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Consumo perde força, mas investimento pode crescer em 2024, avalia a economista Carla Argenta

Economista-chefe da CM Capital comenta o resultado do PIB de 2023 e fala das perspectivas para o ano de 2024

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital. Foto: Divulgação
Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital. Foto: Divulgação

Em 2023, a economia brasileira teve um crescimento de 2,9%, anunciou o na última sexta-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Olhar apenas para essa última linha do resultado, entretanto, revela pouco sobre como aconteceu esse crescimento e quais as perspectivas para o futuro. Em entrevista ao Bora Investir, Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, destrinchou os números para tentar explicar quais foram os fatores que impulsionaram a economia do País e quais frearam o avanço.

Carla comentou também quais suas perspectivas para o ano de 2024. Segundo ela, poderemos ver um esgotamento dos vetores que levaram o consumo das famílias a crescer nos últimos anos. Por outro lado, uma política monetária menos restritiva poderá incentivar os investimentos, que começaram a reagir no último trimestre do ano passado.

Confira a entrevista completa!

Bora Investir: A economia brasileira cresceu 2,9% em 2023, perto do que o mercado esperava, de alta em torno de 3%. Qual era a expectativa da CM Capital, e quais foram os destaques na composição do PIB?

Carla Argenta: Nossa expectativa era um pouco mais baixa, de 2,8%. O que chamou atenção foi do lado da demanda. Foram duas surpresas. Primeiro, a queda no consumo das famílias. Houve um aumento maior do preço dos alimentos, que faz com que a renda disponível seja mais alocada para esses produtos básicos, coisa que não aconteceu nos trimestres anteriores.

Bora Investir: Essa queda veio só dessa questão do preço dos alimentos, ou também é um reflexo da taxa de juros elevada?

Carla Argenta: Sim, os juros ainda estão em um patamar restritivo. Não é um movimento novo, é um vetor antigo que incide sobre o consumo das famílias. É uma taxa de juros inibidora do consumo. Mas ao longo dos outros trimestres, tivemos vetores que foram justamente no sentido de impulsionar o consumo. Então, você teve uma queda no preço dos alimentos, especialmente no 3º trimestre, também um aumento do valor do Bolsa Família, um aumento bastante elevado do salário mínimo no início do ano, uma melhora consistente do mercado de trabalho ao longo dos trimestres. Então, teve uma série de fatores que foram capazes de sustentar esse consumo das famílias. Mas esses vetores foram se esgotando ao longo do tempo. No último trimestre, basicamente todos esses vetores perderam a força, e você precisa de medidas novas. E essa política por parte do governo foi justamente o Desenrola. Só que, por mais que ele tenha limpado o nome das famílias, a taxa de juros segue desestimulativa para o consumo. E outro ponto muito importante é que o programa permitiu que as pessoas conseguissem limpar o nome, mas existe um fator psicológico que é importante, porque as pessoas não vão sair tomando crédito para se colocar na mesma situação que estavam. Se você sai de uma situação complicada, fica mais reticente na hora de tomar um novo crédito.

Isso nos dá uma perspectiva de que o consumo pode perder força em 2024, porque se esses vetores se esgotaram ao longo de 2023. Tivemos um reajuste do salário mínimo no início do ano, mas o mercado de trabalho agora está muito mais próximo de uma estabilidade e apresenta melhoras cada vez mais marginais.

Bora Investir: E qual o segundo fator que te surpreendeu no resultado do PIB?

Carla Argenta: Ainda sob a ótica da demanda, outro fator importante foi a retomada da formação bruta de capital fixo para o terreno positivo, após três trimestres consecutivos com uma queda significativa. A gente vinha de um crescimento muito acentuado da formação bruta de capital fixo lá do ano de 2022. Então, foi uma espécie de correção que a gente viu em 2023, só que essa correção foi muito forte, com uma queda muito substancial. E no último trimestre teve esse respiro.

Aqui a taxa de juros também é muito importante. Na verdade, talvez ela seja até mais importante do que no consumo das famílias, porque afeta decisões de investimento com maturação de longo prazo. A taxa de juros atual é absolutamente desestimulativa para esse tipo de investimento.

Então, acho que esse movimento [de início da queda de juros] ficou muito mais claro dentro da formação bruta de capital fixo.

Bora Investir: Olhando um pouco do lado da oferta, tivemos um PIB Agro recorde, com um aumento de 15%. Quais são as perspectivas para o agro agora em 2024? No começo do ano, parece que o mercado estava muito preocupado com o El Nino, mas me parece que esses medos foram se dissipando um pouco. Essa é sua percepção?

Carla Argenta: Sim. O El Nino foi uma incógnita. As primeiras semanas foram realmente assustadoras, com picos de temperaturas, o que assustou muito e provocou perdas significativas em lavouras. Mas apesar dessa oscilação de temperatura muito intensa, parece que esse período crítico do El Nino ficou para trás. Hoje já vemos uma normalização das chuvas. Em termos de produção agrária, é factível uma queda ainda no primeiro trimestre de 2024 [nas culturas que foram semeadas no pico do El Nino], mas ao longo do ano, temos outras janelas de plantio, que não devem ser tão afetadas.

Outro ponto é que o El Nino não tem um impacto tão grande sobre a produção de frutas, verduras e legumes.

Por fim, com o nível de tecnologia que temos hoje, existe uma gama de informações que permite ao produtor escolher a hora melhor para o plantio, para que as plantas não sofram tanto diante de fenômenos climáticos adversos. Esse conjunto de fatores cria as bases, principalmente no segundo semestre desse ano, uma produtividade agrária um pouco maior.

Bora Investir: Na indústria, tivemos um aumento de 1,6%, mas muito puxado pela indústria extrativista. Você imagina que isso deve se repetir no próximo ano?

Carla Argenta: A indústria extrativista atende mais o mercado internacional, então, ela é representativa de uma demanda externa mais forte. Agora, com o arrefecimento do nível de atividade global, que é esperado para 2024, é esperado também um crescimento a taxas menores.

Agora, falando da indústria de transformação, que atende o mercado doméstico, a gente teve também efeitos muito ruins de arrefecimento por conta da taxa de juros elevada. Nossa indústria de transformação sofreu muito no ano passado. Para 2024, a gente tem uma perspectiva um pouco mais positiva.

Bora Investir: Por quê?

Carla Argenta: Primeiro pela reversão dessa política monetária absolutamente desestimulativa. Boa parte da nossa indústria produz itens que as famílias se endividam para consumir, então, se você tem um desestímulo ao crédito, você também desestimula esse tipo de indústria. Basta olhar o que aconteceu no IPCA ao longo de 2023, os preços de produtos eletroeletrônicos despencaram. Com essa reversão da política monetária e o mercado de trabalho mais robusto, a indústria de transformação pode reverter esse movimento absolutamente indesejável que aconteceu em alguns dos últimos anos. Mas deve ser um movimento ainda relativamente fraco.

E esse movimento deve ser mais pulverizado em todas as esferas. Se antes tivemos crescimento mais concentrado em indústria extrativa, agora você deve ver um arrefecimento na indústria extrativa e um crescimento na indústria de transformação. Então, é algo que permeia todo o setor mesmo, diferente do que a gente viu em 2023.

Bora Investir: Essa é uma dinâmica mais positiva, com o crescimento mais pulverizado?

Carla Argenta: Com certeza. Se você tem o crescimento concentrado em poucas esferas, você cria uma dependência. Para uma economia ser saudável, ela precisa ter esse crescimento pulverizado, porque ele se retroalimenta.

Bora Investir: E na parte dos serviços? O crescimento chamou atenção, ou já era esperado?

Carla Argenta: A gente esperava um arrefecimento nos serviços prestados às famílias, mas ele foi mais forte e mais concentrado do que a gente esperava. Parece que efetivamente todo esse processo de retomada da normalidade pós-pandemia, que ainda reverberava nos serviços, terminou.

E esse arrefecimento mais intenso nesse período, inclusive, de certa forma nos assustou. Temos uma visão um pouco mais negativa para o setor de serviços para 2024. É um setor que deve sofrer algum nível de correção frente a todos os movimentos absolutamente positivos que foram sentidos ao longo dos últimos dois anos.

Bora Investir: Quais as expectativas da CM Capital para o PIB em 2024?

Carla Argenta: A gente permanece com a expectativa de crescimento de 1,5% para o PIB. É um pouco mais baixo do que o mercado estima nesse momento. O principal vetor por trás disso é o esgotamento desses vetores que levaram o PIB a crescer nos últimos anos. No consumo das famílias, não devemos ter uma inflação de alimentos absolutamente positiva como tivemos lá atrás. Segundo ponto, não tem reajuste de programas de governo, como a gente teve do Bolsa Família. Terceiro ponto, o reajuste do salário mínimo em termos nominais foi mais fraco do que foi nos anos anteriores. Quarto ponto, a melhora do mercado de trabalho em 2023 foi muito importante para impulsionar a economia, mas em 2024, você tem um mercado de trabalho que é mais aquecido, mas com ganhos cada vez menores.

Esses são os fatores que fazem com que a gente entenda que esse crescimento vai ser um pouco menor em 2024. Por outro lado, a gente tem uma queda nos juros, que tende a trazer algum movimento positivo ou possibilitar alguns tipos de investimento que não foram possíveis. Então, a formação bruta de capital fixo tende a apresentar um resultado um pouco melhor em 2024.

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