Investir melhor
Yo Fordelone: Investir não é tão sexy como te venderam
Nas redes sociais, é natural que o que chama atenção seja o extraordinário. O problema é que, quando consumimos apenas esse tipo de conteúdo, começamos a imaginar que investir deveria ser assim o tempo inteiro
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
Nesta semana, acordamos nos anos 80. A nova trend das redes sociais transformou fotos atuais em imagens daquela década: roupas, cabelos, cores, poses e toda aquela estética que, vista hoje, parece quase cinematográfica. A inteligência artificial fez sua parte e entregou versões muito mais bonitas, coloridas e charmosas do que provavelmente eram na vida real.
Até que me deparei com um post diferente: fotos reais dos anos 80. E aí veio o choque.
Os cabelos eram mais estranhos, as fotos tinham menos cor, as roupas nem sempre eram tão incríveis e a vida cotidiana era, bem… cotidiana. Nada daquele filtro nostálgico que nossa imaginação (e agora a IA) colocou sobre a década.
Fiquei pensando: será que não fazemos algo parecido com os investimentos?
Existe uma imagem bastante glamourosa do que é investir. A bolsa subindo enquanto alguém acompanha 15 telas ao mesmo tempo. O investidor descobrindo uma ação que vai “explodir” e torná-lo rico em poucos meses. O gráfico cheio de linhas coloridas. A promessa de encontrar o próximo grande investimento antes de todo mundo.
Só que investir, na maior parte do tempo, é bem menos emocionante.
Não há uma ação milagrosa, não é preciso passar o dia acompanhando a bolsa e, para a maioria das pessoas, não faz sentido ficar tomando decisões todos os dias.
Na verdade, muitas vezes, o melhor investimento é justamente aquele que não exige nenhuma decisão nova. Você escolhe uma estratégia, diversifica, controla os custos, faz aportes regularmente e deixa o tempo trabalhar. E então… espera.
Só que esperar parece difícil num mundo bem imediatista. Uma pesquisa recente publicada na Finance Research Letters encontrou uma associação entre o uso de redes sociais para buscar informações sobre investimentos e uma maior orientação para o curto prazo, em detrimento de objetivos de longo prazo. O efeito foi ainda mais forte entre investidores mais jovens e aqueles que demonstravam excesso de confiança.
Talvez faça sentido: quando nosso contato com o mercado acontece principalmente pelo feed, somos expostos o tempo todo ao que está subindo, ao investimento da vez e à próxima grande oportunidade. O problema é que patrimônio não costuma ser construído na velocidade de um vídeo de 30 segundos.
O básico erros com feijão de investir e esperar parece pouco. Talvez porque confundimos investimento com entretenimento.
Nas redes sociais, é natural que o que chama atenção seja o extraordinário. O problema é que, quando consumimos apenas esse tipo de conteúdo, começamos a imaginar que investir deveria ser assim o tempo inteiro.
Não deveria. Investir bem pode ser até um pouco entediante.
É pagar menos taxas quando existe uma alternativa mais barata. É não trocar de investimento toda vez que aparece uma nova moda. É diversificar mesmo quando parece mais interessante apostar tudo naquela “oportunidade imperdível”. É continuar fazendo aportes quando o mercado está caindo (e também quando está subindo).
É construir patrimônio sem precisar contar uma história emocionante sobre cada real investido.
Isso não significa que investir seja ruim ou que não existam momentos de adrenalina. A bolsa oscila, crises acontecem, empresas surpreendem e boas oportunidades aparecem.
Mas a construção de riqueza raramente acontece em um grande momento cinematográfico. Ela costuma acontecer em pequenas decisões repetidas durante muitos anos.
Talvez seja hora de tirar o filtro dos investimentos também. Porque, assim como os anos 80 provavelmente eram muito menos glamourosos do que parecem nas fotos feitas por IA, investir também pode ser muito menos sexy do que a internet faz parecer.
E tudo bem. Aliás, talvez essa seja justamente a melhor notícia. Se investir bem não precisa ser emocionante, você não precisa transformar seu dinheiro em entretenimento. Você só precisa de uma boa estratégia e de tempo para deixá-la funcionar.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3