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“Falem a linguagem da máquina, mas falem melhor a linguagem humana”, diz John Maeda

Para o especialista, dados podem esconder a verdadeira história humana, mas o pilar na era dos agentes de IA é a trajetória

John Maeda subiu ao palco da Febraban Tech 2026 de costas para a plateia e pediu desculpas pelo fato. Ele estava operando um computador e rodando um aplicativo de transcrição ao vivo, que ele mesmo tinha programado no seu voo para o Brasil, usando um modelo de inteligência artificial. “Terminei ontem às 9 horas da noite. Eu queria resolver o problema que eu não falo português”, contou.

A cena era um recado vivo sobre velocidade, de como as atividades estão mudando rapidamente com a inteligência artificial e exigem adaptação.

Autor de cinco livros, com destaque para How to Speak Machine (como falar com as máquinas), Maeda é uma grande referência em inovação. O ex-professor do MIT Media Lab e ex-presidente da Rhode Island School of Design destacou no evento o papel da liderança em tempos de IA.

“Versado em risco, não avesso ao risco”

Para quem trabalha em banco, o ponto de partida e tema mais sensível é o risco, avalia o especialista. “Tem um ditado famoso da indústria de segurança. Seja versado em risco e não avesso ao risco”, afirmou.

Para ele, ser versado em risco significa entender o que pode acontecer, antes de se arriscar. Maeda também contou sobre uma frase que considera um mantra para as empresas nos tempos atuais. “Se você não gosta de mudanças, você também não vai gostar de irrelevância”, citou ele e reconheceu que empresas tradicionais muitas vezes possuem mais dificuldade de reagir do que startups.

“As startups podem lidar com qualquer coisa que aconteça. Mas uma organização estabelecida tem muitos processos rodando. Grandes empresas têm dificuldade em reagir a essa velocidade. É por isso que a liderança atrás da mudança é tão importante”, destacou.

Em relação a inovação no setor bancário, um dos mais regulados do mundo, Maeda defendeu a experimentação com limites claros, dentro de um ambiente seguro. O especialista comparou o estágio atual da tecnologia com as ferrovias americanas.

“Ainda estamos em uma fase onde esses trilhos ainda estão sendo construídos, mas a ferrovia ainda não existe”, exemplificou.

A tesoura de cognição e contexto

Durante a palestra, Maeda decidiu desvendar os mistérios em torno a inteligência artificial, que para ele são uma clara função das lideranças.

“Como a IA é tão confusa, nós temos que fazer as pessoas entenderem que não é uma mágica. É muito lógico entender isso”, comentou. Maeda explicou que a inovação em IA pode ser entendida como uma tesoura, com um lado que representa a cognição e o outro, o contexto.

Segundo ele, de um lado, estariam os modelos que completam padrões a partir de grandes volumes de dados. Enquanto do outro, os que buscam por similaridade.

Maeda lembrou ainda que no seu próprio livro How to Speak Machine são citados fundamentos essenciais. Um deles é que os computadores nunca se cansam, vivem em escala exponencial e sabem fingir que estão vivos, habilidade que remonta ao primeiro chatbot, de 1966.

“O computador não está vivo, mas pode criar essa ilusão. Então não caiam nessa ilusão”, alertou o especialista. Maeda também falou sobre a importância da qualidade dos dados, que em caso de estarem errados, podem induzir a IA ao equívoco. “A IA pode fazer as coisas erradas se os dados são ruins”, disse.

A importância da trajetória

Maeda destacou ainda a relevância do conceito de trajetória, que muitas vezes é negligenciado na era da inovação. Para ele, o conceito interessa muito aos bancos. “Se você está em um banco, há muitas maneiras de resolver um problema, muitos fluxos de trabalho. Os seus clientes fazem as coisas, eles fracassam, são bem-sucedidos. Tudo isso faz parte da trajetória”, explicou.

Para Maeda isso também serve para a lógica por trás de produtos bancários. Por exemplo, um aplicativo de banco, que existe como uma forma de coletar essa trajetória do cliente. Um jeito de reunir dados que alimentam agentes de IA e sistemas.

Segundo o especialista, quanto mais trajetórias for possível aprender, será melhor para a evolução da tecnologia. Ele exemplificou com um caso pessoal, a troca do seu Tesla por um carro de um modelo mais barato, porque os robotáxis acumulam mais trajetórias e aprendem com agilidade. O objetivo dele foi aprimorar os dados.

Falar a linguagem humana

Mesmo diante de uma onda crescente de inovação, Maeda fez a ressalva da importância de conhecer a história humana e como muitas vezes dados escondem coisas.

Ele exemplificou com pesquisas sobre alimentação, utilizando Big Data. Dados de 831 estudos sobre supermercados chegaram a sugerir que famílias de baixa renda não davam valor para a nutrição. Mas quando uma pesquisadora visitou as casas destas pessoas viu outra realidade. Os pais compravam guloseimas para agradar os filhos ou preencher vazios e culpas pela ausência. “O Big Data esconde a verdadeira história humana”, observou.

Questionado sobre liderança, Maeda também destacou que um bom líder, em tempos de inovação, precisa aprender a se reerguer.

Parafraseando Nelson Mandela, ele acredita que o bom líder nos tempos atuais será julgado não pelo sucesso e sim por quantas vezes caiu e levantou. Maeda pontuou que a exigência atualmente é maior. “Você precisa se reerguer todo dia, porque as coisas mudam cada cinco minutos”, comentou.

Ele também definiu como fórmula do sucesso para grandes líderes inovadores ter a dosagem certa de confiança, mas sem um ego enorme.

Por último, Maeda reforçou a importância da simplicidade, falando a linguagem das máquinas, mas principalmente falando melhor a linguagem humana. “Se você puder explicar a IA para as pessoas em palavras muito simples, as pessoas não vão temer a IA”, afirmou.

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