ETFs
Investo: 50 anos do fundo de índice; como uma ideia simples mudou o jeito de investir
A proposta soou tão estranha na época que ganhou o apelido de "a loucura de Bogle"
Investo
Por Danilo Moreno, especialista em ETFs da Investo
Em agosto de 1976, um gestor pouco conhecido chamado John Bogle colocou de pé um fundo diferente de tudo o que existia para o pequeno investidor. Em vez de tentar escolher as melhores ações e cobrar caro por isso, o fundo se propunha a comprar todas as ações de um índice, o S&P 500, e apenas acompanhar o mercado. A proposta soou tão estranha na época que ganhou o apelido de “a loucura de Bogle”. A estreia reforçou o ceticismo: ele esperava captar US$ 150 milhões e conseguiu US$ 11,3 milhões, pouco até para comprar todas as ações do índice. Meio século depois, aquele fundo pioneiro administra cerca de US$ 1,67 trilhão, e a ideia que parecia esquisita virou uma das formas mais comuns de investir no mundo.
O fundo lançado por Bogle seguia a estrutura tradicional, em que o investir aplica e resgata diretamente com a gestora. Décadas mais tarde, um novo veículo surgiu, permitindo criar estratégias indexadas com vantagens tributárias relevantes, os ETFs. Um ETF é um fundo negociado na bolsa como se fosse uma ação. Em geral, ele acompanha um índice, ou seja, uma cesta de ativos definida por regras claras, e entrega ao investidor o desempenho dessa cesta, menos os custos. Comprando uma única cota, a pessoa passa a ter exposição a dezenas ou milhares de empresas ao mesmo tempo, sem precisar escolher uma a uma.
O que fez a proposta vingar foi uma constatação direta. Tentar superar o mercado custa caro, entre taxas de administração e custos de negociação, e a maioria dos gestores não entrega resultado suficiente para compensar essa conta ao longo do tempo. Levantamentos que comparam fundos ativos com seus índices de referência, como o estudo SPIVA, mostram há anos que a maior parte deles fica atrás do índice em períodos longos. E quem consegue superar o benchmark no curto prazo, tem dificuldade em manter a consistência. O fundo de índice contorna o problema por outro caminho: se é difícil ganhar do mercado depois dos custos, acompanhar o mercado a um custo baixo tende a deixar o investidor em situação melhor na média.
De um único fundo de S&P 500, a indexação se espalhou. Hoje existem milhares de fundos de índice e ETFs no mundo, que cobrem ações de vários países, renda fixa, ouro e até criptomoedas. O tamanho dá a dimensão da mudança: nos Estados Unidos, os fundos indexados e ETFs passaram a reunir mais patrimônio do que os fundos ativos a partir de 2025, e o total global em ETFs chegou perto de US$ 20 trilhões no fim daquele ano. Para quem investe, a atração é clara. Com uma única compra na bolsa, o investidor passa a ter uma cesta diversificada de ativos, com custo baixo e a possibilidade de acompanhar de perto quanto está pagando.
Junto com a expansão veio uma queda expressiva nos custos. A concorrência entre as gestoras derrubou as taxas dos fundos de índice mais populares para perto de zero, e essa pressão também obrigou os fundos ativos a repensar o que cobravam. Para o investidor, isso pesa mais do que parece: uma diferença de meio ponto percentual ao ano na taxa, mantida por vinte ou trinta anos, faz uma diferença grande no valor final da carteira, por causa dos juros compostos.
No Brasil, essa história ainda está no começo, mas anda rápido. Os ETFs chegaram à bolsa brasileira em 2004 e, por muitos anos, atraíram pouca gente. O cenário mudou nos últimos tempos. A B3 fechou julho de 2026 com 213 ETFs disponíveis e o patrimônio da categoria chegou a R$ 130 bilhões, mais que o dobro de um ano antes. O número de investidores com posição em ETFs subiu para 891 mil, um crescimento de cerca de 37% em doze meses. Ainda é pouco perto do potencial: os ETFs representam pouco mais de 1% do dinheiro aplicado em fundos no país, enquanto nos Estados Unidos essa fatia beira os 30%.
Boa parte dessa procura tem a ver com mudanças no jeito de investir no país. Com as plataformas das corretoras e o crescimento da assessoria independente, ficou mais simples comprar um ETF direto pelo home broker, do mesmo jeito que se compra uma ação. Em 2025, chegou a ser lançado quase um novo ETF por semana, o que ampliou bastante as opções à disposição de quem investe.
Uma parte importante desse crescimento recente veio dos ETFs de renda fixa. Com os juros altos, esses fundos ganharam apelo, e eles têm uma vantagem tributária que pesa a favor: não sofrem o come-cotas, a cobrança antecipada de imposto de renda que acontece duas vezes por ano na maioria dos fundos tradicionais. Sem essa antecipação, o imposto só é pago quando o investidor vende as cotas, o que deixa mais dinheiro rendendo por mais tempo. Além disso, são isentos de IOF e possuem alíquotas fixas pela carteira de ativos que carregam, e não pelo tempo em que o investidor segura a cota. Na grande maioria dos fundos, ela é fixa em 15% desde o primeiro dia. Os ETFs também abriram uma porta prática para investir fora do Brasil, com fundos que acompanham índices globais e dão acesso a milhares de empresas de uma vez, sem que o investidor precise abrir conta no exterior.
Nada disso quer dizer que todo ETF seja uma boa escolha automática. É preciso olhar qual índice o fundo acompanha, quanto ele cobra de taxa e os spreads no livro de ofertas, ou seja, o investidor consegue realizar operações pagando um valor justo em relação ao valor patrimonial do índice. Um ETF de um índice muito específico pode concentrar risco, e a diversificação de um índice amplo costuma ser mais adequada para quem está montando uma carteira de longo prazo. A lógica que Bogle defendeu continua valendo: custo baixo e paciência costumam render mais do que a tentativa de acertar o momento certo de entrar e sair.
A oferta brasileira já reflete essa variedade. Há fundos globais amplos, como o WRLD11, que acompanha um índice com cerca de 10 mil empresas ao redor do mundo, e opções de renda fixa pós-fixada, como o LFTB11, que aproveitam a ausência de vencimento e de come-cotas. Quem prefere estratégias mais específicas encontra produtos de fator, como o QLBR11, focado em empresas de maior qualidade na bolsa brasileira. São exemplos de como a prateleira, antes resumida a poucos fundos de ações, foi ficando mais completa.
Cinquenta anos depois, o fundo de índice deixou de ser novidade no exterior e virou rotina. No Brasil, ele vive agora a fase de popularização, com mais produtos e uma base de investidores em expansão a cada ano. Para quem está começando, a lição que atravessa essas décadas é direta: entender quanto se paga e manter a simplicidade costuma ser um bom ponto de partida.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3