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Einar Rivero: BB Seguridade e Klabin tiram elétricas do topo das ações menos voláteis do Ibovespa
Pela primeira vez desde 2020, empresas de energia ficam fora das duas primeiras posições do ranking; setor ainda ocupa 19 dos 35 lugares analisados pela Elos Ayta
Einar Rivero
Einar Rivero é engenheiro e especialista em dados financeiros, com carreira dedicada à análise de informações econômicas e à geração de insights estratégicos para o mercado. Ao longo de mais de duas décadas, atuou em posições de liderança em grandes plataformas de dados, consolidando-se como referência em estudos e levantamentos sobre o mercado financeiro brasileiro, América Latina e EUA.
Depois de dominar o ranking das ações menos voláteis do Ibovespa B3 durante a maior parte dos últimos sete anos, o setor elétrico perdeu as duas primeiras posições em 2026. BB Seguridade e Klabin assumiram a liderança, enquanto a Cemig, elétrica mais bem colocada no período, aparece somente no terceiro lugar.
O levantamento foi elaborado pela Elos Ayta e considera, em cada ano, as cinco ações com menor volatilidade anualizada entre os papéis que integravam a carteira do Ibovespa no encerramento daquele período. Para 2026, foram utilizados os dados acumulados até 3 de setembro, convertidos para uma base anual.
A BB Seguridade apresentou volatilidade de 20,11 em 2026, seguida pela Klabin, com 21,13. Cemig, com 22,83, Taesa, com 23,20, e Caixa Seguridade, com 23,70, completaram a relação das cinco ações menos voláteis.
A mudança chama a atenção porque quebra um padrão consolidado. Esta é a primeira vez, desde o início da série, que as empresas de energia elétrica ficam fora das duas primeiras posições. A Taesa, líder do ranking em cinco dos sete períodos, recuou para o quarto lugar. Ao mesmo tempo, duas seguradoras passaram a figurar entre as cinco ações mais estáveis da carteira.
O resultado não representa o desaparecimento da característica defensiva das elétricas. Cemig e Taesa continuam entre as cinco primeiras. O que ocorreu foi uma mudança no topo, com o avanço de BB Seguridade e a estreia da Klabin no ranking.
A presença da Klabin na segunda posição é um dado particularmente novo. A empresa de papel e celulose não havia aparecido entre as cinco menos voláteis nos seis anos anteriores. Por isso, ainda não é possível saber se o resultado indica uma mudança estrutural ou uma condição específica de 2026. A permanência no ranking nos próximos anos ajudará a responder essa questão.
A ação mais estável oscilou mais que o Ibovespa
Há uma aparente contradição nos números de 2026. Mesmo sendo a ação menos volátil da carteira, a BB Seguridade apresentou volatilidade superior aos 18,80 registrados pelo Ibovespa. O mesmo ocorreu com Klabin, Cemig, Taesa e Caixa Seguridade.
Isso acontece porque o Ibovespa reúne dezenas de ações de diferentes empresas e setores. Quando alguns papéis sobem e outros caem, parte das oscilações se compensa. A diversificação pode, portanto, fazer com que o conjunto apresente volatilidade inferior à de cada ação considerada isoladamente.
Assim, liderar o ranking significa ser a ação que menos oscilou entre as empresas da carteira. Não significa necessariamente oscilar menos que o índice.
A volatilidade também não informa se uma ação subiu ou caiu. Ela mede a intensidade das variações de preço. Uma empresa pode apresentar baixa volatilidade e acumular uma desvalorização gradual. Outra pode oscilar intensamente e encerrar o período com valorização expressiva.
Por isso, baixa volatilidade não é sinônimo de retorno positivo. O indicador mostra quanto o investidor precisou conviver com oscilações durante o percurso, mas não revela, isoladamente, se o destino foi compensador.
Energia ainda domina a fotografia de longo prazo
Se a novidade de 2026 está na mudança de liderança, a fotografia de longo prazo continua amplamente favorável às elétricas. Das 35 posições disponíveis entre as cinco ações menos voláteis de cada ano, de 2020 a 2026, 19 foram ocupadas por companhias de energia elétrica.
O setor respondeu por mais da metade das ocorrências e esteve representado no ranking em todos os sete períodos. Nenhuma outra atividade demonstrou regularidade semelhante.
A Taesa é o caso mais representativo. A TAEE11 apareceu entre as cinco ações menos voláteis do Ibovespa em todos os anos analisados. Além disso, ocupou a primeira posição em cinco oportunidades: 2020, 2022, 2023, 2024 e 2025.
Em três desses períodos, a volatilidade da Taesa também ficou abaixo da registrada pelo próprio Ibovespa. Isso ocorreu em 2020, quando o indicador da ação foi de 24,77, ante 45,28 do índice; em 2022, com 18,85, diante de 20,99; e em 2023, com 14,96, contra 17,15 do Ibovespa.
Mesmo perdendo a liderança em 2026, a Taesa continua sendo a empresa mais regular de toda a amostra. Uma companhia pode entrar no ranking em determinado ano devido a uma circunstância pontual. Estar entre as cinco menos voláteis durante sete anos seguidos, atravessando diferentes cenários econômicos e políticos, sugere uma característica mais estrutural do negócio.
A Engie Brasil Energia também merece destaque. A EGIE3 figurou entre as cinco menos voláteis durante cinco anos consecutivos, de 2020 a 2024. Em quatro dessas oportunidades, apresentou volatilidade inferior à do Ibovespa.
Energias do Brasil, que posteriormente deixou a bolsa, apareceu três vezes, assim como a ISA Energia. CPFL Energia e Cemig completam a presença do setor no levantamento.
Por que as elétricas oscilam menos?
A predominância das empresas de energia elétrica não parece casual. O setor fornece um serviço essencial, cuja demanda tende a variar menos que a de produtos e serviços diretamente dependentes do crescimento econômico. Mesmo quando a atividade desacelera, famílias e empresas continuam consumindo eletricidade.
Boa parte das companhias também opera com concessões, contratos de longo prazo e mecanismos regulatórios de revisão ou reajuste de receitas. Essas características não eliminam os riscos, mas aumentam a previsibilidade do fluxo de caixa.
Quanto maior a capacidade do mercado de estimar receitas e resultados futuros, menor tende a ser a necessidade de alterações bruscas no preço das ações. É essa previsibilidade que ajuda a transformar o caráter defensivo do negócio em menor volatilidade na bolsa.
Muitas elétricas também são empresas maduras e distribuidoras recorrentes de dividendos. A combinação de receitas relativamente previsíveis, contratos extensos e remuneração ao acionista atrai investidores interessados em estabilidade e pode reduzir a intensidade das oscilações.
Isso não significa que o setor seja imune a riscos. Mudanças regulatórias, endividamento elevado, aumento do custo de capital, condições climáticas e decisões governamentais podem afetar os resultados. Os juros altos também pressionam empresas intensivas em capital e criam concorrência para os dividendos oferecidos pelas ações.
Seguradoras avançam no ranking
A mudança de 2026 também reforça a presença das seguradoras. Depois das elétricas, elas formam o setor com maior participação no levantamento, ocupando sete das 35 posições.
A BB Seguridade responde por seis dessas ocorrências. A BBSE3 ficou fora do grupo somente em 2022 e assumiu, em 2026, pela primeira vez, a posição de ação menos volátil do Ibovespa. A Caixa Seguridade completa a participação do segmento no ano.
A regularidade das seguradoras pode ser explicada pela natureza de suas operações. Essas empresas recebem prêmios, administram reservas e utilizam modelos estatísticos para estimar a ocorrência de sinistros. Além do resultado operacional, obtêm receitas financeiras com os recursos mantidos em carteira.
Em períodos de juros elevados, a rentabilidade dessas aplicações pode contribuir para os resultados. No caso de BB Seguridade e Caixa Seguridade, as amplas redes de distribuição bancária também favorecem a recorrência das vendas e reduzem a necessidade de grandes estruturas comerciais próprias.
A liderança da BB Seguridade, portanto, não surge completamente de surpresa. A empresa já vinha aparecendo com frequência entre as ações menos voláteis. A novidade está em transformar essa regularidade em liderança justamente no ano em que as elétricas perderam as duas primeiras posições.
As seguradoras, porém, também estão sujeitas a riscos. Aumento inesperado dos sinistros, mudanças regulatórias, maior concorrência e alterações nas taxas de juros podem modificar os resultados e a percepção dos investidores.
Os bancos aparecem duas vezes na relação, com Banco do Brasil em 2024 e Itaú Unibanco em 2025. Embora a participação seja mais discreta que a das seguradoras, ela reforça a presença de empresas financeiras maduras, com receitas diversificadas e elevada liquidez em bolsa.
Somadas, seguradoras e bancos ocuparam nove das 35 posições. Juntos com as elétricas, esses setores responderam por 28 ocorrências, o equivalente a quatro quintos de todo o ranking. O resultado mostra a concentração das menores volatilidades em atividades maduras, reguladas e com receitas relativamente recorrentes.
Da turbulência de 2020 à calmaria de 2024
A comparação anual também funciona como uma fotografia do grau de incerteza do mercado. Em 2020, no início da pandemia, a volatilidade do Ibovespa alcançou 45,28, o maior nível da série. Mesmo as ações mais estáveis apresentaram indicadores elevados em comparação com os anos seguintes.
Naquele período, a Taesa liderou o ranking com volatilidade de 24,77, pouco mais da metade da registrada pelo índice. Engie, Energias do Brasil, BB Seguridade e Carrefour completaram a relação.
O contraste mostra como alguns modelos de negócio conseguiram amortecer parte de um choque que atingiu todo o mercado. Não ficaram imunes à turbulência, mas oscilaram significativamente menos que o Ibovespa.
Nos anos seguintes, a volatilidade do índice diminuiu. Passou para 21,03 em 2021, 20,99 em 2022 e 17,15 em 2023. O ponto mais baixo foi alcançado em 2024, quando o Ibovespa registrou volatilidade de 12,88.
A instabilidade voltou a crescer posteriormente. O indicador subiu para 15,12 em 2025 e alcançou 18,80 em 2026 até 3 de setembro. O mercado atual ainda está muito distante do choque observado em 2020, mas já apresenta oscilações superiores às verificadas nos três anos anteriores.
Como 2026 ainda não terminou, o número deve ser interpretado como uma fotografia parcial. A anualização coloca o indicador na mesma escala dos anos anteriores, mas não elimina a possibilidade de alterações provocadas pelos acontecimentos dos últimos meses do ano.
Maior volatilidade não garante maior retorno
A teoria financeira estabelece que o investidor tende a exigir maior retorno para aceitar mais risco. Essa relação, porém, é frequentemente interpretada de maneira equivocada. Assumir maior volatilidade não garante remuneração superior. Significa apenas aceitar uma faixa mais ampla de resultados possíveis.
Uma ação muito volátil pode proporcionar ganhos expressivos, mas também pode provocar perdas relevantes. Uma ação menos volátil tende a oferecer um percurso mais regular, embora isso não garanta valorização.
Estudos acadêmicos realizados em diferentes mercados identificaram o chamado efeito da baixa volatilidade. Em diversas janelas históricas, ações menos voláteis entregaram retornos ajustados ao risco iguais ou superiores aos de papéis mais instáveis.
Uma das explicações é comportamental. Investidores atraídos pela possibilidade de ganhos rápidos podem concentrar a procura nas ações mais voláteis e pagar preços elevados demais por elas. As empresas mais previsíveis, por despertarem menos entusiasmo, podem acabar relativamente subavaliadas.
Outra explicação está no comportamento dos investidores institucionais. Gestores avaliados em relação a um índice de referência podem preferir ações mais agressivas para tentar superar o mercado. Esse movimento aumenta a demanda pelos papéis mais voláteis, sem assegurar que eles entregarão retornos proporcionais ao risco assumido.
O levantamento da Elos Ayta não mede essa possível vantagem, pois seu objetivo é identificar a volatilidade, e não comparar a rentabilidade das ações. Para saber se uma empresa ofereceu uma relação mais eficiente entre risco e retorno, seria necessário analisar os dois indicadores em conjunto.
Ainda assim, os números deixam uma mensagem importante. Na renda variável, não basta observar o ponto de chegada. Também é preciso entender o caminho percorrido. Duas ações podem apresentar a mesma valorização, mas aquela que alcançou o resultado com menor volatilidade exigiu menos tolerância às oscilações.
A baixa volatilidade não substitui a análise dos resultados, do endividamento, da governança e das perspectivas de cada companhia. Também não representa garantia de estabilidade futura. O indicador ajuda, no entanto, a identificar os negócios que demonstraram maior previsibilidade em diferentes ambientes.
Entre 2020 e 2025, as elétricas ocuparam o centro dessa fotografia. Em 2026, continuam relevantes, mas já não estão sozinhas no comando. A chegada de BB Seguridade e Klabin às duas primeiras posições é o dado novo de um ranking que, até agora, parecia ter dono.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3