Investir melhor
Yo Fordelone: Entre método e emoção, investir é mais simples do que parece
Quando o assunto são investimentos, muitas vezes agimos como se o simples não fosse suficiente
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
O simples funciona. Consegui reduzir algumas medidas depois de cinco meses bebendo mais água, dormindo adequadamente, fazendo exercícios pelo menos cinco vezes na semana, ajustando a alimentação e incluindo drenagem para desinchar. Nada milagroso, mas consistente, repetido e, principalmente, possível de sustentar.
Apesar de termos essa mesma “receita” à disposição, quando o assunto são investimentos, muitas vezes agimos como se o simples não fosse suficiente. Existe uma sensação constante de que podemos estar ficando para trás, de que há alguma oportunidade imperdível acontecendo em outro lugar. E, movidos por esse desconforto, acabamos abrindo exceções: incluímos produtos mais complexos, fugimos da nossa própria tese e embarcamos em modas que, no fundo, não fazem tanto sentido para o nosso objetivo.
Não falo de um lugar de distanciamento. Já cometi esse tipo de erro mais vezes do que gostaria. Comprei COEs que deixaram meu dinheiro parado por anos, investi em fundos caros que não entregaram o que prometiam e comprei ações sem entender profundamente o negócio ou o setor. Em comum, todas essas decisões tinham menos método do que emoção.
Com o tempo, fui percebendo que investir melhor não exigia mais sofisticação. Exigia mais clareza e disciplina. Passei, então, a seguir algumas regras simples, que hoje funcionam como um filtro para as minhas decisões.
A primeira delas é nunca comprar uma ação sem ter uma noção clara de até quanto vale a pena pagar. Ter um preço teto não elimina o risco, mas evita que a decisão seja guiada pelo momento ou pela euforia. Nem toda oportunidade precisa ser aproveitada, e muitas vezes o melhor movimento é simplesmente não fazer nada.
Também busco empresas que ofereçam um retorno mínimo em dividendos, próximo de 6% ao ano. Esse critério, por si só, não garante qualidade, mas ajuda a trazer previsibilidade e cria uma camada adicional de retorno que não depende exclusivamente da valorização do preço da ação.
Outro ponto importante é a forma de entrada. Ao lidar com valores mais altos, dificilmente concentro a compra em um único momento. Dividir os aportes reduz o risco de errar o timing e diminui a ansiedade por tentar acertar o “melhor preço”, algo que, na prática, ninguém consegue fazer de forma consistente.
Além disso, mudei a forma como enxergo minha própria carteira. Durante muito tempo, foquei apenas no valor total investido. Hoje, quando penso em renda, faz mais sentido acompanhar a quantidade de ações que possuo. Afinal, são elas que determinam o fluxo de dividendos no longo prazo, independentemente das oscilações de mercado.
Por fim, passei a ter mais cautela com rebalanceamentos frequentes. Ajustar a carteira é necessário, mas o excesso de movimentação pode levar a pagar muitas taxas e impostos, além de tomar decisões ruins como vender bons ativos apenas para “fazer algo” ou perseguir oportunidades que parecem melhores no curto prazo, mas não se sustentam ao longo do tempo.
No fim, investir bem tem menos a ver com genialidade e mais com consistência. Assim como na saúde, os resultados não vêm de soluções pontuais, mas da repetição de hábitos simples ao longo dos anos.
Pode não ter glamour, nem gerar histórias impressionantes para contar. Mas é justamente esse tipo de disciplina silenciosa que, no longo prazo, constrói resultados reais.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3