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Itaú BBA vê ‘guerra temporária’, queda no preço do petróleo e aumento de cautela nos BCs

Com tensão geopolítica no radar mesmo após uma eventual reabertura do Estreito de Ormuz, Itaú ainda avalia inflação como 'comportada' no momento atual e projeta Selic terminal de 12,25% para 2026

Com ISTOÉ Dinheiro

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Apesar da escalada do conflito e de o petróleo já operar acima dos US$ 110, o Itaú BBA vê um horizonte com algum nível de otimismo. A tese é de que já na primeira quinzena de abril o Estreito de Ormuz seja reaberto e, com isso, o preço do petróleo sofra uma correção.

Assim, a visão é de que o conflito atual tenha uma semelhança com a Guerra do Golfo e não perdure por tanto tempo. Em entrevista coletiva à imprensa nesta quinta-feira, 19, o economista do Itaú Pedro Schneider frisou que, em um cenário de alívio das tensões geopolíticas, o preço poderá voltar para menos de US$ 100 o barril.

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“O fechamento [do estreito] deve durar pelo menos até metade de abril. Se não tiver nenhuma novidade, se seguir fechado, o preço seguirá subindo. A assimetria versus o preços atuais é de preços mais altos e não mais baixos, olhando para a frente. Para voltar abaixo de US$ 100 precisa ter solução para guerra e não existe expectativa de curto prazo, mas não existe expectativa de guerra o ano todo – justamente porque a relevância do local ali é gigantesca”, diz Pedro Schneider.

Isso, considerando que o custo econômico do estreito fechado é altíssimo – o que funciona como um incentivo para que os EUA não escalem violência, a fim de evitar choques inflacionário e um cenário que chegaria a afetar o governo Trump nas eleições de meio de mandato (midterms) que ocorrerão em novembro.

Ainda que com uma ‘guerra temporária’, o choque de petróleo deve durar mais de um mês.

No momento, as expectativas de inflação seguem comportadas nas projeções da casa, mas o conflito aumenta os riscos altistas e pode mudar uma das principais variáveis do Banco Central (BC).

Caso o petróleo se mantenha permanentemente acima do nível visto no pré-guerra, a postura do BC – assim como outras autoridades monetárias globais – deve ser de mais austeridade.

No comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana o BC já havia reiterado a postura cautelosa durante o ciclo de flexibilização, e um petróleo mais próximo de US$ 200 pode fazer a autoridade monetária recalibrar a rota.

“Quando petróleo sobe e fica, BCs sobem juros também. No embargo da Opec na década de 1970 o Federal Reserve vinha subindo juros, tentou cortar, mas veio do choque do petróleo. Quando isso ocorreu, o Fed inclusive voltou a subir os juros novamente”, exemplifica Schneider.

“No Fed, por exemplo, se você atualizar esse gráfico para hoje, até ontem, já não tem mais expectativa do mercado de corte de juros neste ano. Claro que depende de outras coisas, depende não só de inflação, do tamanho do choque de petróleo, também depende da atividade e a gente vê a atividade nos Estados Unidos como forte. Então acho que tem aumentado a chance chance do Fed não conseguir cortar juros neste ano porque a inflação está alta. Ela está rodando em 3% e o risco agora ela é ser mais que 3% e não menos que 3%”, completa.

A projeção da casa é de um petróleo entre US$ 70 e US$ 75 ao fim deste ano, com os preços incorporando o risco geopolítico que deve seguir no radar – cenário que a casa vê como ‘mais provável’.

Olhando para juros e inflação, o Itaú projeta 12,25% de Selic terminal para 2026 e 11,25% para 2027, ao passo que a expectativa da casa para o IPCA fica em 3,8% para este ano e 3,9% para o próximo.

Projeções macroeconômicas do Itaú BBA; petróleo; ipca; selic; inflação
Divulgação/Itaú BBA

Inflação ainda ‘comportada’ mesmo com choque do petróleo

Julia Gottlieb, também economista do banco, comenta que a casa segue enxergando uma ‘inflação corrente ainda comportada’, embora as surpresas altistas na leitura do IPCA-15 e do IPCA de fevereiro, com alguns itens voláteis apresentando altas acima do esperado – incluindo passagens aéreas, seguro de automóveis e outros itens.

“O que acontece agora é que os riscos de inflação ficaram maiores, especialmente por conta de combustível, que está ligado à guerra e ao seu efeito no preço do petróleo”, analisa.

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A especialista frisa que cada vez que a Petrobras aumenta 10% no preço da gasolina no repasse às refinarias, há um impacto direto de cerca de 20 pontos-base (bps) na inflação.

No caso do diesel, são os mesmos 10% para 20bps, entretanto o efeito é indireto, dado que o combustível em questão tem um peso baixo no índice de inflação, porém impacta a cadeia econômica como um todo, aumentando custos de frete.

“Tem risco de alta tanto na gasolina quanto no quanto no diesel, e isso é o efeito direto e principal, o maior risco altista para a inflação. Tem ainda um outro risco adicional do conflito para inflação, que é caso o conflito se prolongue. Isso pode gerar um aumento no preço de fertilizante e, quanto mais alto o preço de fertilizante, maior o preço de soja, do trigo. A nossa dependência de fertilizante é bem grande. Então a gente acha que esse efeito tende a ser mais para 2027 do que para 2026”, detalha.

Sobre o ciclo de política monetária, destaca que o mercado apresenta um nível relevante de dissenso sobre a magnitude dos cortes, exemplificando que o mercado se mantinha dividido sobre projeções para o último Copom, com players projetando cortes de 0,25%, 0,5% e até mesmo uma manutenção.

“O BC começou o ciclo de flexibilização de juros com corte de 25bps. O Copom começou de forma cautelosa, e está calibrando o grau de restrição. Vai continuar cortando, mas a magnitude vai depender de como vai evoluir a guerra e o impacto disso nos preços de petróleo e consequentemente nas expectativas de inflação em um horizonte relevante.”

petróleo; bcs; inflação; IPCA
Divulgação/Itaú BBA

*Matéria publicada originalmente em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir

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