Organizar as contas

Autônomos não precisam ser investidores mais conservadores, diz Eduardo Amuri

Ao Bora Investir, autor de "Finanças para autônomos" dá dicas de planejamento para profissionais que trabalham por conta própria

O consultor financeiro Eduardo Amuri; Foto: Divulgação
O consultor financeiro Eduardo Amuri; Foto: Divulgação

Por Marília Almeida

A imprevisibilidade de renda dos profissionais autônomos pode fazer com que necessitem ser investidores mais conservadores? Para Eduardo Amuri, consultor financeiro e autor do livro “Finanças para autônomos”, não necessariamente. Tudo depende de uma maior organização do orçamento e que esses profissionais solucionem um erro muito comum: separem as finanças pessoais das finanças profissionais.

“Caso essa organização seja feita, não faz sentido falar em carteiras de investimentos mais conservadoras para autônomos. São as finanças do profissional que precisam contar com mais folga. Eles precisam ter um caixa mais gordinho para lidar com as oscilações que a sua atividade profissional pode enfrentar”.

Eduardo Amuri é consultor financeiro e autor de dois livros: “Finanças para autônomos” e “Dinheiro sem medo”, ambos publicados pela Editora Benvirá. Ao Bora Investir, o influencer, que reúne 90 mil seguidores no Instagram, defende uma reserva de emergência possível e alerta sobre cobrar bem pelo produto ou serviço prestado; “A maioria dos autônomos cobra muito mal por produtos ou serviços prestados“. Acompanhe abaixo a entrevista:

Bora Investir – Como as dicas que você dá para autônomos variam entre profissionais que escolheram atuar no mercado dessa forma e os que foram ‘obrigados’ a optar por esse caminho, pois não conseguiram se recolocar? É possível não se enrolar financeiramente nos dois casos?

Quando planejamos, nos tornamos autônomos de caso pensado, podemos nos preparar mais, construir um fluxo de caixa e começar uma reserva antes de começar. Começar de maneira mais lenta nos permite criar uma comunidade de forma diferenciada.

Conheço um psicólogo que trabalhava em uma empresa de recursos humanos e foi demitido. Ele não conseguiu se recolocar e optou por criar uma clínica. Como começou de supetão, não construiu sua clientela e começou de forma desconfortável do que o que iniciou de forma orgânica e vagarosa. O contexto de início, portanto, importa quando pensamos nos caminhos para o profissional.

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Independentemente da origem e contexto, é possível não se enrolar. Mas não é fácil. É importante frisar que vivemos em uma época que as pessoas pensam que o empreendedorismo é a solução para todos os problemas do Brasil, e não é bem assim que as coisas funcionam.

De fato existem contextos muito mais desafiadores, que vão exigir muito mais paciência e habilidades do que contextos nos quais as coisas já estão um pouco mais mastigadas. Quando falo contexto eu incluo o cenário macroeconômico do país e o do indivíduo. Existem pessoas que têm mais habilidades, contatos e são mais despachadas. Outras precisam cultivar essas habilidades pelo caminho.

Percebo que uma grande deficiência dos profissionais autônomos é a própria comunicação. Se você não consegue se comunicar com habilidade você terá muita dificuldade de vender. E, sem vender, fica difícil fazer com que uma atividade autônoma pare de pé.

Bora Investir – Você concorda que a reserva de emergência para quem está se preparando para se tornar um autônomo precisa ser de, no mínimo, um ano?

Não concordo. Acho um discurso perigoso da economia clássica que não leva em conta o contexto social do Brasil. Para muitas pessoas deixar um ano de renda na reserva de emergência é algo impensável.

Considera uma pessoa que tem um salário de R$ 3,5 mil e gaste R$ 3 mil. Ela tem, com sorte, um potencial de poupança de R$ 500. Se eu disser pra essa pessoa que ela precisa poupar R$ 36 mil em uma reserva, ela não vai fazer nada: apenas desistir. De R$ 500 em R$ 500 vai demorar um bocado para ela conseguir construir essa reserva.

Sou a favor de um discurso mais inclusivo: montamos uma reserva de emergência que seja possível. Vou juntar um mês de despesa na reserva de emergência. Chegou nesse mês? Aí sim vou para o próximo e penso em um caminho para incrementar mais, gradualmente. E nesse meio do caminho vou dando andamento a outros sonhos, que são muito mais legais de serem perseguidos do que a reserva de emergência.

O perigo do discurso de um ano é a chutada de balde. Muitas pessoas escutam isso e falam: meu deus do céu, isso não é para mim. É um pecado: estamos afastando as pessoas de um conhecimento importante para a vida delas

Bora Investir – Existem pessoas que oferecem serviços muito difíceis de precificar, como uma sessão de psicanálise. O que você aconselha neste caminho de cobrar o valor justo pelo trabalho? Vi que você não acredita que cobrar por hora seja uma boa ideia

O autônomo precisará de um pouco de experimentação e pesquisa para chegar a um valor coerente e precificar serviços difíceis de serem mensurados.

Não sou contra a precificação por hora: sou contra utilizar a hora como único critério de precificação. Tendemos a chegar a cenários ruins se vamos por esse caminho. Para além da precificação por hora, podemos considerar, por exemplo, o valor gerado.

Por exemplo: você deseja contratar uma designer para fazer o seu site. E ela entrega um site maravilhoso, você vê valor no trabalho dela. Mas ela fez o trabalho em 40 minutos. Ele vale menos porque ela fez em menos tempo? Temos de pensar no valor gerado por nosso trabalho, e como empacotamos nosso conhecimento, produto ou serviço.

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Em geral, a maior parte dos autônomos, sem medo de errar, cobra muito mal, menos do que precisariam e do que o trabalho vale. Sei que é contexto desafiador, não estou defendendo que todo mundo tem de cobrar muito sempre, uma política mercenária de precificação. Mas, no geral, o autônomo cobra muito barato por medo de não conseguir vender caso o preço do colega do lado seja menor.

Cobrar menos para pensar que os clientes serão atraídos pelo preço baratinho costuma ser uma abordagem muito ingênua, que não se sustenta no longo prazo.

Vale buscar fontes de informações diferentes para chegar a um bom preço. Um psicólogo, por exemplo, pode buscar com seus colegas que estão bem financeiramente quanto eles cobram. Essas informações podem ser um insumo muito valioso no processo de planejamento financeiro.

Bora Investir – Quais são os mandamentos para uma boa organização financeira no mundo da renda variável? Nas redes você já apontou três: falta de previsões, de conhecimento do mercado e um planejamento financeiro complexo

Ganhar alguma previsibilidade costuma ser algo interessante. Alguma clareza sobre os próprios números também costuma ser um ponto de partida excelente.

Muitas pessoas começam a analisar de forma muito breve os próprios números, percebem algum tipo de oscilação e as utilizam como espécie de justificativa para não olhar mais para isso. Já que varia muito de um mês para outro, melhor nem olhar porque ninguém sabe o dia de amanhã. É uma narrativa confortável, mas muito perigosa.

Mesmo que a gente lide com oscilações, ganhar clareza sobre essas oscilações e o passar dos meses e fazer projeções para o futuro costuma ser uma ótima prática.

Bora Investir – Você oferece um programa para autônomos desde 2018 e acompanhou de perto as agruras da pandemia. Como esses profissionais podem criar resiliência financeira para enfrentar choques como esses? Como o autônomo pode estabelecer um padrão de vida, considerando cenários econômicos mais e menos adversos?

A resiliência financeira passa por ter um planejamento financeiro mais maduro, que está em nossa mão e entendemos como funciona.

Também passa por uma precificação que contemple oscilações de faturamento. Preciso precificar de tal modo em janeiro que se por um acaso em fevereiro, março e abril eu tiver uma oscilação de faturamento para baixo, por algum motivo a demanda baixar, mesmo assim conseguirei parar de pé.

Ter a clareza de precificação sobre o processo de planejamento financeiro e, mais importante do que isso, construir caixa, compõe de certa forma um cenário mais resiliente.

A realidade da maior parte dos autônomos é dura. Mas, mesmo assim, acho que é algo a ser buscado.

Bora Investir – Falamos em uma matéria recentemente que existe um problema: os profissionais autônomos lideram a lista de desprotegidos do INSS: eles não contribuem, já que as contribuições dependem dele. Qual o alerta que você faz?

Em geral quando automatizamos as ações benéficas para a nossa vida financeira temos uma grande vantagem. Costuma ser uma ótima prática automatizar ações que desejamos que aconteça com constância. Não podemos ficar nos lembrando de poupa: faz mais sentido automatizar.

A falta de contribuição para o INSS pode ser gerada por falta de organização ou de recursos. Caso eu não tenha sobra de caixa, é difícil mesmo contribuir para a previdência pública.

Mas precisamos pensar no longo prazo, pois, com sorte, chegaremos lá. Portanto, vamos precisar fazer planos que privilegiem o futuro. A solução passa pelo INSS.

Converse com o seu contador sobre isso, que fale de forma que você entenda. Caso contrário, ficamos refém de pequenas dicas e comentários aqui e ali, e não sabemos em quem confiar.

Bora Investir – O que deve nortear os investimentos de quem tem uma renda variável? Ele deve necessariamente mais conservador?

Vale pensar em organização antes de investimentos. Autônomos que já possuem operação mais madura separam bastante o que é lado pessoal e o que é lado profissional. É um ponto importante essa separação.

Diante disso, não faz sentido falar em carteiras mais conservadoras para autônomos. O que faz sentido é que as finanças do profissional precisam contar com mais folga e fluxo de caixa. Ele precisa ter caixa mais gordinho para lidar com oscilações que atividade profissional pode enfrentar.

Se separar direitinho as finanças pessoais e profissionais o trabalhador pode se dar ao luxo de não entrar no conservadorismo.

Bora Investir – A Nath Finanças, assim como você, parece seguir uma linha mais realista sobre as necessidades e comportamento financeiro do brasileiro. Você dá cursos em todas as regiões do país. O que busca entregar com seu conteúdo?

Falta aos influenciadores, às pessoas que estão disseminando conteúdo na internet, consciência de classe. Entender o contexto socioeconômico do Brasil.

Mas não só isso. A solução para os problemas enfrentados pelos brasileiros não passa só pela educação financeira. É um problema complexo que passa pela criação de políticas públicas, ciências comportamentais e arquitetura de escolha: todo um ecossistema precisa ser alterado para que possamos gerar, de fato, impacto na vida financeira dos brasileiros em grande escala.

Claro que um vídeo ou um canal no YouTube podem ajudar. Mas para mudar um país com proporções continentais como o nosso, que tem problemas graves como o nosso, a solução não se restringe a uma narrativa.

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A solução não passa apenas pelos influenciadores: passa também pelas plataformas, que hoje exercem um poder muito grande. Produzem um conteúdo que parece atrativo, mas é pastel de vento: não apoia ninguém. Enquanto lidarmos com sites que privilegiam conteúdo que sabemos não ser tão benéfico assim e que é apenas caça-cliques, teremos problemas.

Eu busco oferecer com o meu trabalho um olhar humano e pé no chão acerca da inteligência financeira e do dinheiro. Enxergo a minha produção como ganchos para boas conversas. Provoco reflexão e naturalizo o assunto, o que na área financeira é muito importante.

Bora Investir – Como tratar de dinheiro sem medo? Como sintetiza os ensinamentos de seu livro?

Falamos muito pouco sobre o dinheiro de maneira franca, aberta e sincera. E quando não falamos sobre um assunto a gente não aprende sobre ele. Esse é um grande problema.

O dinheiro é tabu: quando falamos partimos de um lugar meio cheio de maquiagem, de fachada: não falamos sobre o que estamos sentindo e não aprendemos organicamente sobre o assunto.

Sentimos que o assunto não é para a gente, o que é um grande problema. Acreditamos que dinheiro é um assunto de um youtuber que se intitula um guru no assunto, pessoa que fez MBA ou economista que aparece no jornal. Mas o dinheiro deveria fazer parte do nosso dia a dia. Quando falamos de dinheiro falamos de projetos, medos, sonhos e angústias.

Gosto de imaginar que o que produzo vai favorecer com o que o dinheiro saia desse lugar e, por consequência, promover aprendizado.

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