o mercado. Ao longo de mais de duas décadas, atuou em posições de liderança em grandes plataformas de dados, consolidando-se como referência em estudos e levantamentos sobre o mercado financeiro brasileiro, América Latina e EUA.


A bolsa brasileira passou por profundas transformações nos últimos anos. Viveu uma das maiores ondas de ofertas públicas de ações de sua história, acompanhou o fechamento de capital de diversas empresas e enfrentou mudanças relevantes no perfil dos investidores. Em meio a esse cenário, um indicador pouco observado pelo mercado atingiu seu maior nível da série histórica. 

Levantamento realizado pela Elos Ayta mostra que 67,3% das ações negociadas na B3 registraram pelo menos um negócio em todos os pregões do primeiro semestre de 2026. O resultado representa o maior percentual desde o início da série, em 2020, e interrompe uma sequência de dois anos de queda. 

A métrica utilizada pela Elos Ayta mede a chamada “presença em bolsa”, indicador que avalia a frequência com que uma ação efetivamente registra negócios ao longo dos pregões. Em outras palavras, busca identificar quantas empresas conseguem manter negociação contínua ao longo do tempo. 

Embora menos conhecido do que indicadores tradicionais de liquidez, o conceito é amplamente utilizado em estudos acadêmicos sobre microestrutura de mercado para avaliar a facilidade com que investidores encontram contraparte para negociar determinados ativos. 

Mais do que um recorde estatístico, o levantamento revela uma mudança importante na dinâmica do mercado acionário brasileiro. 

Um mercado menor, mas mais presente 

Um dos aspectos mais interessantes observados pela pesquisa é que o avanço da presença das ações ocorreu justamente em um período marcado pela redução do universo de empresas negociadas na bolsa. 

Entre 2020 e 2021, o mercado brasileiro viveu uma intensa janela de IPOs impulsionada pelo ambiente de juros baixos e pelo forte interesse dos investidores por ativos de risco. Diversas companhias acessaram o mercado de capitais naquele período, ampliando o número de empresas listadas. 

Nos anos seguintes, porém, o movimento mudou de direção. Fechamentos de capital, incorporações, reorganizações societárias e processos de consolidação empresarial reduziram gradualmente o universo de ações negociadas. 

Seria razoável imaginar que um mercado com menos empresas apresentasse menor diversidade de negociação. O levantamento da Elos Ayta mostra exatamente o contrário. 

Apesar da redução do número de companhias presentes na bolsa, aumentou a proporção de ações que conseguem manter negociação diária. Isso sugere que a atividade do mercado passou a se concentrar em empresas capazes de sustentar presença contínua nos pregões. 

Na prática, a bolsa brasileira pode ter se tornado menor em quantidade de empresas listadas, mas mais eficiente na distribuição da atividade de negociação entre aquelas que permaneceram abertas ao mercado. 

O desaparecimento das ações intermediárias 

Outro fenômeno identificado pela pesquisa ajuda a explicar essa transformação. 

Ao longo dos últimos anos, diminuiu a participação das ações com presença intermediária nos pregões. Em outras palavras, o espaço ocupado por empresas que negociam apenas ocasionalmente vem encolhendo. 

O mercado parece caminhar para uma configuração mais polarizada. De um lado, cresce o grupo de empresas que registra negócios praticamente todos os dias. De outro, permanece um conjunto menor de ações com negociação esporádica. 

Esse movimento pode refletir uma postura mais seletiva dos investidores, que tendem a concentrar atenção e recursos em companhias capazes de oferecer maior previsibilidade operacional, melhor cobertura de mercado e maior facilidade de negociação. 

O que o indicador mostra, e o que ele não mostra 

A Elos Ayta ressalta que presença em pregões não deve ser confundida com liquidez financeira. 

O indicador mede exclusivamente a frequência com que uma ação registra ao menos um negócio durante o pregão. Ele não considera o volume financeiro movimentado, a quantidade de negócios realizados nem a profundidade do mercado para aquele ativo. 

Assim, uma ação pode apresentar presença de 100% nos pregões e, ainda assim, movimentar valores relativamente modestos quando comparada aos grandes papéis da bolsa. 

Por essa razão, o levantamento não pretende medir quais ações são mais líquidas sob a ótica financeira. Seu objetivo é analisar a frequência de negociação dos ativos e a capacidade de investidores encontrarem contraparte ao longo do tempo. 

Ainda assim, a frequência de negociação é considerada pela literatura acadêmica uma dimensão relevante da liquidez, especialmente em mercados emergentes e em empresas de menor capitalização. 

Um sinal de amadurecimento 

Os números sugerem que a transformação vivida pela bolsa brasileira nos últimos anos vai além dos ciclos de alta e baixa do mercado. 

Após uma fase marcada pela expansão acelerada do número de empresas listadas e por um movimento posterior de consolidação e deslistagens, a B3 passa a exibir um perfil diferente daquele observado no início da década. 

O mercado conta hoje com menos empresas do que no auge da onda de IPOs, mas uma parcela maior delas consegue manter presença contínua nos pregões. 

Sob essa perspectiva, o recorde alcançado em 2026 não representa necessariamente um recorde de liquidez financeira. Representa algo diferente e igualmente relevante: nunca tantas ações estiveram presentes nas negociações diárias da bolsa brasileira. 

Para investidores, gestores e companhias abertas, trata-se de um sinal de que a dinâmica de negociação do mercado continua evoluindo, mesmo em um ambiente muito diferente daquele que impulsionou o boom de IPOs observado poucos anos atrás. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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