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Luiz Fernando Figueiredo: “O Brasil tem a vantagem de não temer a inflação”

Para ex-diretor do BC, superadas as turbulências das eleições, panorama é positivo para investimentos no Brasil

Luiz Fernando Figueiredo ex diretor do Banco Central
Para Luiz Fernando Figueiredo, passada a incerteza das eleições, os investidores voltarão ao Brasil Crédito: Divulgação

A pandemia está ficando para trás, mas um de seus efeitos colaterais mais perversos – a inflação – ainda promete durar um bom tempo e dificultar a recuperação das principais economias do mundo.

Para tentar vencê-la, Estados Unidos e Europa devem continuar aumentando os juros. Já o Brasil, ao que tudo indica, por ter começado o trabalho antes, está próximo de encerrar esse ciclo.

“Estamos no finalzinho do aperto monetário do Banco Central, que, provavelmente, subirá apenas mais uma vez a Selic e ficará um bom período com ela parada”, acredita Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e hoje CEO da gestora Mauá Capital.

Nesta entrevista ao Bora Investir, o especialista fala sobre os efeitos da Guerra da Ucrânia no processo de recuperação econômica, dos desafios trazidos pelo atual processo eleitoral brasileiro, além de oportunidades de investimento no País.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como vê o atual cenário econômico no Brasil?
Luiz: Saímos da pandemia, mas enfrentamos um efeito colateral sério para a economia. Do lado da oferta, há uma escassez de matérias-primas e produtos em geral como, por exemplo, semicondutores. É o caso dos discos de silício, matéria-prima para a produção de chip, presentes na fabricação de eletrodomésticos, automóveis e celulares. Com a volta do consumidor às ruas e o aumento da renda, a demanda por esses produtos cresce, o que provoca uma elevação dos preços. Os governos reagiram muito forte na pandemia, ajudando financeiramente a população, e isso aumentou os ganhos de diversas famílias. Em vários países, essa demanda ficou muito forte, pressionando a inflação.

Em sua avaliação, até quando vai o aperto do Banco Central para combater à inflação?
Luiz: O Brasil, que teve até uma inflação superior ao resto do mundo, provavelmente, será o país com uma inflação igual ou até inferior em relação aos demais. Estamos no finalzinho do aperto monetário do Banco Central, que deverá subir apenas mais uma vez a Selic, mantendo essa taxa parada por um bom período. Já existe projeção de queda para o ano que vem, quando será possível contar com uma Selic de um dígito.

E quanto ao cenário inflacionário mundial?
Luiz: O mundo vive esse problema da inflação muito alta, que foi ampliado em função da crise com a guerra entre Rússia e Ucrânia. Como se resolve isso? Normalizando as políticas monetárias, seja regulando a taxa de juros, ajustando a liquidez no sistema e controlando a própria política fiscal do país. O que vejo é que os outros países vão precisar apertar um pouco mais os juros, para conseguir esfriar a economia até a inflação voltar ao normal. Não é fácil. Principalmente, para quem nunca lidou com isso. No primeiro mundo, faz 40 anos que não havia inflação. Já por aqui, temos uma vantagem: o Brasil sabe lidar com o processo inflacionário. Por isso, o Banco Central já fez a sua parte, diferentemente do resto do mundo, que realizam esse ajuste de forma mais lenta.

O Brasil, como grande exportador de commodities, pode se beneficiar de alguma forma desse ciclo?
Luiz: Se, por um lado, o país sofre com os custos da produção mais elevados, por outro, o Brasil ganha com o aumento da demanda global por commodities, já que é um grande produtor e exportador. Ou seja, esse cenário também tem um lado positivo para quem atua, por exemplo, diretamente na área agrícola. O Brasil pode contar com uma certa mitigação dos problemas enfrentados mundialmente. Somos também um grande exportador de petróleo, e a elevação das vendas ao exterior vai contribuir, inclusive, para a redução do déficit fiscal neste ano.

O atual processo eleitoral complica o cenário de recuperação do País?
Luiz: A eleição que vem pela frente nos deixa um grau de incerteza, principalmente, em relação à questão fiscal: a gente sabe que a dívida brasileira não pode crescer muito mais, sob o risco de ficar impagável. Como o mercado não sabe como ficará a questão fiscal pós-eleições, isso afeta, sim, as expectativas dos investidores sobre a economia em geral. Contudo, é importante lembrar que, independentemente de quem vença para o Executivo, nós temos, tradicionalmente, um Congresso Nacional de Centro. Quando a gente olha para o passado, percebe o que costuma ser ou não aprovado do ponto de vista do nosso sistema fiscal. O Brasil vem registrando uma boa recuperação fiscal nos últimos anos, muito melhor do que se imaginava.

Como essa incerteza afeta o preço dos ativos no Brasil?
Luiz: Sobre os ativos brasileiros, já existe um certo grau de desconto por conta dessa incerteza. O ponto é que, neste momento pré-eleitoral, os investidores preferem esperar. Mas na medida em que as eleições se definirem, essa insegurança irá se reduzir, com uma tendência de os ativos performarem bem. O que precisa ficar claro agora é que, se o maior problema econômico do mundo é a inflação, o Brasil já está na frente no cuidado desta questão. O risco de recessão aqui é muito pequeno, em relação aos outros países.

Qual a expectativa para a Bolsa de Valores brasileira em relação aos demais países?
Luiz: Se olharmos a bolsa americana e europeia, em dólar, elas não estão se recuperando como a bolsa brasileira. O preço dos ativos no Brasil só não estão maiores porque as pessoas sempre preferem investir quando a incerteza está menor. Mas essa é a questão: num cenário de mais segurança, os preços ficam mais caros. Aos poucos, as economias estão entrando no eixo, superando a crise gerada pela pandemia. O que está atrapalhando ainda é a inflação alta.

Destacaria setores e empresas para investir neste cenário?
Luiz: Eu destacaria as empresas consolidadas, isto é, as que são mais relevantes no seu setor, pois são elas que têm condições de superar, antes das outras, os desafios em momentos como o atual. Todas elas sofreram muito na pandemia. Mas a gente sabe quais são as empresas boas. Se, antes da crise, elas estavam caras, agora se encontram com preços muito bons. Isso vale para o setor de varejo, financeiro, cultura e outros.

Num passado recente se falava muito sobre investir no exterior. Essa possibilidade se mostrou vantajosa?
Luiz: Infelizmente, quem investiu no exterior no ano passado, querendo seguir uma moda, perdeu dinheiro. Os ativos caíram muito, e a taxa de câmbio no Brasil se apreciou neste período. Os ativos estavam caros demais no mundo, e agora chegaram a um preço mais razoável. Eu ainda tenho um pouco de dúvida se o mercado ainda não vai ajustar um pouco mais esses valores. Já os ativos brasileiros não chegaram a um preço tão exuberante quanto os lá de fora no ano passado.

A trajetória aqui vem sendo bem diferente.
Luiz: Sim, e isso vai refletir na velocidade de recuperação da economia. O mundo tende a crescer a uma taxa mínima, por um bom período ainda. Eles estão convivendo com um custo de capital mais alto do que antes, quando as taxas eram excepcionalmente baixas. Também precisarão lidar com o impacto da inflação no seu dia a dia, algo inédito para muitas pessoas nesses países. Mas por aqui, não é assim. O Brasil vai sair na frente na recuperação econômica. Ninguém com mais de 40 anos tem medo de inflação por aqui.

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