Adiar, manter ou ampliar exceções: os três cenários da decisão dos EUA sobre tarifas e o impacto em cada setor brasileiro
Efeito das tarifas no bolso do consumidor pode ser indireto, com menos geração de emprego e renda, apontam especialistas
Termina nesta quarta-feira (15), o prazo legal para o governo dos Estados Unidos decidir se aplica novas tarifas sobre produtos brasileiros. Estão em jogo duas medidas de origens distintas: uma sobretaxa de 25%, resultado da investigação da Seção 301 aberta em julho de 2025. E outra de 12,5%, derivada de uma apuração sobre trabalho forçado que abrange cerca de 60 países, entre eles o Brasil.
A grande expectativa de empresários e do mercado é que as tarifas sejam confirmadas, mas com uma lista de exceções ampliada, maior do que a proposta original publicada em 1º de junho.
O USTR, escritório comercial da Casa Branca, afirmou no dia 09 de julho que o Brasil e os EUA estavam distantes de um acordo e que a decisão sobre as tarifas saíria em função do prazo legal. Para Gabriel Castro, analista de investimentos do Grupo Mide, dois pontos centrais ficaram fora das negociações: o PIX e a redução de tarifas sobre o etanol dos EUA.
Na visão de Castro, a declaração recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que “não haverá tarifaço” é apenas uma posição política e diplomática, mas não uma previsão técnica e não altera o calendário americano.
Embora o mundo e o Brasil já estão acostumados a lidar com o vaivém tarifário de Donald Trump, setores da economia brasileira podem sentir efeitos diretos e até indiretos, impactando na geração de renda e emprego. O Bora Investir consultou especialistas para entender as principais consequências de uma ratificação de taxas. Veja a seguir
Acúmulo de alíquotas
A tarifa de 25% não funciona produto a produto, explica Castro. Pelo documento do USTR, a regra é horizontal: taxa-se tudo “all goods of Brazil”, exceto o que está listado no anexo de exceções.
O ponto crítico é a soma das duas medidas. Citando dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o especialista aponta que, se ambas forem confirmadas, 4.187 produtos brasileiros, que somam US$ 14,9 bilhões em exportações, ficarão sujeitos a uma alíquota de 37,5%. Desses itens, 62% são bens intermediários, usados como insumo pela própria indústria americana. Em 11 deles, como compensado de pinus, ferro-gusa, etanol e açúcar bruto, o Brasil é o principal fornecedor dos EUA. E nenhum consta na lista de isenções.
Gustavo Pedroso, economista e sócio da Cordier Investimentos, destaca que a tarifa de 25% mira principalmente em aço, alumínio, calçados e têxteis, que não entraram na lista de exceção, enquanto a de 12,5% se somaria por cima do que não estiver isento.
O que fica de fora e o que pode ser incluído
O anexo do USTR isenta cerca de 1.700 códigos tarifários da sobretaxa de 25%, cita Castro, do Mide. E as exceções vão muito além de café, carne e aeronaves. Os grupos mais contemplados são químicos orgânicos, máquinas e equipamentos, petróleo, fertilizantes, minérios e celulose.
Muitas das isenções têm relação com a economia americana, ficam de fora produtos cuja taxação criaria desabastecimento ou inflação nos EUA. É por isso que a expectativa do mercado é de ampliação da lista. “O USTR abriu consulta sobre o escopo, e na audiência pública em Washington, dos 80 inscritos, 66 se posicionaram contra a medida, incluindo empresas americanas”, afirma Castro.
Entre os candidatos a novas isenções, Pedroso cita pescados, madeira, calçados e têxteis, mencionados pelo ministro Márcio Elias Rosa como objetivo do governo brasileiro, por se tratar de setores intensivos em mão de obra com forte impacto social caso sejam taxados.
Para Alex André, economista e head de Corporate Access da MZ Group, a lógica das exceções é o interesse do próprio eleitor americano, em ano de eleições legislativas e inflação alta. “Os Estados Unidos sem o agro brasileiro teriam um impacto inflacionário muito grande”, defende.
Indústria sofre
Sem as novas isenções, Castro aponta, contudo, que os setores de indústria de transformação e bens intermediários seriam os mais afetados. Entre os mais vulneráveis, estariam madeira e derivados, siderurgia (ferro-gusa), sucroalcooleiro (açúcar bruto e etanol), fumo, alumínio e rochas ornamentais.
Para o analista, o agravante é o tipo de produto “Repor manufaturados no mercado internacional é bem mais complexo do que repor commodities”, destaca Castro.
Leandro Manzoni, analista de economia do Infoeconomics, vê o impacto concentrado nas indústrias que fornecem insumos para fabricação final nos EUA e nos fabricantes de máquinas e equipamentos, com efeito regional, como no interior do Rio Grande do Sul. “O impacto macroeconômico é pequeno e, a princípio, não tem viés inflacionário”, pondera.
Alex André lembra que a tarifa atinge uma indústria que já opera em desvantagem, entre juros altos, insegurança jurídica e defasagem tecnológica. “A competitividade da indústria no Brasil já é complicada por natureza, e essas tarifas acabam prejudicando ainda mais”, opina.
Mesmo setores isentos podem sentir impactos. Pedroso, da Cordier, alerta que a carne bovina, fora da tarifa principal, pode sofrer efeito indireto. “Algumas casas estimam retração de até 20% nas exportações do setor para os EUA”, comenta.
Na outra ponta, Castro enumera três grupos de produtos menos afetados: os que integram o anexo de exceções como café, carne, minérios, petróleo, fertilizantes, celulose, aeronaves, químicos e máquinas. “O Brasil responde por cerca de um terço do café consumido nos EUA e por cerca de 20% da frota de jatos regionais em operação no país. Substituir isso é caro e lento para os americanos”, destaca.
O segundo grupo seriam as commodities com mercado global líquido, como soja e minério de ferro, cujo principal destino é a Ásia. E, por último, setores voltados ao mercado interno, como serviços, varejo, construção civil, que só vão sentir impacto indireto, via câmbio e nível de atividade.
O que muda no bolso do brasileiro?
Os especialistas consultados pelo Bora Investir esclarecem que as tarifas impostas são pagas por quem importa para os Estados Unidos e não pelos consumidores brasileiros, contudo, é inevitável que os efeitos cheguem por vias indiretas.
O primeiro efeito colateral seria emprego e renda, em setores que são regionalmente concentrados, tais como madeira no Sul, açúcar e etanol no Centro-Sul, rochas ornamentais no Espírito Santo, ferro-gusa em Minas, cidades inteiras tendem a sentir menos renda circulando, avalia Castro, do Mide.
O segundo impacto seria no câmbio, porque a incerteza comercial pressiona o dólar, encarecendo combustível, eletrônicos, remédios, viagens e insumos (como trigo e fertilizantes) que chegam ao preço do pão e da comida.
Castro cita também o investimento represado. “Incerteza prolongada trava decisões de investir e contratar, o que se traduz em crescimento e geração de empregos mais fracos ao longo do tempo”, destaca.
Pedroso, da Cordier, estima que, no cenário mais adverso, a perda potencial de consumo das famílias fica entre R$ 15 bilhões e R$ 38 bilhões. Alex André, do MZ Group, acrescenta que eventual sobra de café e suco no mercado interno até poderia baratear esses itens, mas ao custo de “menos emprego e menos investimento”.
O tamanho do estrago, porém, ainda depende do anúncio desta quarta-feira (15). Castro lembra que, quando a proposta de 25% foi divulgada, o dólar chegou a abrir em queda, a R$ 5,014, porque o mercado avaliou que as exceções esvaziaram parte do impacto.
Como o Brasil pode reagir?
Em caso das tarifas se concretizarem, o Brasil tem diversas alternativas. Uma dela seria a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica (Lei 15.122/2025) que permite ao país suspender concessões comerciais e obrigações de propriedade intelectual em resposta.
No entanto, os especialistas consultados pelo Bora Investir não acreditam que o governo faça uso desta alternativa de forma imediata, porque retaliar tem custo e sobretaxar produtos americanos poderia encarecer insumos e bens para o próprio consumidor brasileiro.
Para Manzoni, do Infoeconomics, uma saída alternativa seria ampliar parcerias comerciais com outras nações, embora parte dos produtos tarifados tenha uma ligação orgânica com a economia americana.
Há ainda espaço para a negociação técnica, com a Organização Mundial do Comércio. O tema também passa por viés político, com o senador Flávio Bolsonaro pedindo o adiamento de 180 dias sobre a decisão das tarifas, alegando que as eleições presidenciais ocorrem em outubro e uma taxação poderia beneficiar Lula.
Para Alex André, a aposta do senador é que um alinhamento de um governo de direita com Washington, no estilo Milei, poderia até derrubar as tarifas “Mas isso é uma incógnita para os economistas e para os empresários”, defende.
Na prática, o adiamento é visto como improvável e os americanos já sinalizaram que o prazo era “imexível” e teria custo próprio. Castro, do Mide, destaca que não seria um paliativo, afinal “adiar não é reverter tarifas” e empresas que não sabem o que vem pela frente, não fazem investimentos.