Mercado
Itaú Asset: O que os juros ainda conseguem resolver?
Em Jackson Hole, no fim de agosto, Kevin Warsh reafirmou o compromisso de trazer a inflação de volta aos 2%, evitou sinalizar os próximos passos dos juros dos EUA
Alexandre Frade, da Itaú Asset
Sênior Portfolio Manager de Estratégias Indexadas da Itaú Asset Management. Experiência de 10 anos em Fundos de Pensão, e 5 anos na BlackRock como Gestor Sênior de ETFs listados na América Latina. Desde 2018, trabalha na Itaú Asset com foco em mandatos Indexados e ETFs.
Durante boa parte de agosto, a conversa sobre o Federal Reserve girou em torno de uma pergunta aparentemente simples, se o próximo movimento seria um corte ou uma alta de juros, e confesso que acompanhei esse vaivém com a sensação de que talvez estivéssemos discutindo a questão menos interessante. Um artigo publicado nesta semana por James K. Galbraith no Project Syndicate ajuda a dar forma a essa intuição, porque desloca o foco da direção dos juros para uma pergunta anterior, a de quanto da inflação americana está de fato ao alcance de um banco central.
O argumento de Galbraith
Em Jackson Hole, no fim de agosto, Kevin Warsh reafirmou o compromisso de trazer a inflação de volta aos 2%, evitou sinalizar os próximos passos e deixou aberta a possibilidade de juros mais altos caso a desaceleração dos preços não se confirme. Galbraith reconhece o mérito de Warsh ao admitir que os modelos usados pelo Fed têm limitações e ao defender que a instituição ouça um leque mais amplo de ideias, mas lembra que a meta de 2% é um objetivo definido internamente, já que o mandato legal fala em pleno emprego e estabilidade de preços. A partir daí, sustenta que conter a inflação atual exigiria mudanças estratégicas mais amplas, fora da alçada do banco central, o que tornaria o compromisso de Warsh difícil de cumprir apenas com a política de juros.
Por que isso importa para o mercado?
Não pretendo arbitrar esse debate, mas ele ajuda a entender o comportamento recente dos preços. Com a inflação em 3,7% nos doze meses até julho, o mercado passou em poucas semanas de apostas em corte para uma chance de um em três de alta, enquanto os juros longos americanos subiram a níveis que não se viam desde a crise financeira global, movimento que por si só já funciona como um aperto das condições financeiras. Quando a eficácia do próprio instrumento entra em discussão, as expectativas tendem a oscilar mais, porque cada dado novo passa a ser lido pelo que diz sobre a economia e também pelo que sugere sobre a capacidade do Fed de reagir a ele.
O que isso muda na construção de carteiras?
Para quem constrói carteiras, a consequência prática me parece ser uma certa humildade em relação a previsões de política monetária. Em vez de posicionar a carteira para um desfecho específico, costuma fazer mais sentido privilegiar estruturas que se comportem razoavelmente bem em cenários distintos, combinando classes de ativos, moedas e fatores de risco que respondem de forma diferente à inflação, ao crescimento e aos juros, e revisando de tempos em tempos se alguma dessas exposições ficou dependente demais de uma única leitura sobre o Fed.
Uma reflexão para fechar
Galbraith pode ter razão ou não sobre os limites do banco central, e esse debate seguirá aberto por um bom tempo, mas a pergunta que ele levanta serve como um exercício útil para qualquer investidor, que é olhar para a própria carteira e avaliar quanto do resultado esperado depende de acertar o próximo passo do Fed, e quanto dele se sustentaria caso esse passo surpreenda.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3