Ciclo de cortes na Selic continua. Como ficam os FIIs?
Mercado tende a antecipar decisões, mas cenário segue positivo para estes segmentos entre os FIIs
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Após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de seguir com o ciclo de cortes na taxa de juros básica da economia brasileira (Selic), a expectativa é favorável para Fundos Imobiliários (FIIs), ainda que investidores antecipem suas decisões antes dos ajustes. Fundos de tijolo ganham destaque neste momento, mas também é possível encontrar oportunidades em fundos de recebíveis high grade, especialmente indexados ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que ainda estão descontados, na avaliação do Research do Clube FII.
Conforme ressaltado anteriormente pelo Clube FII, normalmente, o Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) é correlacionado com a curva de juros futura, ou seja, os investidores antecipam os ciclos de cortes e investem antes de eles acontecerem.
Os dados mostram essa antecipação. O crescimento no número de novos investidores em FIIs mais passou de uma média mensal de cerca de 13 mil entre março e novembro de 2025 para 57 mil no período de dezembro de 2025 a março de 2026, conforme informações do Boletim Mensal de FIIs divulgado pela B3.
Comitê segue com cortes na Selic – ainda que de forma cautelosa
O ambiente externo desafiador, com impactos relacionados ao conflito no Oriente Médio, vem alterando as expectativas do mercado em relação ao ritmo de cortes previsto para 2026. Em comunicado divulgado na quarta pela noite, o Copom ressaltou o cenário de incerteza e projeções de inflação acima da meta no horizonte relevante, no quarto trimestre de 2027. Ainda assim, decidiu pela redução da taxa Selic em 0,25 ponto percentual, mesma magnitude do corte anterior, passando de 14,75% para 14,5%.
Lana Santos, analista de Fundos Imobiliários do Clube FII, ressalta que o colegiado segue usando o termo “calibração” da política monetária, introduzido no comunicado da reunião anterior do Copom, e que pode ser lido como uma continuidade do ciclo de cortes, em ritmo ainda incerto.
“Isso porque os ajustes de juros não têm impacto imediato nas variáveis econômicas, refletindo-se ao longo do tempo. Na leitura do comitê, o ciclo prolongado de juros elevados ainda está surtindo efeito sobre a inflação, freando sua elevação, que segue positiva não devido à falta de ação do Banco Central, mas pelos inevitáveis impactos externos sobre a nossa economia, como o relevante conflito no Oriente Médio que impacta os preços de combustíveis, transportes e produtos no nosso país”, destaca a analista do Clube FII, ao ponderar que juros em patamares elevados também passaram a apresentar impactos indesejados sobre a atividade econômica, deprimindo o crescimento.
Dessa forma, a atuação do BCB visa manter juros em um nível que ajude a inflação a convergir para a meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%, sem reduzir demais a atividade econômica. “Precisamos considerar que nesse momento pós pandemia, com uma sequência de guerras relevantes no exterior, os modelos econômicos ainda estão sendo calibrados. É possível que as metas de inflação tenham de ser revistas futuramente, e que tenhamos de conviver, a nível global, com um patamar basal de inflação superior. Por isso, a decisão do Banco Central é acertada. O controle da inflação é seu objetivo oficial, mas no momento, desestrangular a atividade econômica é uma prioridade”, completa.
Como a decisão impacta os FIIs, janela de emissões e reposicionamento
A decisão de continuar com o ciclo de cortes afeta os FIIs de forma distinta, com impacto mais relevante no segmento de tijolo, segundo a analista do Clube FII. Quando os juros caem, a atividade econômica é estimulada, pois o custo de obter empréstimos e financiamentos é reduzido, estimulando investimentos empresariais e, por consequência, a demanda por imóveis e sua ocupação.
Nas lajes corporativas, esse cenário tende refletir nos preços cobrados por m², ou seja, nos aluguéis e no preço de venda dos imóveis. “E é disso que advém essencialmente a receita dos fundos imobiliários, e consequentemente, os rendimentos mensais dos cotistas. Vemos o mercado já reagindo a esse movimento de transição econômica, apesar da manutenção da curva de juros em patamar muito elevado, por volta dos 7%”, avalia Santos.
Neste contexto, o Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) segue renovando máximas, enquanto alguns fundos de tijolo reduzem os descontos oferecidos anteriormente. O cenário abre espaço para uma “janela de emissões”, na opinião da analista, quando os FIIs passam a ser negociados no seu preço patrimonial ou acima dele, criando condições para novas emissões de cotas a preços atrativos. “Esse novo ciclo de expansão do mercado está em linha com o recente crescimento expressivo de investidores em FIIs que observamos”.
Ainda que as atenções dos investidores estejam voltadas aos FIIs de tijolo neste momento, com a expectativa de novos cortes na Selic, a analista entende que não há urgência em reposicionamento da carteira, devido às características distintas de outros segmentos. Os FIIs de papel, por exemplo, seguem como importante ferramenta de diversificação e proteção patrimonial contra o avanço da inflação.
“Com o corte de juros, naturalmente fundos indexados ao CDI terão uma redução nos rendimentos, enquanto FIIs indexados ao IPCA, que segue pressionado, tendem a conservar por mais tempo o patamar atual de distribuição. Mas vale lembrar que mesmo com os cortes previstos, a Selic ainda deve se manter em 2 dígitos ao longo de 2026, até meados de 2027”, conclui.
*Matéria publicada originalmente em ClubeFII, parceiro de B3 Bora Investir