Cartão, consignado ou financiamento: qual tipo de crédito faz mais sentido para cada objetivo?
Entenda como usar cada modalidade de crédito e evitar juros e endividamento
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Tido como um dos pilares fundamentais da vida financeira do brasileiro, o crédito é amplamente utilizado para o acesso ao consumo, emergências e imprevistos, e também para a realização de sonhos de longo prazo, como a aquisição de uma casa ou um automóvel. Cartão de crédito, empréstimo e financiamento são algumas das principais modalidades adotadas na hora de pensar em adquirir um bem ou mesmo na necessidade de um alívio financeiro momentâneo. Existem, porém, estratégias que podem ser adotadas para manter as finanças saudáveis e evitar endividamentos.
Para isso, é recomendado ficar atento aos prós e contras de cada uma dessas alternativas. O planejamento de gastos, incluindo a definição das prioridades de curto, médio e longo prazo, é o principal aliado do investidor.
Um consignado, por exemplo, pode funcionar bem em momentos em que é preciso equilibrar as contas e eliminar dívidas, especialmente aquelas atreladas a juros mais altos, como cartão de crédito e empréstimo pessoal.
Para aqueles com um objetivo de longo prazo, como a compra de um carro ou um imóvel, o financiamento pode surgir como uma opção vantajosa, ao possibilitar o parcelamento a longo prazo de um bem de alto custo, que, de outra forma, seria inacessível ou poderia prejudicar o equilíbrio das contas.
O cartão de crédito, por sua vez, é uma boa alternativa para gastos pontuais no curto prazo e também para aquisições planejadas de bens como eletrodomésticos, móveis e eletrônicos, por exemplo. Ele apresenta vantagens como acúmulo de pontos, cashback e outros benefícios, mas sempre atento aos juros do parcelamento.
Crédito deve ser adequado ao objetivo
Apesar das vantagens referentes a cada modalidade, o crédito ainda é um fator que pesa na hora de pagar as contas, tanto por conta da falta de planejamento em relação ao pagamento das parcelas quanto pela alta taxa de juros.
O montante de crédito em atraso atingiu um recorde de R$ 247,6 bilhões nos primeiros quatro meses de 2026, segundo levantamento feito pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que atribui o cenário a implicações como o patamar elevado da taxa Selic, atualmente em 14,25%, somado à inflação, pressionada sobretudo pela guerra no Oriente Médio, e o problema das casas de aposta, que vem minando as economias de muitas famílias brasileiras
De acordo com os analistas ouvidos pelo Bora Investir, o principal fator a se levar em consideração na hora de optar por modalidades de crédito são as prioridades e objetivos de cada um. Ao fazer essa avaliação, o investidor poderá qual tipo de crédito se adequa melhor à situação.
“Avaliar a necessidade do gasto, o momento, o item a ser adquirido. A partir disso, é possível definir a forma de pagamento. Sem antes refletir sobre essas questões a chance de erro, nem que seja pagando mais caro, é grande”, pondera Guilherme Baía, planejador financeiro.
Baía ressalta ainda que é preciso levar em consideração o fluxo de caixa antes de qualquer tomada de crédito, pois o crédito usado para cobrir um déficit nas contas pode acabar intensificando o desequilíbrio financeiro e colocar o investidor em uma situação de endividamento.
“[Avaliar se] a falta do dinheiro necessário para o pagamento é devido a uma questão circunstancial, como um acidente, uma emergência ou doença, ou se por falta de planejamento, pois uma vez que não há recursos para efetuar o gasto, como se vai obter para pagar pelo crédito – que é mais caro que a despesa original?”, questiona o planejador.
Um questionamento similar é recomendado caso o investidor queira pegar um empréstimo para quitar outras dívidas, especialmente aquelas também relacionadas ao uso do crédito.
“Pegar um empréstimo para pagar o cartão é uma ótima ideia, entretanto, exige certas mudanças na vida financeira: parar de comprar nesse cartão, porque, senão você continua comprando, o que aumenta a fatura, além de precisar pagar o empréstimo anterior”, afirma Izabel Rocha, economista e CEO da Transformasie – Inteligência Financeira.
Cartão de crédito é o vilão?
Um dos principais responsáveis pelo estrangulamento do orçamento familiar, o cartão de crédito pode representar uma solução em situações de emergência e de gastos pontuais. Porém, em muitos casos, ele pode vir a tornar-se um problema para as finanças.
O consumo impulsivo, a falta de planejamento dos gastos, e o pagamento parcial da fatura do cartão podem, rapidamente, criar uma bola de neve e, em questões de meses, dobrar uma dívida de cartão, devido aos juros atrelados ao crédito rotativo, um dos maiores do mercado.
“As taxas do cartão são muito altas, mesmo com o limite imposto pelo Banco Central (BC), de 100% do valor original da dívida”, avalia Izabel.
Para Baía, no entanto, o cartão de crédito não é um vilão em si, e pode apresentar certas vantagens ao ser utilizado de forma comedida e bem-planejada
“O cartão e os juros não podem ser considerados vilões das finanças. Mas toda ferramenta, se mal utilizada, pode machucar o usuário. Por outro lado, o crédito pode ser um aliado e apresentar vantagens inteligentes nos casos de bom uso”, afirma o planejador.
Atenção ao CET
Outro ponto de alerta é o Custo Efetivo Total (CET) da operação nos casos de empréstimo e financiamento. Por definição, o CET indica quanto o cliente pagará, ao todo, pela operação de crédito contratada. Nessa conta costumam entrar a taxa de juros nominal, encargos contratuais, e tributos como o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Ele será o elemento crucial no momento em que o investidor realizar o planejamento do crédito, incluindo a definição das parcelas e do tempo de pagamento pelo crédito adquirido.
Além disso, por meio do CET também é possível comparar o mesmo tipo de crédito, como um consignado por exemplo, em diferentes instituições financeiras, o que ajuda a definir as finanças a longo prazo e evita o risco de inadimplência.
“Uma vez definida a contratação, as informações mais relevantes são: o CET, como sendo a melhor forma de comparar, o prazo da contratação, a forma de cobrança dos juros, se pré ou pós-fixada, pois ela altera substancialmente o valor total a ser pago, e, por último, o valor total da parcela periódica”, avalia Guilherme Baía.
É essencial também prestar atenção às taxas de juros, para evitar erros como contratar parcelas que, aparentemente, caibam no bolso, mas que, no longo prazo, vão estrangular as finanças pessoais.
“Dependendo da linha de crédito, [a taxa de juros] é muito alta. Mas muitas vezes não temos conhecimento sobre essa questão de taxa de juros […]. De modo geral, minha sugestão é sempre fazer um orçamento e observar os gastos periódicos para evitar excessos”, declara Izabel Rocha.