Entrevistas

“Não vejo risco de inflação superar o teto da meta”, diz Carla Beni

Para professora da FGV, Banco Central deveria manter trajetória de queda da Selic

Notas de R$ 100 reais empilhadas
Para professora da FGV, Banco Central deveria manter trajetória de queda da Selic. Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

Em meio às turbulências no mercado doméstico e internacional na semana passada, parte dos investidores e gestores brasileiros já começa a colocar em dúvida a continuidade da trajetória de queda da Selic.

O relatório Focus divulgado nesta terça-feira (23/04) já mostra uma elevação da expectativa da Selic ao fim de 2024 para 9,50%, ante 9,00% há um mês. Entre as razões, são citados a mudança da meta primária de 2025 e a reprecificação global dos juros.

Carla Beni, professora de MBAs da FGV, entretanto, ressalta outra projeção do Focus: a da inflação. Segundo os participantes do mercado, o IPCA deve encerrar o ano em 3,73%, abaixo do teto da meta. Nesse cenário, defende ela, o BC deveria manter sua trajetória de redução da taxa básica de juros da economia, para não prejudicar os investimentos e o crescimento da economia. Confira a entrevista completa:

Bora Investir: Na semana passada vimos bastante volatilidade e o dólar voltou a subir. Na sua opinião, essa valorização do dólar traz mais preocupações para inflação?

Carla Beni: Vou começar de trás para frente. Nós temos basicamente quatro causas de inflação: de demanda, de custos, inércia inflacionária e expectativa de inflação. O câmbio está mais relacionado à inflação de custos.

Apesar dessas oscilações que nós tivemos agora, fortemente relacionadas ao setor externo, quando você pega o boletim Focus que saiu na terça-feira da semana passada, você vê uma sinalização de queda do IPCA, para 3,71% no final do ano. Esse é um parâmetro importante.

A sinalização do IPCA vem caindo e a gente consegue enxergar na economia uma normalidade das cadeias produtivas. Se a gente não tiver nenhum evento climático mais forte, estamos dentro de um quadro de certa normalidade. Então, para além dessas questões, quando você observa o câmbio, essas sazonalidades estão muito pontuais.

Não estamos observando um impacto disso nos preços na vida das pessoas. É isso que acaba importando no dia a dia. Porque até que a oscilação do mercado de câmbio chegue na ponta final do supermercado, digamos assim, tem toda uma cadeia que leva um tempo. Tem a ver com estoque, tem a ver com logística, reposição de mercadoria. E a gente ainda não viu essa sinalização.

Bora Investir: Além dessa questão do câmbio demorar para afetar os preços, como está a dinâmica da inflação no Brasil? Há risco de alta?

Carla Beni: Eu não vejo nenhum risco de alta, até porque o limite máximo nosso da meta é 4,5%. O núcleo é 3%, com tolerância de 1,5 p.p. para cima. Então não há no cenário a possibilidade de chegar a 4,5%. A gente está absolutamente numa tranquilidade inflacionária.

Então, mesmo haja uma subida eventual de preços no segundo semestre, que a inflação chegue a 3,80%, 3,90%, a gente ainda vai estar muito abaixo do limite superior da meta.

A inflação está muito bem controlada para esse ano, o que é uma sinalização extremamente positiva para o País e, obviamente, para o Banco Central continuar reduzindo a taxa de juros.

Bora Investir: Justamente nessa questão dos juros, na semana passada, o mercado começou a colocar em dúvida a continuidade e o ritmo dos cortes. Você imagina que o Banco Central possa manter a Selic mais alta do que era esperado?

Carla Beni: O mercado tem feito essa sinalização, mas se você pegar pelo modelo do próprio Banco Central, colocar os dados econômicos, a trajetória inflacionária, e considerando que quem marca o início da curva futura de juros é o Banco Central, pela marcação da Selic, não há nada no cenário que justifique o Banco Central cortar menos a taxa Selic. Eu acho que o BC deveria continuar cortando meio ponto percentual, porque a minha análise é sempre na taxa real de juros da economia.

O Banco Central manteve uma taxa ano passado completamente fora de qualquer padrão. A taxa real de juros foi de 6,9% no ano passado. Esse ano a gente está projetando 5,18% para o final do ano. É menos que o ano passado, mas a taxa real de juros ainda é muito elevada. Isso prejudica seriamente o setor produtivo. O Brasil sempre trabalhou com uma das maiores taxas reais de juros, que era entre 4% e 4,5%. Essa sempre foi a nossa média histórica.

Isso eu estou imaginando 9% de taxa Selic para o final do ano. O Banco Central precisa continuar reduzindo em meio ponto percentual porque a taxa real de juros ainda vai ficar num patamar acima de 5% no final do ano.

Bora Investir: E se o Banco Central não continuar cortando, qual que é o impacto desses juros altos pra economia?

Carla Beni: Uma redução de investimento privado e uma redução de consumo nas famílias pelo encarecimento do próprio crédito. Isso reduz o PIB sob a ótica da demanda. Esses dois elementos – consumo da família e investimento privado – são os dois fatores que são os condicionantes da política monetária na fórmula do PIB sob a ótica da demanda.

Fora que tem uma outra questão importantíssima. Quanto maior for a taxa de juros, que é o Banco Central que determina, maior é o dispêndio do Tesouro para o pagamento desses juros. E quanto mais dinheiro você tem que pagar para quem compra esse título, menor é o dinheiro gasto com investimento. Então, a política monetária tem um impacto gigantesco na política fiscal do País. Para se ter ideia, em média entre 45% da despesa do orçamento é pagamento de juros e amortizações de dívidas.

Bora Investir: E falando da política fiscal, também tivemos recentemente uma mudança na projeção para o resultado fiscal. Como você vê essa mudança e qual o impacto que você acha que pode ter para a economia?

Carla Beni: O próprio governo colocou nas costas dele o déficit zero, que era uma meta extremamente ambiciosa e dificílima de ser feita uma vez que, para iniciar o governo, foi preciso aprovar com o Congresso e a oposição a PEC da transição. Quando você inicia um governo assim, porque houve um desmonte do setor público, ao fazer a mudança da regra fiscal para o arcabouço fiscal e se impôs, o que já foi uma melhora, uma regra fiscal muito rígida que é déficit zero.

Digamos que você fez isso para ter fazer um certo aceno ao mercado financeiro, sabendo que isso não ia ser alcançado, e o mercado financeiro também sabia que isso não ia ser alcançado. Quando você anuncia, aquilo vira um escândalo. Mas já se sabia que isso ia acontecer. Você tem mecanismos na regra para esse processo, penalidades. Se isso não acontecer [déficit zero], você reduz os investimentos, você reduz as despesas, vai ter que reduzir os percentuais das pastas. Então a métrica já está posta.

Então o que tem agora? Um burburinho exagerado em cima dessa questão. Será preciso então cortar a despesa [para cumprir a regra], o que vai cair na linha da despesa não obrigatória, e vai cair para investimento, porque é a linha que você pode cortar sem precisar fazer nenhum tipo de PEC. E aí eu volto para a questão central que é a seguinte: ninguém discute a despesa de juros.

Bora Investir: Estamos falando que os juros reais do Brasil estão elevados, mas como isso se comunica com o fato de os juros nos EUA estarem também em patamares elevados e com muita dúvida sobre quando vão começar a cair? Isso reduz a margem para o BC brasileiro reduzir os juros?

Carla Beni: A nossa margem é muito simples. O Fed trabalha com 5,5% e a gente está com 10,45%. Eu acho que é uma margem bem razoável, né? Que tipo de investidor que a gente está protegendo com essa preocupação da taxa de juros? Que tipo de investidor que a gente não quer que fuja, que a gente está beneficiando? É o investidor do lado monetário da economia.

O que nós temos que nos preocupar é com o investidor do lado real da economia, aquele que produz bens e serviços. Porque o investidor do lado monetário é volátil e de curto prazo.

Bora Investir: Mas se esse investidor que está em busca do ganho na renda fixa brasileira sair do País, isso não causa uma pressão no dólar e pode trazer inflação?

Carla Beni: Repare, não há um totalizador. Não há um ‘todos os investidores saem’. Isso não acontece. O grande problema da análise econômica é o totalizador. É uma parcela pequena, a volatilidade acontece, mas se você mantiver a taxa 13% e o Fed subir meio ponto percentual na taxa dele, uma parte desse investimento vai embora. E aí a gente continua danificando internamente a nossa economia. Você não pode fazer análise econômica por totalizador.

E outra coisa, o Banco Central tem US$ 352 bilhões de reserva em dólares. É função dele controlar o câmbio. Uma das funções dele, por lei, chama Banco do Câmbio. Numa oscilação de curto prazo, ele que faça o ajuste.

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