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Alexandre Frade: Incerteza radical e construção de portfólio. Como prever menos pode significar investir melhor

Aumento das incertezas implica em novos olhares para a construção de carteiras de investimentos


Alexandre Frade, da Itaú Asset

Alexandre Frade, da Itaú Asset

Sênior Portfolio Manager de Estratégias Indexadas da Itaú Asset Management. Experiência de 10 anos em Fundos de Pensão, e 5 anos na BlackRock como Gestor Sênior de ETFs listados na América Latina. Desde 2018, trabalha na Itaú Asset com foco em mandatos Indexados e ETFs.


A discussão sobre previsões econômicas ganhou novo fôlego com o artigo recente de Morten Nyboe Tabor, que questiona se ainda é possível antecipar o futuro econômico em um mundo marcado por transformações profundas e imprevisíveis. O ponto central não é apenas que a incerteza aumentou, mas que entramos em um ambiente de incerteza radical: situações em que não sabemos quais cenários são possíveis, tampouco conseguimos atribuir probabilidades confiáveis a eles. 

Grande parte da análise macroeconômica tradicional parte da premissa de que o futuro é uma variação estatística do passado. Modelos são calibrados com dados históricos, assumindo estabilidade nas relações entre crescimento, inflação, juros e preços de ativos. O desafio é que mudanças estruturais: geopolíticas, tecnológicas, demográficas ou institucionais, quebram essas relações. Quando isso ocorre, erros de previsão deixam de ser exceções e passam a ser sinais claros de que o modelo não representa mais a realidade. 

Essa reflexão tem implicações diretas para a forma como os portfólios são construídos. 

Durante muito tempo, a alocação de ativos foi organizada em torno de um “cenário central”: um conjunto de projeções consideradas mais prováveis, a partir do qual se define o portfólio ótimo. Em um ambiente de incerteza radical, essa abordagem se torna frágil. O risco maior não é errar o número exato, mas estruturar o portfólio de forma excessivamente dependente de uma narrativa específica sobre o futuro. 

É nesse ponto que o uso de ETFs ganha relevância estratégica. 

Mais do que instrumentos eficientes de acesso a mercados, ETFs funcionam como blocos modulares de construção de portfólio. Eles permitem combinar, de forma simples e transparente, diferentes classes de ativos, regiões, estilos e fatores de risco, reduzindo a dependência de previsões pontuais e aumentando a robustez da alocação. 

Em vez de buscar o “melhor cenário”, a lógica passa a ser: 

  • diversificar entre múltiplas fontes de risco; 
  • combinar ativos que reagem de maneira distinta a inflação, crescimento e juros reais
  • manter flexibilidade para ajustes conforme novos sinais surgem. 

ETFs reduzem o custo de errar e ampliam a capacidade de adaptação. É possível reforçar ou reduzir exposições de forma rápida, sem a necessidade de grandes reestruturações, algo essencial quando mudanças estruturais ocorrem de forma inesperada. 

Em um mundo de incerteza radical, investir bem não significa prever corretamente o próximo movimento da economia. Significa construir portfólios capazes de atravessar diferentes regimes, preservando a capacidade de ajuste e evitando erros irreversíveis. Cada vez mais, o foco do investidor se desloca da previsão para a engenharia de portfólio, e os ETFs ocupam um papel central nesse processo. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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