Tesouro dos EUA surpreende ao anunciar recompra de treasuries: entenda a medida e o impacto nos investimentos
Iniciativa busca ampliar liquidez de ativos de longo prazo após alta de yields; mercado vê estratégia como ‘paliativa’
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos pegou investidores de surpresa ao anunciar, nesta semana, uma medida de recompra (buyback) de títulos públicos americanos de maior vencimento (entre 10 e 30 anos), de US$ 2 bilhões para um valor mínimo de US$ 4 bilhões por operação a partir de setembro, sob a justificativa de fornecer uma maior liquidez em setores nominais de longo prazo.
O anúncio vem na esteira de um momento de alta nos rendimentos dos títulos de dívida pública nos mercados internacionais. O yield associado aos treasuries de 30 anos, por exemplo, havia atingido o patamar de 5,3%, o mais alto desde 2007, enquanto os treasuries com vencimento em 10 anos subiram para mais de 4,7%.
Para o mercado, isso se deu sobretudo por conta dos custos relacionados ao endividamento da máquina pública dos EUA, cujo montante superou o patamar de US$ 40 trilhões nesta semana. Isso porque a percepção de risco fiscal gerou pressão sobre esses ativos, aumentando o rendimento enquanto pressiona os preços para baixo.
Logo após o anúncio, na quarta-feira (19), os yields dos títulos de 10 anos recuaram em 6 pontos-base, enquanto os de maior prazo, de 30 anos, caíram em 9 pontos-base.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que os rendimentos dos treasuries “não estão representando os fundamentos subjacentes do mercado”, além de citar que a liquidez “muito baixa” associada aos títulos de 30 anos foi um dos pilares para a intervenção do Tesouro num mercado considerado robusto. Bessent também deixou em aberto a possibilidade de um limite máximo acima dos US$ 4 bilhões mencionados.
Como funciona a recompra dos títulos
Na prática, o movimento de recompra dos títulos de dívida pública do país possibilita ao Tesouro a compra de títulos mais antigos e de menor valor no mercado (off-the-run) e a emissão de papéis mais valiosos e de maior demanda (on-the-run), reduzindo a volatilidade e gerando uma maior valuation nessa troca.
A medida vigorará no trimestre de refinanciamento entre o próximo dia 9 e o dia 4 de novembro. Ao todo, o mercado estima um volume de US$ 14 bilhões de recompras neste período.
A principal intenção do Tesouro é garantir uma maior liquidez e promover estabilidade fiscal diante da rolagem (emissão de novos títulos para pagar os antigos) cada vez maior em razão da dívida pública dos EUA.
Medida ‘paliativa’
As principais reações de instituições financeiras e analistas de mercado apontam que, de fato, o movimento de recompra tende a ampliar a liquidez da carteira de títulos públicos, mas, ao mesmo tempo, afirmam que a ação não combate de forma certeira a origem dos problemas fiscais ou do cenário de incerteza.
O Goldman Sachs ressalta que, apesar do alívio, os efeitos sentidos serão de curta duração, pois enquanto variáveis como o risco de inflação e a política econômica instável permanecerem uma constante, a recompra tenderá, somente, a deslocar a pressão para outro lugar.
“Em termos gerais, reduzir a quantidade de oferta no segmento longo não resolve os principais fatores que contribuíram para o recente barateamento relativo dos títulos longos. Portanto, é improvável que isso reduza de forma sustentável os prêmios de risco, a menos que seja acompanhado por uma mudança em algum outro fator”, afirma o GS.
A instituição também destaca que, ao contrário do que foi afirmado por Scott Bessent, os treasuries não estão desalinhados dos fundamentos macroeconômicos.
“Acreditamos que as próprias recompras dificilmente provocarão uma mudança significativa nos níveis das taxas, mesmo que sejam ampliadas. E a maioria dos fatores que anteriormente poderiam proporcionar alívio, como melhora nos dados de inflação, menor otimismo em relação à economia [o que poderia levar a uma redução dos juros] ou redução da incerteza sobre a política monetária, continuam ausentes”, acrescenta a instituição.
O J.P Morgan, por sua vez, ressalta que o anúncio da recompra veio após o Tesouro americano já ter anunciado o calendário das operações de recompra para o próximo trimestre, e afirma que o órgão não teria motivos plausíveis para justificar um aumento nos níveis de recompra neste período baseado no argumento de suporte à liquidez.
“Nesse contexto, não encontramos nada no funcionamento do mercado que obrigasse o Tesouro a aumentar as recompras no longo prazo neste momento”, diz a instituição, ao mencionar ainda um arcabouço feito no ano passado pelo Comitê de Assessoramento sobre Empréstimos do Tesouro (TBAC, na sigla em inglês) para identificar quais segmentos se beneficiam de maior ou menor suporte via recompras, ao considerar as demandas associadas a cada modalidade e a diferença de preço entre títulos on-the-run e off-the run.
Impactos nos investimentos
De maneira geral, as análises indicam que o movimento anunciado pelo Tesouro poderá exercer uma maior pressão nas costas do Federal Reserve (Fed), que seria, em tese, obrigado a assumir uma postura mais restritiva diante do afrouxamento.
Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, afirma, em nota, que a decisão de recompra tornará a dívida pública dos EUA mais dependente da política monetária desenhada pelo BC americano.
“Parte do mercado, inclusive, considera a possibilidade de novas altas dos juros de curto prazo caso a inflação permaneça pressionada. Mesmo em um cenário sem novas elevações, a precificação de juros elevados por um período prolongado já representa um risco para o custo de refinanciamento da dívida americana”, diz.
Spencer Feingold, do Fórum Econômico Mundial, ressalta o papel dos treasuries como uma “pedra angular do sistema financeiro”, considerados como um dos ativos mais seguros e confiáveis do mundo. Ao mesmo tempo, ele menciona que as transformações na economia global promoveram uma certa quebra de confiança dos investidores nos títulos públicos.
“Uma das principais preocupações dos investidores em títulos é a inflação, que é particularmente importante porque reduz o poder de compra dos pagamentos fixos. Assim, quando os investidores acreditam que a inflação pode permanecer elevada, exigem um rendimento maior como compensação”.
Ou seja, efetivamente, a recompra do Tesouro não eliminará os fatores que levaram à alta dos yields, sem alterar o cenário macro ou conter um eventual aumento de juros de mercado, o que aumenta o rendimento, mas reduz os preços dos treasuries, prejudicando sua capacidade de liquidez.
A mudança também pode influenciar o câmbio. Uma tentativa de conter o rendimento dos títulos pode resultar numa perda de atratividade e de investimentos, o que pressiona o dólar e reduz o retorno para aqueles que compram treasuries em moedas de menor cotação, como no caso do investidor brasileiro.
Sara Paixão enxerga a recompra como uma oportunidade benéfica para os mercados emergentes, como o Brasil: “A redução dos títulos de longo prazo do tesouro americano e a elevação da liquidez do mercado tendem a ser positivos para os ativos de risco de países emergentes.”