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Quais os maiores riscos à economia global, segundo Jakurski, Stuhlberger e Xavier

Os três gestores discutiram as perspectivas para a economia internacional e o posicionamento do Brasil

Mapa geográfico com alfinete marcando local no mapa. Foto: Adobe Stock
Veja a lista dos principais índices mundiais espalhados pela América, Europa e Ásia. Foto: Adobe Stock

Por Daniela Frabasile

Com inflação controlada e alguma visibilidade sobre o início do processo de corte de juros, as perspectivas para a economia global têm se mostrado otimistas. Esse otimismo, no entanto, vem acompanhado de cautela. Em palestra realizada nesta terça-feira (06/02), os gestores André Jakurski, da JGP, Luís Stuhlberger, da Verde Asset, e Rogério Xavier, da SPX Capital, comentaram quais os maiores riscos que enxergam para este ano.

André Jakurski: eleição e explosão da dívida nos EUA

Segundo André Jakurski, um dos principais temas para o ano de 2024 é a eleição presidencial nos Estados Unidos. Ao que indica, a disputa será uma reedição de 2020, com o embate entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump. Na visão do gestor, isso terá repercussões na condução da política econômica norte-americana ao longo do ano.

“O establishment está contra o Trump e existe um esforço que vai ser feito de maneira mais intensa de derrubá-lo. Acho que o Fed estará mais propenso a baixar os juros e o governo Biden vai gastar mais dinheiro do que se imaginaria ser possível normalmente”, afirmou durante a BTG CEO Conference Brasil.

Esses fatores, segundo ele, devem balizar a inflação norte-americana, em um ambiente em que a economia está se estabilizando. “Eu diria que o last mile [do controle da inflação] vai ser mais difícil, mas os políticos não estão muito preocupados com isso”, disse.

“Me preocupa a explosão da dívida dos Estados Unidos, que saiu de US$ 22 trilhões para US$ 34 trilhões, e continua-se gastando dinheiro”, completou ele. “É uma bomba com pavio curto, que pode  estourar em 6 meses ou 4 anos”.

Outro risco citado por Jakurski é o fortalecimento militar da China. “Quando eu olho para um prazo mais longo, vejo a China par a par com os EUA militarmente em cinco a dez anos, com condições para invadir Taiwan”, afirmou.

Essa tensão entre as duas potências se agrava considerando que a China hoje concentra a produção de itens essenciais para a economia global. “Ela desliga o Ocidente se quiser, ela que produz chip, parafuso, penicilina”, comentou.

“Essa dicotomia está enfraquecendo o Ocidente, e é um problema. A desigualdade faz o Ocidente tender ao socialismo, e sabemos que a produtividade não é boa nesse tipo de regime”.

Rogério Xavier: mudanças no mercado de trabalho e esgotamento do modelo econômico chinês

Para Xavier, da SPX, um dos grandes riscos à economia global vem da China, mas por razões diferentes das citadas por Jakurski.

“Um país não compra duas batalhas ao mesmo tempo, e a China está focando na parte econômica. O problema é que, como ela deve falhar no lado econômico, pode migrar para um conflito geopolítico”, disse. “Isso porque o presidente Xi Jinping pode se enfraquecer e, como todo ditador, vai criar um conflito externo para unir o país”, explica.

Segundo ele, a China vive hoje um esgotamento de seu modelo econômico. “Em vez de privilegiar o consumo, insiste em apostar no lado da oferta, estimulando uma indústria forte. Com isso, produz um excedente exportável, que para o mundo é bom porque reduz a inflação de bens”, diz.

Para a China, no entanto, o cenário vira contra ela mesma. “Há sinais inequívocos de que uma crise bancária já começou. Os problemas da China são profundos. Imagino que o país vai ter um colapso econômico por conta de uma crise bancária e isso deve terminar com um conflito, provavelmente em Taiwan”, diz. Se Trump ganhar as eleições nos EUA e elevar as tarifas de importação aos produtos chineses, a situação fica ainda pior.

Ele citou ainda como ponto de atenção o mercado de trabalho. “Parece que houve uma mudança pós-covid, com o home office, as pessoas aceitam ganhar menos em troca de poder trabalhar de casa. Em todo o mundo, apesar do mercado de trabalho apertado, não estamos vendo pressão de salários”, afirmou. Xavier lembrou ainda que a taxa de pedidos de demissão nos Estados Unidos já voltou ao patamar pré-pandemia. “Isso quer dizer que as pessoas que estão empregadas estão satisfeitas, inclusive com seus salários”.

Entretanto, essa mudança ainda não está sendo considerada pelos Bancos Centrais dos países desenvolvidos, diz ele, que ainda estão receosos com a volta da inflação, vinda do mercado de trabalho. “Na minha opinião, os Bancos Centrais estão conservadores. Erraram barbaramente na subida de juros e não querem errar na volta”.

Stulberger: China enfraquecida e EUA como “xerife do mundo”

Luís Stuhlberger também vê um risco geopolítico, mas não concentrado na China. “A grande ameaça é a multiplicação de guerras regionais, que faz com que os EUA, como xerife do mundo, gaste muito dinheiro”, afirmou.

Apesar do risco de elevação da dívida americana, ele vê um cenário positivo para o país. “Os Estados Unidos estão em um cenário muito positivo, com crescimento robusto do PIB, mercado de trabalho robusto e inflação controlada”.

No Oriente, ele vê mercados imobiliário e acionário chinês sobrevalorizados. “O cenário mais provável é o que aconteceu no Japão, onde o preço das ações desabou em um ano, e o preço de terras e imóveis ficou caindo por 20, 30 anos”, diz.

Ele lembra que ainda não há relatos de grandes problemas com o pagamento de hipotecas, mas que o peso da dívida imobiliária sobre as famílias preocupa. Uma diferença grande para o que aconteceu nos Estados Unidos em 2008, lembra Stuhlberger, é que o valor da entrada para os financiamentos na China é elevado, o que reduz a probabilidade de inadimplência. No entanto, “a massa de salário pode entrar em uma estabilidade ou até em deflação, e com isso, o serviço da dívida para as famílias fica mais pesado. O resultado é que a propensão ao consumo cai”, resume.

“Eu diria que a China está passando por uma crise de modelo, e nesse campo não tem como não sair economicamente mais enfraquecida”, afirmou.

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