Organizar as contas

Do papel ao computador: indígena conta como lida com finanças em aldeia

Desde 2015, Kambrinti Khisêtjê, de 33 anos, passou a mexer com as planilhas orçamentárias da associação da comunidade dele, de forma voluntária

Kambrinti Khisêtjê Crédito: Arquivo Pessoal
Kambrinti Khisêtjê Crédito: Arquivo Pessoal

Rogério Júnior, especial para o Bora Investir

Desafiado a mexer com números e dinheiro em real em um idioma que ele até então desconhecia – que é o português –, Kambrinti Khisêtjê, de 33 anos, ainda se diz aprendiz no mundo das finanças, apesar de cuidar das planilhas orçamentárias da associação da comunidade na Terra Indígena Wawi, em Querência, no interior de Mato Grosso.

Ele não está sozinho. Outros dois parentes – assim são chamados todos os indígenas da aldeia, mesmo que não tenham laços sanguíneos – também se envolvem com as finanças da comunidade, que trabalha com a produção de óleo de pequi, agricultura e artesanato.

Kambrinti contou ao Bora Investir que tudo o que precisa para cuidar das finanças é de um papel e um computador. Foi assim que ele começou e dá dicas do que tem feito para manter as contas da associação no azul. 

“Eu comecei a mexer nas planilhas. Fui acompanhar a venda de artesanato e produtos da roça. É difícil no primeiro momento. Contar e receber os recursos que chegavam e que saiam. Nossa cultura é diferente, então eu precisei observar antes”, contou.

Para chegar onde está hoje, Kambrinti disse que se informou por meio de vídeos sobre finanças e investimentos no YouTube. Mas não ficou restrito a isso. “Depois eu converso com alguns parceiros para saber se aquilo é verdade mesmo”, disse.

Organização e controle de gastos

No dia a dia das vendas dos artesanatos indígenas, ele explicou que começou a aplicar nas próprias contas o que aprendeu na aldeia em relação ao mundo financeiro, a partir de 2015.

“Comecei a me organizar e a trabalhar, porque dinheiro é difícil de lidar. Quando você gasta e não anota, não consegue contar direito a entrada e saída do que gastou. Assim quando você quiser fazer alguma coisa para sua família ou para você mesmo, não consegue”, explicou.

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Parte das dificuldades que encontrou pelo caminho foi a adaptação ao computador, sobretudo às planilhas. Mas logo ele pegou o jeito. “A maior dificuldade que encontrei foi com fórmula, em colocar números na planilha. Estou patinando e tentando aprender mais”, disse.

Kambrinti não se desestimula e sonha alto. Ele busca estudar cada vez mais para algum dia passar a investir na bolsa de valores e ampliar seu retorno financeiro. “Quero investir nos meus estudos e concluir, porque quero me aprofundar mais. Hoje em dia tem muita tecnologia e todo dia muda”, disse.

Terra Indígena Wawi

Além do povo Khisêtjê, a Terra Indígena também abriga o povo Tapayuna, o que alcança 457 indígenas na comunidade, de acordo com dados do Instituto Socioambiental. O território fica localizado no Parque Indígena do Xingu, uma área de reserva ambiental com 2,6 milhões de hectares e internacionalmente conhecida como a maior Terra Indígena.

Em 2019, a associação em que Kambrinti trabalha ganhou um prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU), que parabenizou a solução sustentável para a produção de óleo de pequi – Hwi Mbê – que os indígenas da comunidade desenvolveram. Desde então, a produção vem crescendo a cada ano. Com a venda dos produtos, o lucro é remetido à associação, onde Kambrinti administra a entrada e saída dos recursos para o bem-estar da comunidade.

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