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Einar Rivero: Onde está o dinheiro das bolsas? Volume negociado revela diferenças entre Brasil e EUA

Estudo da Elos Ayta mostra que a concentração da liquidez atingiu o maior nível desde 2020 nos dois mercados


Einar Rivero. Foto: Divulgação

Einar Rivero

Einar Rivero é engenheiro e especialista em dados financeiros, com carreira dedicada à análise de informações econômicas e à geração de insights estratégicos para o mercado. Ao longo de mais de duas décadas, atuou em posições de liderança em grandes plataformas de dados, consolidando-se como referência em estudos e levantamentos sobre o mercado financeiro brasileiro, América Latina e EUA.


Quando se fala em bolsa de valores, os indicadores mais conhecidos são as cotações, os índices e o valor de mercado das empresas. Há, porém, outra maneira de observar a estrutura de um mercado: analisar onde está concentrado o dinheiro efetivamente negociado todos os dias

O volume financeiro médio diário por setor ajuda a responder a essa pergunta. 

Uma análise da Elos Ayta, com dados de 2020 a 2026, mostra que a concentração da liquidez aumentou tanto na Bolsa brasileira quanto no mercado americano. Mas o movimento ocorreu de maneiras diferentes. 

Na B3, petróleo, instituições financeiras, energia elétrica e mineração concentram uma parcela crescente das negociações. No mercado americano, considerando como universo constante as empresas que atualmente compõem o S&P 500, o destaque está nos semicondutores, software e outros segmentos associados à tecnologia. 

A diferença ajuda a revelar não apenas como funcionam duas bolsas, mas também algumas características das economias que elas representam.

O que exatamente a pesquisa está medindo 

Há uma particularidade importante na metodologia. 

Na B3, foram identificados os cinco e os dez setores com maior participação no volume financeiro médio diário de 2026. Em seguida, foi calculado o volume médio diário desses mesmos setores para cada ano entre 2020 e 2025. 

Assim, quando o estudo mostra que os cinco setores selecionados representam 37,52% do volume de 2020, isso não significa que eram os cinco setores mais negociados naquele ano

Significa que os cinco setores que hoje lideram a liquidez da B3 representavam, conjuntamente, 37,52% do volume naquele ano. 

A opção permite acompanhar a trajetória histórica de um mesmo grupo de setores, sem que a composição da amostra mude a cada ano. 

Essa é uma pergunta diferente daquela que procura identificar quais setores ocupavam as primeiras posições do ranking em cada período. Essa análise, que mostrará como mudou a composição da liquidez da Bolsa ao longo do tempo, será objeto de outro estudo da Elos Ayta

No S&P 500, a lógica é semelhante. A análise utiliza a carteira atual do índice como universo constante e observa retroativamente o comportamento do volume das mesmas empresas entre 2020 e 2026. 

A classificação setorial utilizada no levantamento também permite observar os mercados em maior nível de detalhamento, separando atividades que, em classificações mais agregadas, poderiam aparecer reunidas em grandes grupos. Por isso, os percentuais apresentados neste estudo devem ser interpretados dentro da metodologia e da classificação setorial adotadas pela Elos Ayta

A concentração aumentou nos dois mercados 

Os resultados mostram uma tendência clara. 

Os cinco setores que lideram a liquidez da B3 em 2026 representavam, conjuntamente, 37,52% do volume médio diário em 2020. Em 2026, passaram a responder por 55,11%, maior nível da série. 

No universo atual do S&P 500, os cinco setores de maior volume em 2026 representavam 35% da negociação média diária em 2020. Em 2026, chegaram a 47,55%, também o maior nível da série. 

A diferença entre os dois mercados aumentou: de 2,52 pontos percentuais em 2020 para 7,56 pontos em 2026. 

O mesmo ocorre quando a análise considera os dez setores. 

Na bolsa brasileira, eles passaram de 62,57% do volume em 2020 para 69,17% em 2026

No universo atual do S&P 500, passaram de 56,49% para 61,33%

Em outras palavras, uma parcela crescente do dinheiro negociado está concentrada nos setores que atualmente lideram a liquidez dos dois mercados. 

Participação dos setores no volume financeiro médio diário anual do universo atual do S&P 500 

Percentual de participação dos setores no volume financeiro médio diário anual das empresas que atualmente integram o S&P 500, entre 2020 e 2026. 

B3: petróleo, finanças e energia 

Na Bolsa brasileira, o petróleo é um dos principais responsáveis por essa concentração. 

Petróleo, gás e biocombustíveis representavam 10,54% do volume médio diário da B3 em 2020. Em 2022, chegaram a 17,35%. Depois de recuar nos dois anos seguintes, voltaram a ganhar espaço e alcançaram 17,39% em 2026

Em valores absolutos, o volume médio diário passou de R$ 2,74 bilhões para R$ 4,07 bilhões. 

O movimento chama atenção porque o mercado à vista da B3 não apresentou expansão equivalente. O volume médio diário total passou de R$ 25,94 bilhões em 2020 para R$ 23,38 bilhões em 2026. 

O petróleo, portanto, passou a representar uma parcela maior de um mercado que, em termos nominais, movimentava menos por dia. 

Outros segmentos também reforçaram a concentração. 

A participação dos intermediários financeiros passou de 12,81% para 14,48%. Energia elétrica avançou de 5,89% para 10,77%, enquanto mineração passou de 7,03% para 8,93%

Somados, os quatro setores responderam por 51,57% do volume financeiro médio diário da B3 em 2026

São segmentos diretamente relacionados a commodities, energia, crédito, juros e atividade econômica, características que ajudam a explicar a estrutura particular da liquidez da Bolsa brasileira. 

Participação dos setores no volume financeiro médio diário anual do mercado à vista da B3 

Percentual de participação dos setores no volume financeiro médio diário anual do mercado à vista da B3, entre 2020 e 2026. 

EUA: os chips mudam de escala 

No mercado americano, a transformação ocorre em outra direção. 

Entre as empresas que atualmente integram o S&P 500, o setor de semicondutores e outros componentes eletrônicos representava 6,69% do volume financeiro médio diário em 2020

Em 2026, passou a representar 21,83%

Em valores absolutos, o volume médio diário saltou de US$ 14,96 bilhões para US$ 105,62 bilhões — mais de sete vezes. 

O movimento coincide com a expansão de segmentos ligados à infraestrutura da economia digital, em um período marcado pelo avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem, dos data centers e da demanda por capacidade de processamento. 

Software também ganhou espaço. Sua participação passou de 7,01% em 2020 para 8,58% em 2026

Somados, semicondutores e software responderam por 30,41% do volume financeiro médio diário em 2026 dentro do universo atual do S&P 500. 

O contraste com a B3 é significativo. Enquanto no Brasil a liquidez se concentra em petróleo, finanças, energia e mineração, nos Estados Unidos ela avançou fortemente em segmentos ligados à tecnologia. 

O petróleo mostra a diferença entre os dois mercados 

Os recentes choques geopolíticos e a volatilidade do petróleo ajudam a tornar essa diferença mais visível, mas não explicam sozinhos a concentração brasileira. 

O petróleo já representava 17,35% do volume da B3 em 2022 e chegou a 17,39% em 2026. 

Os acontecimentos recentes, portanto, podem ter reforçado uma característica que já fazia parte da estrutura do mercado brasileiro. 

O mesmo choque externo encontra estruturas diferentes nos dois mercados. 

Na B3, petróleo e outras commodities já possuem participação elevada na liquidez. Nos Estados Unidos, as empresas de energia também respondem aos movimentos do petróleo, mas disputam espaço com uma estrutura muito maior de empresas de tecnologia. 

Liquidez também conta uma história sobre a economia 

O volume negociado não permite, isoladamente, afirmar quais setores terão melhor desempenho no futuro. Tampouco indica onde investir. 

Ele responde a uma pergunta diferente: quais segmentos concentram a negociação e uma parcela relevante da atenção econômica do mercado? 

A literatura acadêmica de microestrutura financeira encontra relação entre atenção dos investidores, volume negociado e liquidez, oferecendo uma lente adicional para interpretar os dados. 

No Brasil, os maiores volumes estão associados a petróleo, commodities, energia, bancos e condições macroeconômicas. 

No universo atual do S&P 500, a expansão mais expressiva ocorre em semicondutores, software e outros segmentos ligados à transformação tecnológica. 

A liquidez, portanto, também ajuda a contar uma história sobre a economia. 

Duas bolsas, duas estruturas de liquidez 

A concentração crescente é o ponto comum entre os dois mercados. 

Em 2026, os cinco setores analisados representam 55,11% do volume da B3 e 47,55% do volume do universo atual do S&P 500

Entre os dez maiores, a concentração chega a 69,17% e 61,33%, respectivamente. 

O que muda é a composição dessa liquidez. 

Na B3, petróleo, finanças, energia e mineração formam o núcleo da negociação. 

Nos Estados Unidos, semicondutores e software ganharam espaço de maneira extraordinária. 

Os números não dizem quais setores devem receber mais ou menos recursos. Eles ajudam a compreender como o dinheiro circula dentro dos mercados acionários e quais atividades concentram a negociação

Mais do que mostrar quanto vale uma empresa, o volume financeiro permite observar quanto o mercado se movimenta ao redor dela e de seu setor

Entre 2020 e 2026, esse mapa se tornou mais concentrado nos dois mercados — mas em torno de histórias econômicas bastante diferentes. 

Nota metodológica 

Na B3, foram selecionados os cinco e os dez setores com maior participação no volume financeiro médio diário de 2026. Para esses mesmos setores, foi calculado o volume médio diário anual entre 2020 e 2025. Portanto, a série histórica mostra a evolução da participação dos setores que atualmente lideram a liquidez da B3, e não o ranking dos setores mais negociados em cada ano. 

No S&P 500, foi utilizada a carteira atual do índice como universo constante para o cálculo dos volumes de 2020 a 2026. Assim, os dados históricos representam a evolução da negociação das empresas que atualmente integram o índice, e não a composição histórica do S&P 500 em cada ano. 

A classificação setorial utilizada no levantamento é própria da base analisada e apresenta maior nível de detalhamento do que classificações setoriais mais agregadas. Dessa forma, os percentuais devem ser interpretados dentro da metodologia adotada pela Elos Ayta.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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