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“Com corte de juros e crescimento econômico, há espaço para a bolsa avançar”, diz André Perfeito

Em entrevista ao Bora Investir, economista e consultor falou sobre os cenários para o mercado financeiro em 2024 e as perspectivas para a economia brasileira e mundial

Economista André Perfeito. Foto: Divulgação.
Economista André Perfeito. Foto: Divulgação.

Por Redação B3 Bora Investir

O processo de queda dos juros no Brasil, as perspectivas de crescimento econômico acima de 2%, uma inflação mais acomodada e a queda do dólar, trazem uma perspectiva positiva para os investimentos em 2024

“A conjunção de crescimento econômico – especialmente da atividade doméstica e com uma massa salarial em alta – tende a melhorar os resultados de empresas”, avalia o economista e consultor André Perfeito.

Na renda variável, companhias ligadas ao consumo interno tendem a se beneficiar do cenário benigno da Selic. Já o setor de óleo e gás pode puxar o avanço das exportações e levar o dólar ao patamar pré-pandemia, de R$ 4,30.

“Se continuar entrando dinheiro via balança comercial, é quase inevitável que o real se aprecie. Se de fato os Estados Unidos cortarem a taxa de juros, que seja no meio do ano, está feita a equação”.

Na renda fixa, o Tesouro Direto terá mais um ano promissor, com taxas reais relevantes. No mercado de fundos, 2024 será de amadurecimento.

Confira abaixo a entrevista completa com o economista e consultor André Perfeito.

Bora Investir: A bolsa brasileira terminou 2023 com alta de 22,3% – apesar dos juros elevados em todo o mundo e a nossa questão fiscal. Qual a sua perspectiva para este ano e o impacto que esses fatores podem trazer ao Ibovespa?

André Perfeito: O que importa hoje é a gente olhar a tendência do cenário macroeconômico, para onde estamos indo. No ano passado, a despeito dos juros ainda estarem num patamar elevado, ficou claro no final do 2º trimestre que haveria uma queda da Selic. Essa baixa opera muito fortemente na melhora dos mercados de capitais, pelo simples fluxo de caixa descontado. Ou seja, a queda da taxa de juros força que o preço dos ativos no momento presente sejam mais altos.

Para 2024, temos uma situação que é o copo meio cheio, que vai parecer meio vazio. O que eu quero dizer com isso: você tem uma tendência de corte de taxa de juros. Só que, como o mercado precificou essa queda bastante forte – até 9% ao longo desse ano – se por acaso [o Copom] cortar menos, talvez isso gere um sentimento mais pesado. Por outro lado, existe espaço para a bolsa avançar. Primeiro porque você vai ter um corte de juros. Segundo, você vai ter um aumento da atividade econômica no Brasil, apesar da perspectiva de crescer menos do que em 2023. A minha projeção é de 2,2% de alta.

Então a conjunção de crescimento econômico – especialmente da atividade doméstica e com uma massa salarial em alta – tende a melhorar os resultados de empresas. Algumas já se beneficiaram no passado, como o setor de construção, que é muito sensível às variações de taxa de juro. Agora, se o cenário da Selic já está meio que precificado, para esse setor não tem boas notícias, mas para outros pode ter sim.

Bora Investir: Quais setores podem se beneficiar?

André Perfeito: Acredito que os setores ligados ao consumo de massa. O varejo ainda tem espaço para melhorar, depois de se recuperar no final do ano passado. Serviços às famílias de forma geral – desde serviços para animais até aluguel de veículos. Portanto, tudo que tem a ver com o consumo doméstico tende a ir bem.

Outro setor que deve ser positivo é o de óleo e gás, com um avanço grande nas exportações. Tanto que o real pode até se apreciar sobre o dólar, na esteira de uma balança comercial bastante importante que a gente deve ter.

Bora Investir: Em relação ao dólar, você tem falado que a moeda americana pode chegar até R$ 4,30 neste ano, diante de uma balança comercial mais favorável. Pode explicar essa conta?

André Perfeito: Em 2024 a gente deve voltar ao fundamento, ou seja, fluxo de dólar para o Brasil. Tudo indica que esse fluxo comercial deve ser gigantesco em direção ao País. São as projeções dos economistas do relatório Focus do Banco Central. O ano passado já bateu recorde e o cenário externo está melhorando de novo. Se continuar entrando dinheiro via balança comercial, é quase inevitável que o real se aprecie. Se de fato os Estados Unidos cortarem a taxa de juros, que seja no meio do ano, está feita a equação. Vamos ter o diferencial de juros mais a entrada de dólares pela balança comercial.

A projeção da moeda americana a R$ 4,30 é até conservadora, porque esse era o valor do dólar antes da pandemia. O resultado da balança comercial está se alterando de forma estrutural no Brasil. A Petrobras, depois de 70 anos, está cumprindo sua função de gerar superávit na balança de petróleo e gás. Isso é uma novidade. O Brasil começou a descobrir isso em 2017 e esse processo tem ficado cada vez mais maduro.

Bora Investir: O mercado tem sido impactado pelas discussões de quando os juros dos Estados Unidos devem começar a cair. Como você vê essa questão e por que afeta tanto a renda variável no Brasil?

André Perfeito: Se os juros nos Estados Unidos sobem, em termos relativos, fica melhor investir lá. Essa alta também limita, em alguma medida, a queda da taxa de juros no Brasil. Eu não acho que a Selic vai cair tanto, mas há uma leitura no mercado brasileiro de uma euforia de corte de juros até 9%. É prima irmã da euforia de que ia cortar os juros nos Estados Unidos. Isso tende a se moderar.

Agora, o fato de não cortar os juros americanos em março e cortar em maio, ou mesmo que seja em agosto, isso gerar um mal-estar agora, mas depois volta a melhorar. É normal. O mercado trabalhou num cenário durante um período que se esgotou. O importante é saber que tem espaço para um corte, porque estamos num momento no mundo em que a atividade econômica, de forma geral, sugere um nível de inflação um pouco mais acomodado.

Bora Investir: Que outros fatores macroeconômicos os investidores precisam ficar de olho para fazer melhores escolhas?

André Perfeito: A economia do Brasil deve crescer em 2024 até 2,2%, um valor que considero bastante conservador. Por que estou falando isso? Porque para além de todos os impulsos – queda de taxa de juros, massa salarial num patamar elevado – há uma discussão a respeito da dinâmica fiscal no Brasil. Essa discussão tem a ver com atingir ou não a meta de déficit zero [receitas e despesas em equilíbrio].

Em tese o governo vai gastar bastante com o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento]. Isso sem falar de uma parte importante de recursos públicos para os parlamentares que serão usados no ano eleitoral. O conjunto de emendas é de R$ 53 bilhões. O PAC, que é infraestrutura, é de R$ 55 bilhões. São grandes impulsos que serão jogados na economia brasileira esse ano. Tem muita gente que talvez vá ficar desgostosa porque não vamos ter um resultado primário [diferença entre receitas e despesas] tão bom. Mas acho que o fato da economia ganhar impulso pode ser mais forte do que o mal-estar de não atingir o superávit nesse momento.

Em 2024 a gente também tem outra coisa importante que vai ser o G-20 [organização internacional que reúne as maiores e mais importantes economias do mundo]. Imagina todos os líderes do planeta olhando para o Brasil. Isso pode gerar algum tipo de ânimo também. Pode ser um momento importante para o País no cenário internacional.

Bora Investir: Na renda fixa, 2023 foi positivo para o Tesouro Direto, com taxas altas em todas as modalidades. Como você vê o cenário para 2024?

André Perfeito: Para quem já entrou está lindo e maravilhoso. Agora, dado o nível de preço atual, não tem como melhorar muito mais. Ou seja, o mercado vai revisar de 9% para 7% a Selic no final do ano? Muito difícil. A inflação vai cair muito mais até o final do ano? Também difícil.

O que o Brasil ainda vai oferecer no mercado – especialmente o Tesouro Direto – são taxas reais muito relevantes. Agora ganhar na marcação ao mercado [atualização dos preços de investimentos], na queda na taxa de juros como no passado, isso não vai acontecer de novo.

Bora Investir: Os fundos de investimentos tiveram em 2023 a segunda maior retirada da história nas três principais classes (multimercados, ações e renda fixa). O que esperar para este ano?

André Perfeito: O mercado de fundos passou por várias mudanças nos últimos anos. Você teve um novo ambiente, com a criação de mais espaço e entendimento sobre esses produtos, e a entrada de novas pessoas nesse mercado. De tempos em tempos é normal o mercado perder folhas para crescer uma árvore mais forte.

O que faz um investidor escolher um fundo? São os objetivos do cliente. Eu falo isso porque essa indústria ainda está amadurecendo no Brasil. Com o tempo vai se ficar mais claro para cada investidor o que ele realmente precisa. Eu estou otimista e acho que as entidades do setor têm feito um trabalho importante de educar e apresentar esse tipo de investimento.

Bora Investir: Os criptoativos tiveram um 2023 positivo. Essa maré deve continuar? 

André Perfeito: Eu sou muito entusiasta do blockchain [sistema digital de registro de transações e rastreamento de ativos, que serve como infraestrutura para as criptomoedas]. Nesse sentido o Brasil está liderando o processo com o lançamento do Drex [moeda digital brasileira] até o final do ano – que é a consolidação de um blockchain em moeda local.

Enquanto blockchain, esse mercado vai continuar crescendo. Agora falando nos criptoativos de forma geral – e estou falando de criptomoedas – essa categoria tem uma característica de ser muito volátil. Se os Estados Unidos começarem a cortar a taxa de juros, isso tende a levar a uma apreciação das criptomoedas. Precisamos pensar nelas como moedas emergentes, mas com um alfa mais elevado. É que nem o real, o peso mexicano, lira turca.

O dólar tende a perder valor em 2024? Sim! Diante do corte dos juros, da economia americana mais fraca e de um ano eleitoral dificílimo. Mas as criptomoedas tendem a avançar.

Bora Investir: Quais dicas você daria para o investidor ter um bom 2024?

André Perfeito: A primeira dica importante é que o investidor precisa saber o seu jogo. Onde você ganha e gasta dinheiro. Isso vale para médico, dentista, advogado, etc., você ter uma relação com dinheiro. E aí vamos para a segunda parte que é desenhar os seus objetivos da forma mais clara possível para atingi-los. Ter um planejamento para daqui dez anos: quanto eu quero juntar? Qual é a meta que eu tenho? No Brasil é relativamente simples porque o nível de juros é tão elevado que se você minimamente se planejar, consegue de forma relativamente suave.

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