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Dividendos caem com juros altos, mas retomada está posta

Cenário financeiro mais adverso não comprometeu eficiência operacional nem capacidade de geração de caixa pelas empresas


Einar Rivero. Foto: Divulgação

Einar Rivero

Einar Rivero é engenheiro e especialista em dados financeiros, com carreira dedicada à análise de informações econômicas e à geração de insights estratégicos para o mercado. Ao longo de mais de duas décadas, atuou em posições de liderança em grandes plataformas de dados, consolidando-se como referência em estudos e levantamentos sobre o mercado financeiro brasileiro, América Latina e EUA.


As empresas abertas pagaram menos dividendos no primeiro semestre de 2026. O movimento aparece em levantamento da consultoria Elos Ayta analisando 279 companhias listadas desde março de 2022.

No segundo trimestre deste ano, o grupo desembolsou R$ 36,4 bilhões em proventos. É o menor valor da série iniciada em 2022. No primeiro trimestre, o total havia sido de R$ 57,9 bilhões, também abaixo da média histórica. Os dois números contrastam com o pico de R$ 156,1 bilhões registrado em setembro de 2022 e com o resultado de R$ 99,9 bilhões do quarto trimestre de 2025.

O padrão se repete quando a Petrobras sai da conta. Sem a estatal, os pagamentos somaram R$ 28,8 bilhões no segundo trimestre e R$ 46,3 bilhões no primeiro. Ambos os números ficam entre os mais baixos da série sem Petrobras, que começou em R$ 41,5 bilhões em março de 2022 e chegou a R$ 91,8 bilhões no quarto trimestre do ano passado (Observe o gráfico).

O peso dos juros altos

Um dos fatores por trás da queda é o custo do crédito. A Selic permanece em patamar restritivo. O Banco Central cortou a taxa para 14% ao ano na reunião de agosto, quarto corte consecutivo em 2026. Ainda assim, o nível segue acima do que o próprio Banco Central (BC) considera neutro para a economia.

Juros altos encarecem o serviço da dívida das empresas. O efeito aparece no resultado financeiro, linha que fica abaixo do lucro operacional. Companhias com dívida em CDI ou em taxas pós-fixadas pagam mais juros sobre esses passivos enquanto a Selic está elevada. Isso reduz o lucro líquido, mesmo quando a operação vai bem.

O ponto central é este: a geração de caixa operacional das empresas brasileiras não piorou na mesma proporção que os dividendos. O aperto aparece mais na linha financeira do balanço do que na atividade em si. Setores com caixa robusto e previsibilidade de receita, como energia elétrica, bancos e commodities, continuam entre os maiores pagadores.

A concentração setorial reforça esse diagnóstico. Entre as 13 maiores pagadoras de dividendos e juros sobre capital próprio do ano até setembro, cinco eram bancos. A Petrobras liderou o ranking, com R$ 37,3 bilhões distribuídos. Itaú Unibanco pagou R$ 28,2 bilhões. Vale distribuiu R$ 19,4 bilhões. Ambev completou o grupo de líderes, com R$ 10,8 bilhões.

Juntas, as 13 maiores pagadoras somaram R$ 158,8 bilhões até setembro do ano passado, valor 3,8% acima do mesmo período de 2024. O dado mostra que a base pagadora de dividendos não encolheu de forma generalizada. O recuo recente concentra-se em fatores de calendário e de custo financeiro, não em uma crise de geração de caixa nas companhias líderes.

Mudança tributária

O segundo fator é a Lei 15.270/2025, sancionada em outubro do ano passado. A partir de janeiro de 2026, dividendos e lucros pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa física em valor acima de R$ 50 mil no mês passaram a sofrer retenção de 10% de Imposto de Renda na fonte. Até então, a distribuição de lucros era isenta desde 1996.

A nova regra levou empresas a anteciparem pagamentos. Companhias com lucros acumulados até 2025 tinham incentivo para aprovar a distribuição antes do fim do ano, dentro da janela sem tributação. O resultado apareceu nos números do quarto trimestre de 2025: R$ 99,9 bilhões pagos pelo grupo de 279 empresas, o segundo maior valor da série, atrás apenas do pico de 2022.

Esse movimento de antecipação ajuda a explicar por que o primeiro e o segundo trimestres de 2026 vieram mais fracos. Parte do que seria pago neste ano já saiu do caixa das empresas em dezembro passado. A comparação trimestral, isolada, capta esse efeito de calendário e não necessariamente uma deterioração da capacidade de pagamento das companhias.

Resultados operacionais melhores

Apesar do recuo recente, o quadro operacional das companhias abertas segue sólido. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização de boa parte das empresas do Ibovespa cresceu ao longo de 2025, puxado por setores como bancos, energia e consumo. A geração de caixa continua consistente nos segmentos que tradicionalmente sustentam a distribuição de proventos no Brasil.

O ciclo de corte de juros já começou. O Copom promoveu quatro reduções da Selic em 2026 e o mercado projeta a taxa em 13,75% ao ano até o fim do período, segundo o boletim Focus. Cada corte reduz o custo da dívida das empresas alavancadas e libera caixa que hoje vai para o pagamento de juros. Esse caixa tende a migrar, com o tempo, para a linha de dividendos.

A lógica é direta. Se o resultado operacional se mantém forte e a despesa financeira cai, o lucro líquido tende a subir. Lucro maior amplia a base de cálculo dos dividendos, sujeitos a política de distribuição de cada empresa. O efeito não é imediato. Contratos de dívida têm prazos e taxas diferentes, e a transmissão da queda da Selic aos balanços leva alguns trimestres para se completar.

A mudança tributária também tende a se acomodar no comportamento das empresas. Passada a fase de antecipação de pagamentos que marcou o fim de 2025, a distribuição de proventos deve voltar a seguir mais de perto o calendário natural de resultados trimestrais, sem o efeito de concentração observado na virada do ano passado.

Vetores favoráveis

Para o acionista, o cenário à frente combina dois vetores favoráveis: uma base operacional mais robusta nas companhias listadas e uma trajetória de juros em queda. A combinação tende a favorecer, adiante, o retorno em dividendos na bolsa brasileira, ainda que o ritmo dependa da velocidade dos próximos cortes da Selic e da reação de cada setor ao novo cenário tributário.

A próxima reunião do Copom, marcada para 15 e 16 de setembro, deve dar mais pistas sobre o ritmo dos cortes seguintes. Enquanto a taxa básica recua de forma gradual, o investidor de dividendos tende a olhar menos para o resultado trimestral isolado e mais para a trajetória de médio prazo do lucro operacional e da dívida das empresas em carteira.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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