Índices
Itaú Asset: De trilhos a chips. O que sete décadas do S&P 500 contam sobre a economia mundial
Quando foi lançado, em março de 1957, o índice reunia 425 empresas industriais, 60 de serviços públicos e 15 ferrovias, uma composição que por si só descreve a economia americana do período
Alexandre Frade, da Itaú Asset
Sênior Portfolio Manager de Estratégias Indexadas da Itaú Asset Management. Experiência de 10 anos em Fundos de Pensão, e 5 anos na BlackRock como Gestor Sênior de ETFs listados na América Latina. Desde 2018, trabalha na Itaú Asset com foco em mandatos Indexados e ETFs.
Costumamos olhar para um índice de ações como uma fotografia do mercado, mas quando acompanhamos essa mesma fotografia ao longo de muitas décadas ela se transforma em algo mais próximo de um filme, no qual setores inteiros entram em cena, ganham protagonismo e, mais adiante, cedem espaço a outros. O S&P 500 permite esse exercício com uma clareza notável, porque, ao ponderar as empresas pelo seu valor de mercado, acaba registrando com bastante fidelidade onde o capital enxerga, em cada época, a geração de valor da economia.
Um retrato da economia industrial (décadas de 1950 e 1960)
Quando foi lançado, em março de 1957, o índice reunia 425 empresas industriais, 60 de serviços públicos e 15 ferrovias, uma composição que por si só descreve a economia americana do período que se seguiu à Segunda Guerra, apoiada em manufatura, energia e transporte sobre trilhos. Ao longo dos anos 1960, nomes como AT&T, General Motors, IBM, General Electric e a Standard Oil de Nova Jersey, que mais tarde se tornaria a Exxon, ocupavam o topo da lista, e em 1965 apenas AT&T e General Motors somavam cerca de 14,5% do índice, um nível de concentração que muitas vezes esquecemos quando discutimos o peso atual das empresas de tecnologia.
O petróleo no centro do palco (décadas de 1970 e 1980)
Os choques do petróleo da década de 1970 deslocaram o eixo do índice para a energia, e em 1980 o setor chegou a responder por aproximadamente 28% do valor das empresas do S&P 500, com as petrolíferas dividindo o topo com IBM e AT&T. Os anos 1980 trouxeram, no entanto, os primeiros sinais de que lideranças raramente são permanentes, seja pelo recuo gradual do preço do petróleo, seja pela divisão da AT&T em 1984, que desmontou de uma só vez um dos pilares históricos do índice.
Da euforia digital à recomposição (décadas de 1990 e 2000)
Nos anos 1990, General Electric e Exxon se alternaram na liderança, enquanto Microsoft, Intel e Cisco ganhavam peso num ritmo que levou a tecnologia a representar perto de um terço do índice no auge da bolha da internet, em 2000. O ajuste que veio em seguida devolveu protagonismo aos bancos, que chegaram a superar um quinto do índice antes da crise de 2008, e à própria energia, impulsionada pela alta das commodities, num lembrete de que o índice também registra os excessos e as correções de cada ciclo.
A nova economia ocupa o índice (décadas de 2010 e 2020)
Ao longo da década de 2010, a Apple assumiu a liderança e abriu caminho para um grupo de empresas digitais, das plataformas de busca ao comércio eletrônico e à computação em nuvem, que passou a ditar o ritmo do índice. Hoje esse movimento ganha um novo capítulo com a inteligência artificial, já que no início de outubro de 2026 Nvidia, Apple e Microsoft respondiam juntas por cerca de 21,6% do S&P 500, as dez primeiras posições somavam algo próximo de 39% e o setor de tecnologia da informação já ultrapassava 40% do índice. Chips, data centers, nuvem e modelos de linguagem, que poucos anos atrás pareciam um tema de nicho, passaram a ocupar o coração do índice, o que o torna uma porta de entrada bastante representativa para a economia que está sendo construída em torno da IA.
O que esse filme ensina sobre alocação
Olhar para essas sete décadas em sequência ajuda a perceber que o S&P 500 não é uma carteira estática, mas um mecanismo que, de forma silenciosa, reduz o peso de quem perde relevância e amplia o de quem passa a gerar mais valor, sem que o investidor precise antecipar qual será o próximo setor de destaque. A história do índice mostra também que concentrações elevadas já fizeram parte de outros momentos, como na era de AT&T e General Motors, e que, em geral, a própria dinâmica da economia tratou de redistribuir esse peso ao longo do tempo. Para o investidor brasileiro, o SPXI11 oferece uma forma prática de acessar essa renovação contínua pela bolsa local, negociado em reais e sem necessidade de conta no exterior, incorporando à carteira uma exposição internacional que acompanha, por construção, a maneira como a economia mundial se reorganiza a cada geração. Fica a reflexão sobre quais setores, daqui a uma ou duas décadas, ocuparão o espaço que hoje pertence à inteligência artificial.