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Inadimplência e qualidade de ativos: o que deve tomar os holofotes na temporada de balanços dos bancos?

Até bancos digitais sofrem impacto da deterioração das carteiras de crédito

A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 começou e o olhar dos investidores está atento aos resultados dos bancos brasileiros, que devem ter entre os pontos de alerta o aumento da inadimplência e a qualidade dos ativos.

Relatórios do JPMorgan e UBS BB destacam que a inadimplência deve marcar a pauta dos resultados e das teleconferências das instituições financeiras, em um cenário de juros altos por tempo prolongado e famílias endividadas. O UBS BB apontou que o Brasil apresenta a pior dinâmica de qualidade de ativos entre os principais mercados latino-americanos, com 83,5 milhões de consumidores negativados e comprometimento de renda das famílias na casa dos 30%, patamar historicamente elevado. O custo do risco dos bancos brasileiros, segundo a casa, supera com folga o de pares como México, Peru e Colômbia.

Quando o assunto é inadimplência, analistas ouvidos pelo Bora Investir partilham visões semelhantes. Entre os grandes bancos, o Santander (SANB11) e o Banco do Brasil (BBAS3) tendem a sentir mais o peso dos calotes, enquanto Itaú (ITUB4), BTG (BPAC11) e Bradesco (BBDC4) devem entregar os melhores números do trimestre.

Entre os grandes bancos listados, a temporada será aberta pelo Santander que divulga seu balanço em 29 de julho. Na sequência, o Itaú apresenta seus resultados em 04 de agosto, enquanto o Bradesco faz a divulgação no dia 05 de agosto. Seguindo a tradição, a temporada dos bancões é encerrada com o Banco do Brasil que apresenta seus números no dia 12 de agosto.

O agro e pessoa física com forte impacto

Segundo Milton Rabelo, analista da VG Research, o Banco do Brasil deve apresentar deterioração na sua carteira de crédito, principalmente no agro, mesmo em uma base de comparação anual considerada fraca. O analista projeta um lucro de R$ 2,9 bilhões para o banco estatal e ROE (retorno sobre patrimônio líquido) de apenas 6%.

“Os resultados do banco devem continuar sendo negativamente afetados pela elevada inadimplência da sua carteira agrícola e as PDDs (provisões para devedores duvidosos) devem superar os R$ 20 bilhões”, afirma Rabelo.

Já para o Santander a perspectiva do analista da VG também é pessimista. Ele destaca que a inadimplência nas carteiras de pessoa física e pequenas e médias empresas (PMEs) deve levar a um aumento nas PDDs do banco, pressionando o seu resultado. A projeção é de um lucro de R$ 3 bilhões no segundo trimestre e ROE de 14%.

Pedro Ávila, analista de bancos da Varos Research, também enxerga Santander e Banco do Brasil com risco de deterioração das carteiras de crédito. Ele destaca que o Banco do Brasil deve ser impactado pela carteira de pessoa física e agronegócio, que acumula um vencimento relevante de contratos no 2º trimestre. Já no caso do Santander, o impacto vem da carteira pessoa física, que já vinha apresentando elevação dos indicadores de inadimplência nos últimos dois trimestres.

Na visão de Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, o fenômeno é sistêmico. “A inadimplência no segundo trimestre deve vir um pouco acima do ano anterior para todos os bancos, reflexo do juro alto por tempo prolongado”, destaca. E reforça que em relação ao Banco do Brasil, a inadimplência rural ainda não normalizou e permanece como um problema.

Bancos digitais também sofrem pressão

Fora do grupo dos bancões, os bancos digitais também podem sofrer efeitos da inadimplência. Simão afirma que no crédito pessoa física, o Nubank e o Inter são os nomes de maior atenção. “Estes bancos cresceram rápido no segmento de cartões e renda mais baixa e agora enfrentam o custo deste crescimento acelerado”, avalia.

Ávila aponta que o Nubank tem a maior carteira de crédito entre os bancos digitais, além de forte presença em crédito pessoal sem garantia, com uma base ampla de clientes de renda mais baixa. Um perfil mais arriscado. “Esse público tende a ser o primeiro a ficar inadimplente quando a relação entre dívida e renda piora, o que estamos vendo acontecer”, comenta.

Já no caso do Inter, Ávila destaca que o banco tem uma fatia relevante em crédito imobiliário e consignado que pode amortecer o problema.

Na contramão, o UBS BB acredita que no caso do Inter o cenário negativo já está incorporado no preço do ativo, mesmo após deterioração em praticamente todos os indicadores no 1TRI26.

Em relação aos bancos de médio porte, Rabelo alerta para os resultados do Banrisul, que devem vir mais pressionados e negativamente afetados pelo aumento de custo de captação, deterioração da qualidade de crédito e elevação do custo de risco.

Enquanto Simão, cita que os mais vulneráveis são os bancos menores, com carteira concentrada em crédito pessoal e consignado de maior risco. “O problema não é só a inadimplência em si, mas a capacidade de provisionar sem comprometer o resultado”, avalia.

Quem deve brilhar na temporada

Quando o assunto é resultado como um todo, Itaú e BTG se destacam como consenso entre os analistas. Simão destaca que o Itaú entrega bons resultados de forma consistente há vários trimestres, equacionando uma carteira de crédito equilibrada, eficiência acima da média e provisões para devedores duvidosos bem gerenciadas.

No caso do BTG, o banco de investimentos e gestão de recursos se beneficia diretamente dos juros altos, com ROE acima de 20% e pouca exposição ao risco de inadimplência no varejo.

Para o JPMorgan o Itaú é a principal aposta entre os bancos tradicionais, com lucro estimado de R$ 12,6 bilhões no 2TRI26 e ROE de cerca de 25%. A instituição enxerga também a XP e o BTG como as alternativas mais defensivas para se expor ao setor financeiro diante de um cenário de maior risco de crédito.

Rabelo, da VG, acredita que o grande destaque da temporada será o Bradesco que vai colher os frutos de uma reestruturação iniciada em anos anteriores. “Os resultados seguem cada vez mais sólidos em função de maturação dessas medidas”, diz e projeta lucro de cerca de R$ 7 bilhões e ROE de 16%, com o canal segurador beneficiando a lucratividade do banco de Osasco.

Ávila é mais conservador e destaca que o ROE do Bradesco ainda deve ficar distante do patamar do Itaú.

Quem vai decepcionar na temporada?

Para os analistas consultados pelo Bora Investir, o Banco do Brasil é o candidato a frustrar o investidor, diante da incerteza da carteira agro, que segundo Simão, não foi totalmente precificado nas ações do banco estatal. O analista também vê risco de provisões acima do esperado em Nubank e Inter.

Ávila reforça que a aparente melhora da carteira agro do Banco do Brasil no primeiro trimestre merece cautela, já que pouca safra venceu no período. “O segundo trimestre vai ser decisivo para entendermos se de fato a qualidade da carteira agro do banco melhorou. Como o cenário ainda é muito nebuloso, o Banco do Brasil é forte candidato a desapontar com os resultados”, comenta.

Dividendos e para ganho de capital

Para quem busca renda passiva, Itaú e Bradesco lideram as preferências de curto prazo. Rabelo estima um retorno em dividendos (dividend yield) de cerca de 8,5% para as ações ITUB4 e 8% para BBDC4 em 2026. “O Itaú deve reportar um resultado resiliente no 2TRI26, além de ser uma instituição muito lucrativa, com ROE elevado e alto índice de capitalização”, justifica.

Simão, do Hub do Investidor, projeta dividend yield entre 7% e 8% para o Itaú com capital excedente do banco que sustenta proventos acima do mínimo obrigatório. Já o Banco do Brasil aparece com dividend yield de 9%, mas carrega risco do agronegócio embutido, além de ser impactado pelo desconto das ações que eleva o retorno em proventos.

“Para quem aposta na normalização da carteira rural, o Banco do Brasil combina com dividendo alto e forte potencial de valorização”, pontua Simão. Já no caso do BTG, os analistas enxergam mais ganho de capital do que dividendo.

O que avaliar antes de investir em um banco

Antes de escolher um banco para investir, Simão aconselha olhar três filtros: um ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido) de 18% de forma consistente, que mostra qualidade do modelo e não um resultado pontual.

Outro fator a ser observado é a inadimplência e cobertura de provisões, já que um índice de cobertura alto indica que o banco está preparado para absorver calotes. O analista cita também o indicador preço sobre valor patrimonial (P/VP) comparado à média histórica da ação, para conseguir comprar com uma margem de segurança.

Para Rabelo, da VG, o principal aspecto a ser observado é o valuation (avaliação), no qual o investidor deve desconfiar das narrativas do momento. “O mercado tem um viés naturalmente curto-prazista e isso pode levar a algumas decisões de investimento equivocadas”, afirma, citando como exemplo o pessimismo com o Bradesco em 2023 e 2024, antes da virada de chave.

Segundo o analista, a história pode se repetir com o Banco do Brasil no longo prazo, apesar do curto e médio prazo desafiadores.

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