Organizar as contas
Yo Fordelone: antes do milhão, corte um zero
A internet costuma mostrar apenas a linha de chegada da liberdade financeira. Mas quase ninguém fala sobre o quanto a vida já melhora nos quilômetros anteriores
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
Nas últimas semanas, me chamou a atenção um comentário repetido por uma mesma pessoa em diferentes posts sobre investimentos: “tá muito distante pra mim”. Era um comentário sobre juntar R$ 1 milhão. Depois apareceu em outro vídeo sobre alcançar uma renda de R$ 15 mil por mês. E eu fiquei pensando em como, muitas vezes, a ideia de liberdade financeira parece um lugar tão distante que algumas pessoas desistem antes mesmo de começar.
Talvez porque a internet tenha transformado o “viver de renda” em um único objetivo possível. Como se liberdade financeira só existisse quando alguém consegue largar o trabalho, morar na praia e viver de dividendos.
Mas liberdade financeira não é um botão que liga de uma vez. Ela acontece em camadas.
E talvez o problema esteja justamente no tamanho da meta. Quando alguém olha para R$ 1 milhão e pensa “isso nunca vai acontecer”, meu conselho é simples: corta um zero.
Em vez de pensar no primeiro milhão, pense nos primeiros R$ 100 mil. Se R$ 100 mil ainda parecer impossível, pense nos primeiros R$ 10 mil. Porque a sensação de liberdade começa muito antes do “viver de renda”. Penso que há pelo menos 5 níveis de liberdade:
1. Existe a liberdade dos pais: quando você consegue pagar suas próprias contas e não depende mais de alguém para sustentar sua vida.
2. Existe a liberdade das dívidas: quando o cartão de crédito deixa de ser extensão do salário e você para de precisar de empréstimos para fechar o mês.
3. Existe a liberdade do ciclo salarial: aquela tranquilidade de saber que, se o salário atrasar, sua vida não entra imediatamente em colapso. Você consegue atravessar semanas, ou poucos meses, sem desespero.
4. Depois vem a liberdade do emprego: ter uma reserva que permita dizer “não” para ambientes ruins, abusivos ou simplesmente incompatíveis com a vida que você quer construir. É poder respirar antes de aceitar qualquer proposta por necessidade. Esse nível de liberdade permite você pensar com calma durante uma transição de carreira ou emprego.
5. E existe também a liberdade de trabalhar porque você quer, e não porque precisa desesperadamente. Quando os investimentos começam a sustentar parte (ou todo) do seu estilo de vida.
Percebe como existem vários níveis entre o zero e a independência financeira total?
A internet costuma mostrar apenas a linha de chegada. Mas quase ninguém fala sobre o quanto a vida já melhora nos quilômetros anteriores.
Talvez você ainda esteja distante do objetivo final. Tudo bem. A maioria das pessoas também está.
Mas conquistar pequenas parcelas de liberdade já muda completamente a relação com dinheiro, trabalho e tempo.
Sempre que desestimular, pense que ter alguma liberdade financeira é infinitamente melhor do que não ter nenhuma.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3