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Mulheres querem investir para conquistar liberdade, diz Júlia Abi-Sâmara

Ao Bora Investir, criadora do perfil As Investidoras dá recomendações para mulheres que queiram dar os primeiros passos no mercado financeiro

Júlia Abi-Sâmara, administradora e criadora do perfil As Investidoras. Foto: Caroline Ozzy/ Divulgação
Júlia Abi-Sâmara, administradora e criadora do perfil As Investidoras. Foto: Caroline Ozzy/ Divulgação

Por Marília Almeida

Formada em administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), durante a faculdade Júlia Abi-Sâmara percebeu que só se falava sobre dinheiro e aplicações financeiras em rodas de homens. Interessada pelo tema, buscou participar da liga de mercado financeiro da faculdade, comunidade de interesse sobre a área. Mas viu que o número de mulheres que faziam parte do grupo era baixo.

“Tentei entrar, pois estava curiosa. Porém, me deram a entender que eu não era capaz. Foi aí que virei a chave e comecei a questionar por que eu não sabia mais sobre o assunto e minhas amigas não falavam sobre o tema. Enquanto isso, alguns meninos, que não tinham muito conhecimento, se sentiam mais à vontade para falar sobre finanças”.

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Abi-Sâmara começou então a estudar sobre aplicações financeiras e verificou que a independência financeira está intimamente relacionada à autoestima e busca de um posicionamento perante a sociedade e a família. “Quando se trata de investimentos para mulheres, o argumento não é enriquecer rapidamente, mas sim buscar liberdade, inclusive para conseguir sair de relacionamentos”.

O perfil do Instagram “As investidoras“, que já reúne quase 80 mil seguidores, nasceu de um projeto da influenciadora cujo objetivo era ensinar sobre o tema para amigas. “Criei uma aula para elas e, aos poucos, em 2019, formei outros grupos. Começou como um projeto social gratuito e se transformou no meu trabalho”.

Abi-Sâmara foi selecionada pelo projeto Dn´A Women, que capacita mulheres para atuarem no mercado financeiro. Com a pandemia, criou o perfil no Instagram para continuar a oferecer aulas no formato online. Ao Bora Investir, fala sobre o que descobriu a partir de seu trabalho para o público feminino e dá dicas para mulheres que queiram dar o primeiro passo no mundo das finanças. Acompanhe:

Bora Investir – Você fala para mulheres em um momento de maior empoderamento feminino, no qual elas vêm querendo ser tratadas como os homens. Por que opta por focar apenas nelas? Faz diferença estar em ambiente na qual se sinta à vontade para perguntar e focar em questões financeiras próprias femininas?

Júlia Abi-Sâmara – Temos vivências muito diferentes das dos homens quando se trata de dinheiro. Muitas alunas me falam que o pai ensinou o irmão a investir mas ela não. Como cresceram sem ver mulheres investindo, associam e acham que não são capazes.

A diferença entre homens e mulheres é grande não quando se trata de conhecimento técnico e teoria, mas, sim, emocional. Por isso, busco criar um ambiente acolhedor no qual elas possam compartilhar experiências e aprender. Faltam estímulos e representatividade quando falamos sobre dinheiro. É uma questão cultural, que não muda do dia para a noite.

Bora Investir – Convivendo com suas alunas, quais problemas financeiros femininos são mais presentes em relatos?

Júlia Abi-Sâmara – O tema relacionamentos é muito presente. Hoje eu recebi pelo Instagram uma mensagem de uma aluna que falou que conseguiu sair de um relacionamento abusivo após ter se organizado financeiramente.

Mas não são só relacionamentos amorosos: existem também casos de assédio no trabalho, mulheres que sofrem abusos mas não podem apenas sair do emprego porque não têm condições de se manter. Então, elas decidem montar uma reserva de emergência para conseguir sair dessas situações.

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Existem casos até mesmo de relacionamentos familiares pouco saudáveis, nos quais elas precisam resolver sua situação financeira para conseguir sair daquele ambiente. Sem contar a existência de violência patrimonial. quando o dinheiro delas é totalmente controlado pelo homem.

Bora Investir – Para que comece a investir, a mulher precisa lidar com uma questão de confiança, reflexo de uma cultura que a retirou do mundo do dinheiro por muito tempo?

Júlia Abi-Sâmara – A parte mais fácil é a teoria. O problema é o emocional, no qual é mais difícil quebrar barreiras. Muitas mulheres não colocam sua bagagem em prática por insegurança.

Geralmente quem ensina sobre o tema se coloca em um patamar acima de seus alunos. Mas eu não me coloco assim: busco mostrar minha vulnerabilidade também. Conto que passei por conversas desconfortáveis e tive dificuldade em me identificar com o conteúdo aleatório que encontrei na internet.

Acredito que quanto mais eu compartilho o que passei, mais elas param de achar que o problema é só delas. Isso ajuda muito. Como não represento muitas mulheres, busco dar espaço para que outras mulheres falem também e troquem informações dentro do grupo.

Recomendo a todas as mulheres criarem um grupo com amigas no Whatsapp para falar sobre dinheiro. O tema também deve ser mencionado na terapia. Há alunas que buscam conhecimento e levam depois para a mãe e tias e começam a naturalizar falar sobre o assunto no dia a dia. É esse ambiente onde se naturaliza o assunto que irá criar confiança.

Bora Investir –  Você é uma mulher jovem. Suas alunas também são? O que mulheres jovens já evoluíram na questão financeira em relação a investimentos e dinheiro?

Júlia Abi-Sâmara  Meu público é majoritariamente composto por mulheres jovens na faixa dos 20 a 30 anos. Mas recebo também mulheres de 65 anos que querem começar a investir. Há uma diversidade de perfis.

A maior parte das alunas chega sem conhecimento. Algumas iniciaram a busca pelo tema agora, enquanto outras já pesquisaram sobre o assunto mas não se identificaram.

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Muitas vêm por indicação e ainda se sentem inseguras. Contudo, decidiram tentar aprender por conta do ambiente acolhedor.

Havia antes a ideia de que investimento era assunto apenas para quem trabalhava no mercado financeiro, Havia um interesse, mas as mulheres achavam que não era para todo mundo. Hoje elas têm consciência de que é para todas: só se sentem insegurança para começar.

Bora Investir – A investidora realmente tem um perfil conservador? Ou é apenas mais cautelosa e gosta de saber o que está fazendo antes de se jogar de cabeça?

Se verificarmos as estatísticas, a mulher, de fato, está mais conservadora. Mas não podemos tratar esse perfil como uma característica da mulher, um gene. Se nós somos menos incentivadas a falar sobre dinheiro, se entrarmos no mercado será como investidora conservadora. Aliás, é indicado que quem começa a dar os primeiros passos faça isso.

E as mulheres seguem essa regra, mas não porque não querem correr risco, e sim por que entraram no assunto mais tarde do que os homens. Conforme aprendem, vão começando a arriscar mais.

Mas pesquisas mostram que as mulheres são menos impulsivas, e isso faz com que invistam melhor. Como resultado, no longo prazo elas conseguem obter retornos maiores do que o dos homens. Elas não giram a carteira tão rápido, e têm mais pensamento de longo prazo do que eles.

Bora Investir – Estamos em um cenário repleto de incertezas, no qual é muito necessário que se fale sobre educação financeira. O que as alunas vêm buscando agora?

Houve uma mudança grande de 2019 para cá. Antes eu precisava convencê-las a fazer o meu curso. Agora, elas chegam espontaneamente.

A pandemia foi um fator decisivo: muitas passaram por um desconforto financeiro, perderam o emprego e se viram sem reserva de emergência. Também aumentou o número de pessoas falando sobre o assunto, o que desperta um interesse maior por ele.

Bora Investir – Vemos cada vez mais uma inversão de expectativas de gênero. Com mulheres ganhando mais dinheiro, elas sentem pressão e insegurança e parecem não saber lidar com isso, como os homens sabem há muito mais tempo. O que diria para mulheres nesta situação?

Até hoje existe a imagem de que o homem deve ser o provedor da casa. Mas, na prática, o que acontece não é isso. Quase metade dos chefes de famílias são mulheres. Quando não são, elas cuidam das finanças da família, ainda que o dinheiro seja do homem.

Algumas relatam que começaram a ganhar um salário maior e isso gerou uma discussão com seus parceiros. Uma aluna falou que o marido não queria que ela fizesse o curso: ela já tinha um salário maior do que o dele e aparentemente ele não queria que ela soubesse mais sobre o tema do que ele também.

O dinheiro mexe com o ego, está relacionado ao poder. Quando a mulher se insere mais na sociedade, e diminui diferenças, provoca conflitos e não são todos os homens que sabem lidar bem com isso.

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Caso esse conflito não esteja sendo bem resolvido no relacionamento, a mulher não deve se diminuir por conta disso, de forma a se encaixar. Essa definitivamente não é a solução.

Minha recomendação é naturalizar a conversa. Muitos casais não sabem nem quanto o outro ganha, e o assunto só é colocado na mesa quando surge uma discussão. Precisamos acabar com esse tabu. É importante que o casal converse sobre o assunto e fale sobre divisão dos gastos.

Bora Investir – Muito se fala em investir e organizar contas, mas me parece que as mulheres precisam antes de tudo saber como aumentar sua renda, pedir aumentos. Você aborda isso no perfil?

A maior parte das mulheres não são incentivadas a correrem riscos. Há uma diferença na educação de meninos e meninas: não são características nossas, mas como aprendemos. Os homens discutem muito mais salários, pedem muito mais aumentos, conversam mais entre si sobre o quanto ganham.

Quando vamos pedir aumentos, entra em cena a síndrome da impostora e questões como: será que mereço? Pesquisas apontam que homens se candidatam a uma vaga se preenchem 60% dos requisitos. Já mulheres se preenchem ao menos 90%. Há, portanto, uma insegurança maior para se colocarem e pedir o que merecem.

Digo a todos que precisam cobrar direito, pesquisar se recebem bem. Se nunca se posicionou no trabalho, precisa começar com passos menores na vida pessoal para conseguir fazer também no ambiente corporativo. Precisa aprender a se impor.

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