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Educação financeira nas escolas não distingue classe social nem ideologia, diz diretor do Sebrae Minas

Na visão da CVM e Sebrae, tema na sala de aula pode ajudar a reduzir o endividamento da população, incentivar o empreendedorismo e deve fazer parte tanto de escolas públicas como privadas

Sala de aula. Foto: Taylor Flowe/ Unsplash
Sala de aula. Foto: Taylor Flowe/ Unsplash

Por Marília Almeida

O Brasil é o quarto pior país entre 20 que fazem parte da OCDE quando se trata de conhecimento e entendimento dos conceitos de finanças pelos jovens. É o que aponta o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês).

A falta de educação financeira, além de afetar o endividamento da população (hoje, 78,3% dos brasileiros estão endividados), também tem impacto sobre o empreendedorismo no país, diz o diretor técnico do Sebrae Minas, Douglas Cabido.

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“Para se criar uma empresa é necessário lidar bem com o dinheiro que se ganha, não abusar de linhas de crédito e saber, principalmente, separar finanças pessoais do dinheiro do negócio. Este é um dos principais motivos que causam a morte de empresas no país”, explica.

Contudo, ainda que se saiba os benefícios que cultivar hábitos financeiros saudáveis, inserir a disciplina nas escolas enfrenta resistências.

“Existem casos de municípios que colocaram na pauta o projeto de ensinar educação financeira nas escolas municipais e vereadores votaram contra porque seria uma mercantilização, um incentivo ao capitalismo. Mas o tema vai além de ideologias”.

Matéria deve fazer parte da rede pública e privada

Quem tem renda baixa não necessariamente será endividado, diz Cabido. “Quanto mais uma pessoa ganha, mais ela vai se endividar caso não tenha controle financeiro. O problema não é o quanto ela ganha, mas como ela gasta o dinheiro que recebe”. É por isso que, na sua visão, a disciplina de educação financeira precisa fazer parte tanto de escolas públicas como privadas.

Seguindo esse mesmo raciocínio, ele aponta que o problema não é apenas o custo do crédito, mas, sim, o abuso da ferramenta. “A falta de controle financeiro será a mesma tomando um crédito com taxa de 2% e outro de 10%”.

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Cabido cita como exemplo o Pronampe, uma linha de crédito emergencial de baixo custo criada na pandemia. “Atualmente muitas empresas estão com dificuldades para pagar esse crédito que é considerado barato. Empréstimos podem ser um veneno para muitos empreendedores que não têm educação financeira. Em alguns casos, é melhor ficar longe. Senão, além de quebrar a empresa, vai ter de pagar um montante relevante de dívidas”.

Ainda que a falta de educação financeira não seja exclusiva das classes com renda mais baixa, pessoas de menor renda são mais suscetíveis a golpes, como pirâmides financeiras, ressalta o técnico. “As classes de maior renda, acostumadas com o tema e valor da Selic, conseguem saber que um investimento não pode dar um rendimento de 4% ao mês. Mas para quem não tem esse discernimento, fica mais difícil ter essa noção”.

É também as camadas mais vulneráveis da população que sofrem com a violência persistente contra a mulher, que geralmente dependem financeiramente do abusador, diz Cabido. “Nestes casos, o empreendedorismo pode ser a saída para elas. Portanto, a educação financeira é fundamental para que possam quebrar esse ciclo”.

Projeto ambicioso

Para promover a educação financeira, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Sebrae, em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e o apoio da B3 e do Instituto XP, lançam os cursos Educação Financeira nas Escolas. O lançamento ocorreu neste mês após a conclusão de um projeto-piloto iniciado há dois anos que formou 10 mil professores, especialmente na região Sudeste do país.

Agora, com o lançamento efetivo do programa, a meta é mais ambiciosa: formar 500 mil profissionais de educação em todo o país até 2025. É um número equivalente a um terço do total de professores da rede pública de ensino brasileira.

Os cursos têm como objetivo aplicar a educação financeira em salas de aula e são destinados à formação de professores do 1º ao 9º ano do ensino fundamental, das redes pública e privada de todo o país. Eles são totalmente gratuitos e realizados à distância (EaD).

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Estruturados em trilhas de aprendizagem conectadas à BNCC, os cursos conectam a Educação Financeira com outras matérias, como Atitudes Empreendedoras, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) e Projeto de Vida.

A ideia não é ter educação financeira em uma disciplina à parte, mas inserir suas ideias em diversas matérias, e não apenas as mais óbvias, como matemática, diz Cabido. “Em português o assunto pode surgir em textos nos quais são cobradas interpretações, e em história é possível também tratar do tema ao falar sobre a inflação no país. Por exemplo, refletir sobre qual era o planejamento das famílias em tempos de inflação altíssima”.

Nathalie Vidual, Superintendente de Proteção e Orientação a Investidores da CVM, aponta que os temas são adaptados ao contexto social e cultural do país. “Trabalhamos conceitos como o de consumo consciente e economia circular. A criança incorpora conceitos ao seu dia a dia, enquanto no ensino médio damos ao tema um viés para o empreendedorismo. Em todas as etapas, ele é trabalhado de forma contemporânea”.

Quanto mais cedo, maior o impacto

A importância de começar cedo a tratar do tema, na primeiro fase do ensino fundamental, é que é mais fácil criar hábitos financeiros saudáveis em jovens do que em adultos já endividados, diz Cabido, do Sebrae-MG. “Além disso, crianças e jovens podem ser agentes de impacto para irmãos e pais que não sabem como lidar com o tema. São multiplicadores”.

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A necessidade de ensinar sobre dinheiro é maior em um mundo no qual se tem cada vez menos contato com o dinheiro físico, conclui Cabido. “Um adolescente na década de 90 tinha contato com o dinheiro. Agora as crianças não andam com cédulas e não têm tanta liberdade de comprar com dinheiro em comerciantes. Sem ver o dinheiro, não têm noção de escassez”.

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