Notícias

O que é o El Niño? E o que ele tem a ver com a economia?

O fenômeno conhecido como El Niño deve ter consequências econômicas importantes, para além dos desastres climáticos

El Niño
O El Niño é conhecido por alterar o clima de todos os países banhados pelo oceano Pacífico

Por Guilherme Naldis

Além de impactar diretamente a vida de milhares de pessoas pelo Brasil e pelo mundo, as mudanças climáticas devem ter efeitos ainda incertos na economia. Assim como o incêndio recente na região turística costeira de Valparaíso, no centro do Chile, como as ventanias na região sul do Brasil nos últimos meses, a intensidade dos fenômenos naturais dá sinais de que o El Niño deve ser mais rigoroso que o usual. 

E, aí, começam os problemas econômicos. Isso porque, se tratando de investimentos, mais previsibilidade é sinônimo de condições melhores de estratégia para alocação de recursos. Com o tempo instável, entretanto, tudo fica mais incerto. Em especial, para o setor do agronegócio, que depende diretamente do clima. 

“O agro é uma fábrica a céu aberto. Se São Pedro não manda chuva, não tem o que fazer. Se ele manda demais, a gente tem que dar um jeito. Mas não tem milagre, o campo depende do clima”, explica Felippe Serigati, professor do FGVAgro. 

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático que acontece quando a temperatura das águas do oceano Pacífico se eleva. Com o mar mais quente, o clima no mundo inteiro se altera já que o calor nas águas influencia as chuvas e os ventos na terra firme. 

E ele não é anual: a estimativa é que aconteça uma vez a cada cinco anos. Normalmente, o El Niño é favorável para a agricultura nas América do Sul e do Norte, aumentando a produtividade das safras de milho e soja em razão do aumento de chuvas no sul e nas secas do norte e do nordeste.

Como ele afeta a economia?

Serigati explica que os problemas do El Niño não se manifestam no Brasil, já que o País acaba tendo incrementos de produtividade. O peso recai sobre a Austrália, a Índia e o sudeste asiático, cujos mercados domésticos demandam mais do que a produção interna pode atender.

 “E se as safras deles são prejudicadas pelo El Niño, eles precisam importar mais da gente, o que vai pressionar o preço das commodities”, afirma.

Neste caso, estes produtos agrícolas passariam a ser disputados tanto por brasileiros, que comprariam em real, e estrangeiros, que comprariam em dólar. Nessa equação, o consumidor local sai perdendo conforme os preços aumentam, enquanto o exportador se beneficia e vende mais. “Mas isso nos casos de El Niño convencional”, destaca o professor. 

Por que este El Niño pode ser um problema?

Se o El Niño adiciona uma dose de dúvidas nos mercados internacionais, um El Niño mais turbulento traz ainda mais preocupação. Segundo Julia Passabom, economista do time de pesquisa macroeconômica do Itaú, o fenômeno climático atual trará uma desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) do agro, que deverá ser de alta de 2,5% em 2024, após o incremento estimado para 2023 de 13,7%. 

Isso porque, para ela, o El Niño deste ano deve ter uma intensidade entre moderada e alta. Um fenômeno realmente severo foi o de 2015 e de 2016, que implicou em quedas intensas de produtividade. “De maneira geral, o impacto do El Niño tende a ser mais negativo para a safra de milho e misto sobre soja”, diz, destacando que as duas culturas são as principais de exportação para o Brasil. Mesmo assim, a expectativa é que os efeitos sejam limitados ao passo que não se espera uma variação de temperatura tão brutal como a da década passada. 

Ao mesmo tempo, os sinais não são bons. “A gente está vendo uma seca muito forte no Amazonas e um volume de chuvas muito grande no Sul do Brasil. Essa pluviosidade está, inclusive, atrapalhando o plantio da próxima safra de milho e a colheita de trigo, aveia e canola…”, lembra Serigatti. 

Para o professor, será necessário ver o El Niño se consolidar e demonstrar seus verdadeiros efeitos para, enfim, mensurar seu impacto na economia. 

Como meu bolso deve ser afetado?

A variação nas safras do lado de lá do Pacífico fazem os preços do lado de cá aumentarem, devido à lei da oferta e da demanda. Isto é: se australianos e indianos precisam de mais arroz e seus agricultores não são capazes de atender a demanda local, eles compram de fora. E o Brasil, por acaso, é o maior exportador de commodities agrícolas do mundo. Neste caso, os preços do mercado interno seriam elevados devido à lei da oferta e da demanda. Mas, se as safras locais também forem penalizadas, a tendência é que o preço de todos os alimentos – mesmo os “imunes” ao El Niño – encareçam. Afinal, tudo na economia é interligado: se o produto X tem uma redução na oferta e seus preços aumentam, os consumidores são induzidos a ir para o produto Y. Este, por sua vez, não estava preparado para a leva adicional de consumidores, o que faz seus preços aumentarem por consequência, e assim por diante.

Quer saber mais sobre investimentos em ESG? Confira o curso gratuito do Hub de Educação da B3!

Sobre nós

O Bora Investir é um site de educação financeira idealizado pela B3, a Bolsa do Brasil. Além de notícias sobre o mercado financeiro, também traz conteúdos para quem deseja aprender como funcionam as diversas modalidades de investimentos disponíveis no mercado atualmente.

Feitas por uma redação composta por especialistas em finanças, as matérias do Bora Investir te conduzem a um aprendizado sólido e confiável. O site também conta com artigos feitos por parceiros experientes de outras instituições financeiras, com conteúdos que ampliam os conhecimentos e contribuem para a formação financeira de todos os brasileiros.

Últimas notícias