Investir melhor
Itaú Asset: O que a mudança do CalPERS ensina sobre alocação de portfólio
O CalPERS é o maior fundo de pensão de benefício definido dos Estados Unidos, com cerca de US$ 637 bilhões sob gestão
Alexandre Frade, da Itaú Asset
Sênior Portfolio Manager de Estratégias Indexadas da Itaú Asset Management. Experiência de 10 anos em Fundos de Pensão, e 5 anos na BlackRock como Gestor Sênior de ETFs listados na América Latina. Desde 2018, trabalha na Itaú Asset com foco em mandatos Indexados e ETFs.
No fim de 2025, o CalPERS, fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia, decidiu mudar a forma como constrói seu portfólio. A decisão pode parecer um assunto distante do dia a dia do investidor pessoa física, mas a lógica por trás dela toca em um problema comum a qualquer processo de alocação: como comparar oportunidades entre classes de ativos diferentes.
Por que o CalPERS importa
O CalPERS é o maior fundo de pensão de benefício definido dos Estados Unidos, com cerca de US$ 637 bilhões sob gestão e mais de nove décadas de atuação. Fundos desse porte costumam funcionar como referência para outros investidores institucionais, e mudanças na sua forma de operar tendem a ser observadas de perto pelo mercado.
O modelo anterior: alocação estratégica por classe de ativo
Até então, o CalPERS seguia o modelo conhecido como SAA (Strategic Asset Allocation). Nesse formato, o conselho define, a cada quatro anos, um percentual fixo do portfólio para cada classe de ativo, como ações, renda fixa, imóveis e private equity. Cada equipe de investimento trabalha dentro desse limite e é avaliada por um benchmark próprio da sua classe, o que, no caso do CalPERS, somava 11 referências diferentes.
O problema de olhar cada classe isoladamente
Esse tipo de estrutura tem um efeito colateral pouco discutido: cada equipe tende a otimizar dentro do próprio universo que acompanha. Quem cuida de renda fixa busca o melhor resultado possível em renda fixa; quem cuida de imóveis, o melhor resultado em imóveis. Cada mesa cumprindo bem seu mandato não garante que o portfólio como um todo esteja comparando o valor relativo entre as classes de ativos, ou seja, identificando onde um novo real investido teria mais impacto no resultado geral do fundo.
A mudança para o TPA
Em novembro de 2025, o conselho do CalPERS aprovou a adoção do TPA (Total Portfolio Approach), que passou a valer a partir de 1º de julho de 2026. O CalPERS se torna o primeiro grande fundo de pensão americano a fazer essa transição.
No TPA, deixam de existir metas fixas por classe de ativo. A equipe de investimentos ganha liberdade para alocar capital onde ele parecer mais atrativo para o portfólio inteiro, e não apenas para preencher um espaço predefinido dentro de cada classe. A forma de medir performance também muda: em vez dos 11 benchmarks anteriores, passa a existir uma referência única, composta por 75% em ações e 25% em renda fixa.
Entre os benefícios esperados pelo próprio CalPERS estão mais agilidade para aproveitar oportunidades em momentos de volatilidade, mais interação entre as equipes de investimento e um acompanhamento de resultados mais simples. Uma pesquisa de março de 2025 com 26 fundos que já adotam o TPA encontrou retorno médio 1,3 ponto percentual acima do modelo SAA ao longo de uma década, embora vale considerar que amostras desse tipo têm limitações e nem todo contexto institucional é diretamente comparável.
O paralelo com carteiras de ETFs
Guardadas as devidas proporções, essa discussão tem alguma relação com o que buscamos ao montar carteiras de ETFs para pessoas físicas: pensar o portfólio de forma integrada, olhando o papel de cada posição dentro do conjunto, em vez de tratar cada classe de ativo como um compartimento separado. É esse tipo de raciocínio que orienta combinações entre renda fixa (como IMAB11 ou B5P211), renda variável local (BOVV11) e exposição internacional (SPXI11), sempre considerando como cada peça contribui para o resultado da carteira como um todo.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3