Investir melhor
Por que tanta gente investe e continua pobre
Guardar dinheiro não significa necessariamente aumentar o patrimônio em termos reais
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
A frase pode parecer contraditória, mas faz bastante sentido: muita gente investe, mas continuará a ser pobre. Com certeza, o problema não está apenas nos investimentos.
A primeira questão é entender o que significa ser rico no Brasil. Essa resposta é individual. Para uma família, ter R$ 20 mil de renda mensal pode representar uma excelente situação financeira na realidade brasileira. Mas arrisco dizer que com certeza há quem ache pouco. Assim como há quem considere patrimônio de R$ 1 milhão uma fortuna, há quem ache que o valor está longe de tornar alguém rico.
No Brasil, uma renda mensal de R$ 20 mil está muito acima da renda da maior parte da população. Ainda assim, alguém que ganha esse valor pode olhar para pessoas que ganham R$ 50 mil, R$ 100 mil ou mais e concluir que “ainda não chegou lá”.
E é aí que começa um problema. Se a definição de riqueza muda conforme a renda aumenta, a sensação de nunca ter dinheiro suficiente pode ser permanente.
Outro fenômeno ainda mais comum é o aumento do padrão de vida.
A pessoa começa ganhando R$ 5 mil e aprende a viver com R$ 4 mil. Depois passa a ganhar R$ 8 mil e, aos poucos, seus gastos também chegam a R$ 7 mil. Quando a renda alcança R$ 12 mil, ela já tem uma casa maior, um carro melhor, viagens mais caras, restaurantes mais frequentes e novas despesas que antes nem faziam parte da sua realidade.
Ela continua investindo. Só que o patrimônio não cresce na mesma velocidade que a renda.
É a chamada inflação do estilo de vida: quanto mais se ganha, mais se gasta. A má notícia é que a sensação de que é preciso ganhar ainda mais permanece.
Mas existe uma terceira armadilha, especialmente perigosa porque pode passar despercebida. Estou falando da nossa conhecida inflação.
Guardar dinheiro não significa necessariamente aumentar o patrimônio em termos reais. Se uma pessoa deixa seus recursos rendendo abaixo da inflação durante anos, pode até observar o saldo da conta crescendo, mas seu poder de compra pode estar diminuindo.
É por isso que não basta olhar para o número que aparece na carteira. Uma aplicação que rende 8% ao ano pode parecer ótima, mas, se a inflação estiver em 6%, o ganho real é bem menor. E, depois de impostos e taxas, pode ser ainda menor.
Dinheiro parado ou mal remunerado também pode perder valor enquanto o investidor acredita que está acumulando.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “quanto dinheiro eu tenho?”, mas “quanto esse dinheiro consegue comprar no futuro?”.
Investir é fundamental. Buscar boas rentabilidades, proteger o patrimônio da inflação e manter uma estratégia de longo prazo fazem parte da construção de riqueza. Mas existe algo anterior a tudo isso que é definir o que é riqueza para você.
Porque, se cada aumento de renda vier acompanhado de um aumento equivalente (ou maior) nos gastos, e se a sua meta financeira também aumentar toda vez que você se aproxima dela, talvez você passe a vida inteira correndo atrás de um número que nunca chega.
Riqueza não é apenas ganhar muito. É conseguir transformar renda em patrimônio, preservar o poder de compra e, em algum momento, perceber que você já tem o suficiente para viver a vida que escolheu.
Talvez o problema de tanta gente que investe e continua “pobre” seja justamente esse: não é que nunca tenham acumulado. É que nunca decidiram quanto seria suficiente.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3