Entrevistas

“O mercado cripto fica cada vez mais parecido com o mercado de bolsa”, diz head de digital assets do BTG Pactual

André Portilho comenta o desenvolvimento do mercado e a que o investidor deve se atentar antes de investir

André Portilho, head de digital assets do BTG Pactual
André Portilho, head de digital assets do BTG Pactual

Por Daniela Frabasile

“Eu não repito a tese de que o bitcoin é um ativo muito volátil”, diz André Portilho, head de digital assets do BTG Pactual, contrariando o que muita gente pensa sobre o mercado de criptoativos. Segundo ele, a volatilidade tem caído gradativamente e hoje é menor do que “grande parte de ações da Nasdaq”, como as de biotecnologia. Mas Portilho faz o adendo: isso não quer dizer que a volatilidade não seja algo a ser analisado antes de se fazer um investimento.

Segundo ele, a avaliação sobre aportar ou não em criptoativos é muito similar a qualquer outro investimento. Depende do portfólio e perfil de cada um.

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Para o especialista, o mercado de criptoativos tem se desenvolvido e cada vez mais se assemelha a outros mercados mais tradicionais, como o de bolsa. Com a aprovação, na semana passada, de ETFs de bitcoin à vista nos EUA, isso fica mais visível. É mais um instrumento que permite aos investidores as mais diversas estratégias, como a combinação da compra de ativos à vista e contratos futuros, por exemplo.

Em entrevista online ao Bora Investir, Portilho falou diretamente de Davos, onde participou do Fórum Econômico Mundial, e comentou também como tem visto as discussões por lá. Confira os trechos da conversa:

Bora Investir: Muita gente colocou a aprovação do ETF de bitcoin, na semana passada, como um marco para o mercado. Para você, isso muda a perspectiva de investimentos no setor?

André Portilho: Não sei se eu chamaria de marco, mas foi um evento muito importante. Primeiro, pela dificuldade, o primeiro pedido para ETF de bitcoin foi feito em 2013. E é um evento muito importante, porque abre a classe de ativo de cripto, começando com o bitcoin, para todo o mercado americano para quem não acessava, e estou falando tanto de investidores institucionais quanto o varejo.

Mas vou um pouco além. A gente tem o efeito de primeira ordem, que é o de ampliar o acesso a essa classe de ativos via canais normais que o investidor já tinha. Mas pela característica das empresas que fizeram os ETFs, temos também um efeito de segunda ordem, que é a força de venda de empresas como BlackRock e Fidelity, que vão começar a falar de cripto no processo de vendas deles. Você tem um produto novo e você vai ter um discurso de venda para aquele produto.

Bora Investir: Você comentou que os ETFs estão começando com o bitcoin, mas que há espaço para ETFs de outros criptoativos. Qual a sua visão sobre quais são os outros criptoativos a que os investidores devem se atentar?

André Portilho: Dado o estado da indústria, a tese de bitcoin é claramente bem diferente das outras teses. O bitcoin cada vez mais se consolida como um ativo global menos correlacionado com as outras classes de ativos e que vai ser importante na alocação de portfólio de investidores. No próximo momento você vai ter provavelmente o ethereum, e aí você traz outra narrativa, que é completamente ligada à tecnologia. Essa tecnologia vai trazer novas infraestruturas para a indústria financeira.

E querendo ou não, o mercado cripto fica muito mais parecido com o mercado que a gente tem hoje, por exemplo, de bolsa. No caso da bolsa, se você quer ter exposição a ela, você pode entrar em um fundo ativo, em fundo passivo, via ETF ou comprar diretamente. Cada vez mais o mercado de cripto parece com isso.

Bora Investir: Para uma pessoa que está pensando em investir em criptoativos, o que é preciso saber e o que analisar nesse mercado antes de investir?

André Portilho: Isso não vale só para cripto, mas para qualquer investimento. A pessoa precisa entender o que está fazendo, que tipo de investimento é esse, o que ele representa. O que representa comprar bitcoin, seja via ETF, seja via um fundo, seja diretamente em uma exchange. O que é esse ativo? O que representa? O que ele pode adicionar em termos de risco e torno na carteira dela? O que faz o valor daquele ativo subir ou cair? Essa é a primeira coisa.

Eu não repito muito a tese de que é um ativo muito volátil, a volatilidade do bitcoin só cai e se você comparar, o bitcoin é bem menos volátil que uma grande parte das ações da Nasdaq. Mas você precisa entender o nível de volatilidade que você vai ter em um criptoativo para saber o quanto vai alocar.

É o que o mercado chama de suitability, o perfil do investidor. No fim das contas, isso significa saber se você tem estômago para ter mais risco ou se não vai dormir de noite se a sua posição estiver mexendo muito. Então você tem que dosar isso tudo no tamanho da alocação.

Bora Investir: Você está em Davos, no Fórum Econômico Mundial. O que teve de desenvolvimento na discussão sobre cripto esse ano?

André Portilho: Davos é interessante que é onde sentimos para onde o vento está soprando. Quando eu estava aqui em 2019, era cripto em tudo quanto é lugar, o mercado estava num boom. No ano passado e nesse ano, está mais contido. A discussão sobre cripto está muito mais sóbria. Vemos menos empresas de cripto aqui e nos painéis e reuniões de que participei, a conversa está muito mais madura, e temos muito mais empresas tradicionais participando junto das empresas de cripto. Agora que vemos quais são as aplicações que de fato vão trazer a tecnologia para gerar benefício para o cliente final e para o mercado.

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