‘Subida de tom’ do Fed reforça visão de alta dos juros nos EUA ainda neste ano
Pressionado por fatores como guerra e a inflação, o banco central americano deverá adotar uma postura mais rígida nos próximos meses
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
O Federal Reserve (Fed) decidiu, em sua mais recente reunião, manter inalterada a taxa de juros dos Estados Unidos, vigente no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano desde dezembro. O BC americano, porém, demonstra sinais que podem indicar uma possível mudança de postura nos próximos meses, pressionado por fatores como a inflação e a guerra no Oriente Médio.
A decisão pela manutenção dos juros no patamar atual se deu por uma maioria de 9 votos ante 3 votos opositores, que defendiam a elevação da taxa, uma dissidência que não era vista numa reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) desde 2016.
Em ata divulgada no pós-reunião, o Fed destacou a resiliência da economia americana e do mercado de trabalho como pontos positivos, mas sem deixar de mencionar a incerteza global e, sobretudo, a pressão inflacionária, que pode encarecer custos no mercado doméstico.
O cenário relativamente volátil pode indicar uma mudança de postura por parte do Fed. Antes da última reunião, alguns gigantes de Wall Street, como o J.P. Morgan, previam um aumento dos juros somente em 2027. Agora, há quem espere uma elevação da taxa já na próxima reunião do Fomc, marcada para 15 de setembro.
O painel CME FedWatch indica, conforme dados atualizados nesta segunda-feira (3), que quase 65% dos investidores esperam por um aumento de 0,25 ponto percentual na próxima reunião. Isso porque o mercado vislumbra, neste momento, uma tendência hawkish por parte do banco central americano, ou seja, uma postura linha-dura focada principalmente em combater a alta da inflação por meio da elevação dos juros.
O Goldman Sachs avalia, em análise divulgada recentemente, que a guerra no Irã e seus impasses, como o fechamento do Estreito de Hormuz e a flutuação do preço do petróleo têm levados os bancos centrais ao redor do mundo a adotar uma política mais linha-dura em relação à política monetária. O GS aponta que, nos últimos três meses, mais de um terço (39%) dos BCs das economias desenvolvidas elevaram os juros, e nenhum realizou corte nas taxas. Entre as economias emergentes, o resultado foi de 16% entre os que optaram por redução de juros ante 13% que decidiram pela elevação.
Para os analistas ouvidos pelo Bora Investir, a guerra e a incerteza que ela traz para o panorama global, e especialmente para o setor de petróleo, têm um papel importante na mudança de rota da autoridade monetária americana, especialmente por uma uma eventual alta de preços no setor de energia, algo apontado pelo próprio Fed na ata pós-reunião. Contudo, o principal ponto de pressão diz respeito à persistência da inflação num nível acima da meta, fixada em 2% ao ano.
“A virada nas probabilidades está diretamente ligada à escalada de preços de energia gerada pelo conflito no Oriente Médio, um dos três choques estruturais que o próprio Fed já havia citado como fonte de inflação persistente, ao lado das tarifas e do investimento em infraestrutura de inteligência artificial”, destaca Marcos Piellusch, professor da FIA Business School.
O professor cita ainda a declaração dada pelo presidente do Fed, Kevin Warsh, sobre “entregar estabilidade dos preços”. Na ocasião, Warsh descartou que haja qualquer tipo de flexibilidade referente à meta de inflação e declarou que a instituição “não hesitará” em agir para conter a elevação dos preços.
“É uma inflação de serviços, que já estava elevada há alguns anos e que o Fed não conseguiu baixar e nem convergir para a meta. Por conta da reaceleração da inflação no início do ano, eles não conseguiram cortar os juros, como esperavam, e agora estão mudando a postura, já se preparando para um cenário de alta”, ressalta Andressa Durão, economista do ASA.
Os analistas citam ainda o aperto inflacionário gerado pelo novo tarifaço deflagrado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Devido ao aumento de custos de importação, as empresas podem repassar os custos adicionais ao consumidor no longo prazo.
“O próprio Fed de Nova Iorque fez pesquisas com empresas que disseram que poderia ainda repassar alguma coisa nos próximos meses, conforme a margem delas esteja apertada. Eles conseguiram esse custo de aumento da tarifa e, conforme eles não consigam mais segurar, os custos serão repassados em algum momento”, afirma Durão.
“O efeito sobre os juros tende a ser indireto e gradual: quanto mais essas tarifas se traduzirem em inflação persistente, mais munição os membros hawkish do Fomc terão para defender juros mais altos por mais tempo, reduzindo o espaço para cortes no curto prazo”, pontua Piellusch.
A incógnita Kevin Warsh
Após duas reuniões à frente do Fed, o presidente da instituição, Kevin Warsh, ainda é considerado uma incógnita aos olhos de investidores e outros players do mercado financeiro. O novo mandatário chegou à presidência com a prerrogativa de conter a inflação e evitar as pressões sofridas por seu antecessor, Jerome Powell, que entrou em rota de colisão com a Casa Branca após pressões constantes por parte de Trump por uma redução dos juros.
Para os especialistas, ainda é cedo para mapear um perfil de Kevin Warsh. Ele, porém, já dá alguns sinais de mudança em relação à comunicação, ao acreditar que um Fed menos “exposto” conseguirá trabalhar melhor. Como parte dessa política, a nova gestão eliminou os “forward guidances”, ferramenta que orientava os próximos passos a serem tomados pela autoridade monetária.
Segundo o jornal The New York Times, Warsh teria cogitado ainda uma redução no número de reuniões do Comitê, atualmente fixado em oito reuniões anuais. Essa manobra, entretanto, pode não ser uma opção muito bem-vinda em um momento já muito marcado por incertezas.
“O efeito prático seria menos pontos de checagem formais para o mercado recalibrar expectativas sobre juros, o que tende a aumentar a volatilidade nos intervalos entre decisões, já que investidores teriam menos oportunidades de ajustar posições com base em sinalização oficial”, pondera Marcos Piellusch, ao citar ainda que os reflexos dessa decisão podem impactar os segmentos de câmbio, renda fixa e fluxo de capital, em particular em mercados emergentes, como o Brasil.
O mercado também ainda não consegue avaliar se Warsh deve ser interpretado como alguém que levará o Fed a uma guinada hawkish ou se ele deverá seguir um caminho “dovish”, ou seja, mais flexível, a despeito da probabilidade de endurecimento da instituição.
“O mercado imaginava que, como era o indicado do Trump, ele viria com discurso de quem poderia, mais para frente, querer baixar o juro ao invés de subir. Só que ele se comprometeu em entregar a inflação na meta, o que automaticamente passa uma mensagem muito subliminar de que ele acabaria promovendo uma alta de juros”, diz Durão.
A postura de Warsh após a reunião de semana passada foi amplamente considerada dovish pelo mercado, que assimilou uma mudança de tom na coletiva de imprensa pós-reunião, em que o presidente adotou uma postura mais branda e mesmo evasiva em relação à sua, até então retórica firme de controle da inflação.
A economista menciona ter havido uma espécie de ruído de comunicação entre Kevin Warsh e o mercado, em que o presidente teria sugerido que a própria credibilidade do Fed, aliada à regulação do mercado, por meio de expectativas de inflação ancoradas e das condições financeiras mais restritivas, seria suficiente para controlar os preços sem a necessidade de aumento dos juros.
“O mercado respondeu com o efeito contrário. Abriu um pouco a expectativa de inflação e o juro longo, porque ficou entendido que ele (Warsh) não estava se comprometendo mais com a alta de juros. Ele acabou soando um pouco dovish”, acrescenta Durão.
Possíveis impactos no Brasil
Para o Brasil, as principais consequências de uma tendência de alta nos juros dos Estados Unidos incluem um redirecionamento do investimento para os títulos soberanos americanos, os Treasuries, que devem ganhar competitividade em um cenário de juros elevados; a pressão cambial, ao elevar o custo da moeda americana; e um impacto na trajetória da Selic.
“Uma eventual alta de juros nos Estados Unidos tende a reduzir o apetite por risco em mercados emergentes, pressionando o real e podendo forçar o Banco Central a rever o ritmo de flexibilização monetária, mesmo com o diferencial de juros ainda amplo a favor do Brasil”, afirma Marcos Piellusch.
Uma elevação dos juros dos EUA já na próxima reunião do Fomc, em setembro, coincidiria ainda com o período de véspera de eleição no Brasil, em que variáveis como o encarecimento do dólar e a pressão exercida pelos juros tendem a ter um peso significativo na hora do voto.
“Juros domésticos mais altos por mais tempo pressionam o custo da dívida pública, o crédito e a atividade econômica, fatores que tendem a ganhar peso político em ano eleitoral. A magnitude desse efeito, porém, depende de quanto e com que velocidade o Fed realmente irá se mover, do cenário fiscal brasileiro e da percepção de risco-país no período, variáveis que ainda comportam um grau de incerteza relevante”, completa o professor.