“O principal inimigo do homem não é a tecnologia e sim ele mesmo”, afirma Nobel de Ciências Econômicas
Para Joel Mokyr, a China pode desbancar os EUA na liderança tecnológica e de inovação nos próximos anos
O crescimento acelerado da economia global visto nos últimos 200 anos vai se sustentar? Qual o papel da tecnologia nisso? Esses foram os principais questionamentos de Joel Mokyr, vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2025 e um dos mais influentes historiadores econômicos da atualidade, durante a Febraban Tech 2026.
Para ele, podemos ver um crescimento econômico, mas com retornos menores nos próximos anos, mesmo com capital agregado. Mokyr destaca que embora um dos motores do crescimento econômico global seja o comércio, o grande fator que deve impulsionar esse movimento nos próximos anos será a tecnologia.
Legado histórico
Foram múltiplas as transformações tecnológicas vistas nos últimos anos. Para o Nobel de Economia, quando se fala de inovação, o melhor ainda está por vir. “Todos os debates sobre o futuro são incertos e muita coisa pode dar errado”, comenta.
Na visão de Mokyr, não é apenas a ciência que impulsiona a tecnologia. Mas existe um sistema que vai crescendo até atingir um teto. Já entre as novas ferramentas que vão revolucionar a história, o Nobel cita a inteligência artificial. “A pergunta é: o que a IA vai fazer por nós?”, questiona. Para ele, é difícil determinar como será o futuro com IA generativa em 10 ou 15 anos, mas atualmente a tecnologia é tão sofisticada que pode ser utilizada em pesquisas sérias e impulsionar a ciência.
Inimigos da inovação
Em um mundo cada vez mais diverso, Mokyr manifesta preocupação com certos movimentos ideológicos que têm ganhado força, entre eles: fragmentação, populismo e xenofobia, que ele descreve como inimigos da ciência.
Na fragmentação, ele cita o nacionalismo econômico, perceptível recentemente nas tarifas impostas pelos EUA, que desaceleram o crescimento econômico global. Ele também considera o populismo uma ameaça muito séria ao progresso econômico, que tende a desvalorizar intelectuais, cientistas e acadêmicos.
Outro grande problema, na visão dele, que atrapalha o desenvolvimento da ciência e inovação é a xenofobia. Mokyr destaca que muitos imigrantes que moram e trabalham nos EUA contribuíram com os últimos prêmios Nobel. “Os EUA precisam atrair estrangeiros para o seu país. Mas a xenofobia está aumentando lá e na Europa, o que é muito preocupante”, comenta.
Para o Nobel, o principal inimigo do homem não é a tecnologia e sim ele mesmo. “Estamos vendo uma proliferação de ideias sem senso. Essa perda de confiança talvez seja o maior inimigo da ciência”, pontua.
Ele defende que populismo e polarização política freiam avanços tecnológicos. Esta é uma das grandes preocupações do Nobel em relação a democracias ocidentais, por se tratar de uma ameaça à ciência e à tecnologia.
China na liderança
Embora os EUA sejam conhecidos pela liderança tecnológica no mundo, Mokyr observou que a China está em uma trajetória silenciosa de crescimento e pode se tornar a nova líder quando o assunto é inovação.
Contudo, para o Nobel, não é relevante quem será o novo líder tecnológico, mas sim as mudanças que podem ser implementadas no mundo, por exemplo, em relação a mudanças climáticas.
“Todo mundo pegou carona nos avanços dos EUA, mas se a China assumir a liderança na fabricação de veículos elétricos, essa tecnologia vai ser disseminada ao Ocidente”, avalia. O objetivo, na visão dele, é que a tecnologia seja compartilhada de país para país.