Educação Financeira

Por que investir ainda parece distante da realidade do brasileiro?

Mesmo com interesse crescente em investimentos, alguns fatores travam um maior acesso do brasileiro ao setor

Vitor Guedes, especial para o Bora Investir

O brasileiro tem se mostrado cada vez mais disposto a conhecer mais sobre investimentos e ampliar sua presença nesse universo. Ao mesmo tempo, uma parte da população ainda enfrenta entraves para começar a investir de fato, seja por receio, problemas financeiros ou mesmo uma falta de maior acesso à educação financeira

Por exemplo, a mais recente edição do Raio X do Investidor Brasileiro, levantamento anual feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a Anbima, revela que o percentual de brasileiros que realmente investe soma apenas pouco mais de um terço da população (36%), enquanto uma parte (31%) não possui sequer reserva financeira. 

Um outro estudo, feito pelo Serasa, aponta que 76% das pessoas gostariam de saber mais sobre investimentos, só que cerca de 35% dos entrevistados mencionam também o medo de perder dinheiro ao investir, principalmente por golpes ou aplicações erradas.

A relação entre esses dois lados não é somente baseada na dicotomia entre querer investir, mas ter receio de sofrer perdas. Existem nuances entre esses polos que acabam por afastar o chamado “brasileiro médio” do mercado de capitais.

Para os especialistas ouvidos pelo Bora Investir, essa questão perpassa fatores como a falta de educação financeira, uma retórica ainda muito elitizada por parte do mercado, além da pressão exercida por variáveis macroeconômicas como juros, inflação e o alto nível de endividamento, o que reduz a capacidade das famílias de poupar e investir.

Mercado ainda soa ‘complexo’ demais

Cristiano Corrêa, professor de Finanças do Ibmec-SP, explica que o núcleo desse tema engloba o desconhecimento em relação aos investimentos e à possibilidade de ganhos financeiros, algo derivado da falta de maior acesso à educação financeira, somado ao alto grau de endividamento das famílias brasileiras, que reduz a capacidade de investir ao final do mês.

“Essa falta de renda acaba sendo originada da lacuna deixada pela educação financeira. A ausência desse conhecimento acaba levando o indivíduo ao endividamento, especialmente pelo desconhecimento sobre juros”, afirma.

Já o especialista em governança corporativa Renato Chaves endossa a percepção apontada na pesquisa do Serasa, ao afirmar que a falta de uma maior transparência e uma maior simplificação na hora de investir acaba afastando o potencial investidor comum do mercado de capitais brasileiro.

“Essa pessoa olha para o mercado como um organismo complexo, mais voltado para o grupo de pessoas ‘qualificadas’, que já tem conhecimento na área”, diz, ao mencionar que casos envolvendo fraudes e esquemas de pirâmide em investimentos tendem a reforçar o receio relacionado à perda de recursos ao investir.

Somado ao grau de complexidade e obscuridade que o mercado apresenta aos olhos de uma pessoa comum, há também o descompasso entre o discurso adotado por instituições do setor e a realidade financeira do país.

“O modo como o mercado financeiro se apresenta é como algo obviamente relacionado à riqueza e não à construção. Até o apelo sobre a venda de um produto financeiro acaba sendo muito mais sobre status”, afirma Corrêa. 

“Uma pessoa que não conheça mercado financeiro, ou mesmo aquela que não é sequer bancarizada, acaba não desenvolvendo a noção apropriada sobre o tema, porque ele não é comunicado da forma como deveria ser, na minha opinião”, acrescenta.

Os especialistas mencionam, ademais, a burocracia relacionada à abertura de conta em corretoras. A falta de praticidade tende a ser um elemento adicional que desestimula o indivíduo que deseja começar a investir no mercado de capitais doméstico.

“Acaba sendo uma burocracia a mais em algo que poderia ser simplificado”, reforça Chaves.

Há interesse, mas o conhecimento ainda é limitado

Segundo a pesquisa Acrobacia Financeira, feita pelo Banco Inter em parceria com a Consumoteca, mais de 90% dos brasileiros se mostram dispostos a aprender mais sobre educação financeira, e mais da metade aponta que esse conhecimento pode ser útil para ajudar no equilíbrio das contas. 

Em paralelo a isso, os entrevistados apontaram alguns entraves que impedem um maior conhecimento, como falta de tempo e recursos e um conceito de educação financeira que ainda dialoga pouco com a realidade média do brasileiro. Esse diagnóstico foi ratificado em um levantamento feito pela Febraban no ano passado, em que 55% dos entrevistados declararam saber pouco ou praticamente nada acerca do tema.

Nesse aspecto, Chaves menciona o papel das instituições financeiras e do governo para fomentar iniciativas relacionadas à educação financeira, além de ressaltar um papel crucial do Estado no que tange à epidemia das casas de apostas, as chamadas bets.

“Proibir bets e também promover incentivos a investimentos que sejam uma porta de entrada, como a poupança de menor valor, o que já seria um incentivo para começar”, declara.

Pressão do cenário macro no orçamento

Por fim, as próprias influências do cenário macroeconômico também atuam nesse afastamento entre o cidadão comum e o mercado de capitais. Com o orçamento pressionado pela alta dos juros e pela inflação, os recursos que poderiam ser destinados aos investimentos acabam minguando.

Os especialistas apontam que, no final das contas, todas as variáveis estão interligadas. A alta dos juros e a incerteza fiscal do país pressionam o nível de endividamento, que tende a ser acentuado pela falta de educação financeira, por exemplo.

Para Corrêa, alguns dos principais erros cometidos englobam tratar o investimento como uma “sobra” dentro do orçamento e a pressão por status social, que leva a pessoa a gastar num padrão de vida muito acima do que sua renda permitiria.

Ainda há também a ideia de que não é possível falar de investimentos com poucos recursos disponíveis, sob a ideia errônea de ser uma ação que deve ser praticada somente por aqueles com alto capital disponível. 

Chaves ressalta que, nesse ponto, investimentos mais simples e voltados para renda fixa podem representar uma oportunidade para que mais pessoas adentrem o universo dos mercados de capitais.

“É mais fácil começar de baixo. Investimentos mais simples, como o Tesouro Direto, que você pode comprar com R$ 40, até dar de presente, inclusive, e com liquidez disponível para uma emergência”, diz.

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