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Estela Borgheri: Eleição passa, plano fica. O que o dia seguinte ensina sobre cuidar do patrimônio 

Este texto não é sobre quem ganhou. É sobre o que esse vaivém ensina a quem cuida de um patrimônio


Estela Borgheri, colunista do Bora Investir

Estela Borgheri

Planejadora Financeira e co-fundadora da empresa Vínea Gestão de Capital, Estela é formada em Administração de Empresas e pós-graduada em Business Administration pelo Insper. Possui a certificação CFP® e é Consultora CVM


Na segunda-feira depois do primeiro turno, o Ibovespa subiu 7,7%, passou dos 200 mil pontos pela primeira vez e o dólar caiu a R$ 5. Três semanas depois, na segunda seguinte ao segundo turno, o movimento foi o inverso: o índice recuou 13,9%, a 176.608 pontos, a maior queda diária desde março de 2020, com circuit breaker acionado. O dólar subiu cerca de 8%, a R$ 5,40, e o DI para janeiro de 2031 fechou a 15,24%, alta de 266 pontos-base em um pregão. Em relação a 2 de outubro, última sessão antes do primeiro turno, o Ibovespa terminou cerca de 8% abaixo. 

Este texto não é sobre quem ganhou. É sobre o que esse vaivém ensina a quem cuida de um patrimônio. A primeira lição é que o mercado negocia expectativas, não fatos. Não foi o país que mudou de domingo para segunda; foi o preço de uma expectativa. Quatro dias antes do segundo turno, o Ibovespa acumulava 11,8% de alta em outubro e as small caps, 20,7%. Papéis como Magazine Luiza e Vamos chegaram a subir cerca de 200% desde agosto e, na segunda, caíram 58,2% e 56,8%. Os bancos recuaram entre 13,7% e 29,3%, o IFIX perdeu 5,68% e só 8 dos 76 papéis do índice fecharam em alta. 

O histórico ajuda a entender por que prever a reação é tão difícil. Entre 2002 e 2022, o Ibovespa caiu no primeiro pregão depois do segundo turno em quatro das seis eleições. Depois do primeiro turno, as altas de 2018 e 2022 foram de 4,6% e 5,5%; a de agora, de 7,7%, foi a maior desde março de 2020. Em 2022, a PEC da Transição levou três meses para empurrar os juros longos em 128 pontos-base. Desta vez, a taxa prefixada de dez anos subiu 247 em uma única sessão, contra 34 do maior movimento nas três eleições anteriores. 

E eleições são só uma parte da história. A Nova República viveu o Plano Cruzado (1986), o bloqueio de depósitos acima de 50 mil cruzados novos (1990), o Plano Real (1994) e o tripé macroeconômico (1999). Depois vieram quedas do PIB de 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016 e uma pandemia que levou a dívida bruta a 86,9% do PIB em 2020. Nenhum desses choques estava no cenário-base de quem planejava no ano anterior, e o próximo também não vai avisar. 

Uma análise retrospectiva mostra que, de junho de 2002 a setembro de 2026, em valores reais, o que ajudou a atravessar tudo isso: R$ 100 em uma carteira diversificada viraram R$ 520; alocada só no CDI, R$ 353; só na bolsa, R$ 350; só no dólar, R$ 75. O dólar foi o campeão em 2002 e no primeiro governo Dilma, mas caiu 48% no primeiro governo Lula; a bolsa liderou os três mandatos de Lula e caiu 43% com Dilma.

Em 2008, enquanto a bolsa perdeu 51%, a carteira diversificada perdeu 16%. A bolsa ainda não havia recuperado o topo real de maio de 2008, 220 meses depois, enquanto a diversificada nunca passou de 29 meses abaixo do seu melhor momento. Sem o rebalanceamento semestral, o ganho real teria sido 93 pontos percentuais menor. É um exercício retrospectivo: serve de ilustração para contextualizar o quanto é importante pensar em uma construção de carteira e não acreditar que podemos prever o mercado. 

Agora, o que move os preços é o fiscal, e a urna não resolve essa conta. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, o Tesouro projeta 83,5% em 2026 e a IFI estima que seriam necessários superávits primários de cerca de 2,1% do PIB ao ano para estabilizá-la. Os sinais que importam vêm depois do resultado: equipe econômica, metas e relação com o Congresso. Até lá, é natural que os preços oscilem. 

Na prática, cuidar do patrimônio nesses momentos é menos sobre acertar o cenário e mais sobre ter processo: uma política de alocação escrita, com faixas por objetivo e prazo, definida em momento de calma; rebalanceamento por regra e em datas fixas, e não no dia da notícia; liquidez compatível com os compromissos, já que, com a Selic em 13,75%, a parcela pós-fixada remunera a espera e evita vender no pior momento; e mudanças em etapas, diversificando as fontes de risco entre país, moeda, indexador e prazo. 

Uma pergunta para levar: quanto do seu plano depende de alguém acertar o próximo cenário? Se a resposta for “muito”, o momento de revisar é agora, e não no pregão seguinte à próxima notícia.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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