Notícias

Fed decide juros sob pressão de guerra e inflação nos EUA; confira o que esperar

Mercado espera manutenção da taxa, mas acredita que postura linha-dura do BC americano poderá levar a um aumento dos juros no futuro

Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
O Federal Reserve (Fed) decidirá nesta quarta-feira (29) os novos rumos da taxa de juros dos Estados Unidos, que opera desde o fim do ano passado no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano. A expectativa geral é de que haja manutenção da taxa, mas uma parte do mercado prevê uma ruptura dessa estabilidade, devido às incertezas relacionadas à guerra no Oriente Médio e à volatilidade do preço do petróleo, que voltou a subir após novos ataques na região ao longo da última semana; além da pressão exercida pela inflação acima da meta nos EUA. 

Na segunda-feira, os mercados reagiram positivamente após uma pausa nos combates. O preço do petróleo também recuou em cerca de 8%, encerrando o dia a US$ 85,87 pouco menos de uma semana depois de romper a barreira dos US$ 100. 

A maior parte dos investidores, uma fatia de 68,5%, aposta na manutenção do atual patamar, enquanto 31,5% vislumbram um possível aumento da taxa base americana, conforme dados disponibilizados pelo painel CME FedWatch nesta terça-feira. 

Os principais pontos de discrepância estão relacionados às incertezas globais e aos rumos do conflito no Oriente Médio, e também em relação ao presidente do Fed, Kevin Warsh, que assumiu o BC americano em maio em meio às promessas de reforma institucional e sob a pressão exercida pelo presidente Donald Trump por uma redução nos juros. 

A gestão do antecessor de Warsh, Jerome Powell, foi marcada por uma série de divergências entre a autoridade monetária e a Casa Branca. Isso porque Trump, repetidas vezes, acusou Powell de má condução da política monetária dos EUA e de tentar sabotar a economia ao não realizar o corte dos juros.

Agora, o mercado espera também mapear o perfil do novo mandatário, na tentativa de ganhar previsibilidade em relação a seus movimentos enquanto líder da instituição. Na última reunião, em junho, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) decidiu por manter inalteradas as taxas vigentes desde dezembro, devido à estabilidade da economia americana e do mercado de trabalho interno, apesar de questões como a guerra e uma inflação ligeiramente alta para os padrões, de 3,5%, ante uma meta de 2%.

Para o J.P. Morgan, a taxa de juros americana deverá permanecer no nível atual pelo menos até o fim deste ano, com um aumento de 0,25 ponto percentual previsto para setembro de 2027. O banco também ressaltou que eventuais reformas na política monetária conduzidas por Kevin Warsh demandarão tempo e também a deliberação dos demais membros do Fomc, que incluem o Conselho de Governadores e autoridades monetárias regionais.

O Goldman Sachs avalia que poderá haver alguns votos divergentes dentro do comitê em direção a uma alta dos juros, mas que, por ora, a manutenção dos juros deverá prevalecer. O banco destaca, porém, que o cenário geopolítico incerto e a flutuação dos preços do petróleo podem ser um fator decisivo para influenciar a postura “hawkish” por parte do Fed, levando a um eventual aumento dos juros.

“A incerteza do mercado provavelmente reflete o fato de que a abordagem do presidente Warsh é suficientemente diferente para gerar dúvidas acerca dos padrões históricos, se eles ainda se aplicam; (além disso) sua própria posição em relação a um aumento dos juros permanece pouco clara”, destaca David Mericle, economista-chefe para os Estados Unidos do Goldman Sachs, que menciona também fatores como as recentes divergências internas do Fomc e a possibilidade de reescalada do conflito no Irã.

O banco pontua que uma elevação dos juros, no cenário atual, teria um efeito desinflacionário limitado, insuficiente para compensar os impactos provocados pelo choque de oferta.

Impacto da decisão no Brasil

O mercado brasileiro espera a decisão do Fed para antecipar seus próximos movimentos. Uma manutenção da taxa de juros dos EUA, por exemplo, sugere que o dólar poderá se manter estável frente ao real.

Uma elevação da taxa, por outro lado, favorece o rendimento dos títulos públicos americanos, os Treasuries, o que redireciona investidores, que buscam a segurança e o rendimento desses ativos, para o mercado americano em detrimento dos ativos de renda fixa do Brasil. Essa movimentação tende a encarecer o dólar, o que gera uma pressão sobre a inflação local e uma tendência de aumento na taxa Selic

Os juros americanos também influenciam a flutuação dos preços do petróleo, que é cotado em dólar internacionalmente. Nesse sentido, um aumento da taxa pode refletir em maiores lucros para os setores de petróleo e gás, mas, ao mesmo tempo, gerar uma elevação dos preços de combustíveis que encarece os custos no mercado doméstico.

No caso mais esperado, o da manutenção, a tendência é que o dólar se mantenha estável ou apresente uma variação ligeira. Já os juros futuros podem apresentar uma leve subida, especialmente por conta da postura mais dura por parte do Fed, principalmente se a instituição sinalizar alguma elevação dos juros num futuro próximo, seja para conter a inflação ou por conta dos choques decorrentes do contexto geopolítico.

Quer analisar todos os seus investimentos em um só lugar, em uma plataforma intuitiva? Baixe o APP B3