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Yo Fordelone: Você está preparado para viver num mundo mais caro?
Um mundo mais caro muda a conta da aposentadoria. Quando pensamos em se aposentar, projetamos um valor de renda mensal baseado no custo de vida de hoje
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
Lembra do preço do quilo da carne antes da pandemia? Ou de quanto custava o aluguel do seu bairro? Se parece coisa de outra vida, é porque é. Desde 2020, o mundo mudou de patamar de preços e, ao que tudo indica, não vai voltar atrás tão cedo.
A pandemia quebrou cadeias produtivas inteiras. Depois vieram as guerras, as tensões comerciais entre grandes economias e uma leva de políticas públicas voltadas para estimular consumo.
O resultado foi uma inflação que, mesmo depois de arrefecer em vários países, segue mais teimosa do que os bancos centrais gostariam. Não é à toa que juros como os do Brasil seguem em patamar elevado: cortar juro com inflação pressionada é abrir mão de controle, e nenhum Banco Central quer correr esse risco.
No Brasil, o Copom cortou a Selic pela quarta vez seguida em agosto, para 14% ao ano, mas com comunicado mais cauteloso. Nos EUA, o Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75% pela quinta reunião seguida, em decisão dividida: parte do comitê já defende alta, não corte. Na zona do euro, o BCE também manteve a taxa, em 2,15%.
Isso muda a conta de todo mundo. Principalmente a da aposentadoria.
Quando pensamos em se aposentar, projetamos um valor de renda mensal baseado no custo de vida de hoje. O problema é que esse custo de vida não é fixo. Ele cresce, e em alguns períodos cresce rápido.
Se a sua meta de patrimônio foi calculada com o nível de preços de 2019, ela já está desatualizada. Um mundo estruturalmente mais caro exige um patrimônio maior para entregar o mesmo padrão de vida.
E tem outro ponto que costuma passar batido: viver mais tempo também é viver mais anos exposto à inflação. Com a expectativa de vida aumentando, o dinheiro guardado para a aposentadoria precisa resistir a décadas de preços subindo, não só aos primeiros anos após parar de trabalhar.
A boa notícia é que juro alto também é oportunidade. Quem investe em renda fixa hoje consegue travar taxas reais (acima da inflação) bem mais generosas do que em ciclos de juro baixo. O ponto de atenção é não se acomodar: travar uma taxa boa hoje não resolve o problema se o restante da carteira não acompanhar o custo de vida no longo prazo.
Vale revisar três coisas na prática:
- A meta de aposentadoria: refaça a conta considerando um custo de vida mais alto, não o de alguns anos atrás.
- O horizonte de investimento: juro alto favorece renda fixa agora, mas a aposentadoria é um objetivo de décadas. Proteção contra inflação de longo prazo continua exigindo diversificação.
- O hábito de aportar: em um mundo mais caro, poupar o mesmo valor de sempre rende, na prática, menos poder de compra. Reajustar os aportes com o tempo é parte do jogo.
Viver num mundo mais caro não pede pânico, pede ajuste de rota. Quem atualiza o plano agora chega na aposentadoria com menos surpresas e mais liberdade para escolher como viver dela.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3