Professor Mira: ETF de renda fixa ou Tesouro Direto? A escolha começa pelo objetivo, não pelo produto

Antes de decidir entre um ETF e um título do Tesouro, vale entender qual função aquele dinheiro deverá cumprir na sua carteira


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


Durante muitos anos, falar em renda fixa era praticamente sinônimo de escolher entre Tesouro Direto, CDBs, LCIs, LCAs e outros títulos emitidos por bancos ou pelo próprio governo. Nos últimos anos, porém, um novo instrumento começou a ganhar espaço nas carteiras recomendadas: os ETFs de renda fixa

À primeira vista, esses ETFs podem parecer apenas outra forma de investir em títulos públicos, entretanto, essa leitura simplifica um produto que pode atender objetivos diferentes daqueles normalmente associados ao Tesouro Direto.

Cada um desses produtos foi construído para resolver problemas diferentes, e compará-los como se um fosse necessariamente melhor que o outro costuma levar a escolhas equivocadas. Antes de decidir entre um ETF e um título do Tesouro, vale entender qual função aquele dinheiro deverá cumprir na sua carteira.

Comprar um título não é a mesma coisa que investir em uma carteira

Quando o investidor aplica no Tesouro Direto, ele compra um título específico. Se optar por um Tesouro IPCA+ ou Prefixado e permanecer até o vencimento, receberá exatamente a remuneração contratada, independentemente das oscilações que ocorrerem no caminho.

Nos ETFs de renda fixa a lógica é diferente. O investidor compra cotas de um fundo negociado em bolsa, cuja carteira acompanha um índice composto por diversos títulos. Em vez de selecionar um papel individual, passa a investir em uma estratégia previamente definida.

Enquanto um título individual caminha naturalmente para o vencimento, a carteira de um ETF é constantemente ajustada. O gestor vende papéis que estão ficando curtos e compra novos títulos para preservar as características do índice que o fundo procura replicar.

É justamente essa dinâmica que explica boa parte das diferenças entre os dois instrumentos.

O tempo trabalha de forma diferente em cada investimento

Todo título de renda fixa possui um vencimento, e à medida que essa data se aproxima, sua sensibilidade às oscilações dos juros diminui naturalmente. Isso significa que um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 não terá o mesmo comportamento quando faltar um ano para vencer. 

Nos ETFs de renda fixa, esse processo não acontece da mesma forma. Como a carteira é periodicamente renovada, o fundo mantém uma exposição relativamente constante aos prazos definidos em seu índice de referência. Na prática, isso preserva uma característica muito valorizada por investidores institucionais: a duração média da carteira, conhecida no mercado como duration. Quanto maior a duration, maior tende a ser o impacto provocado por mudanças na curva de juros.

Na prática, isso significa que o ETF continua reagindo aos movimentos dos juros durante todo o período em que o investidor permanecer com suas cotas. Essa característica pode ser uma vantagem ou uma desvantagem. Tudo depende do ambiente econômico.

O mesmo mecanismo que amplia oportunidades também aumenta riscos

Quando o mercado passa a projetar queda das taxas de juros, títulos de prazo mais longo costumam apresentar forte valorização por meio da marcação a mercado.

Como os ETFs preservam sua duration ao longo do tempo, eles conseguem manter essa sensibilidade por mais tempo do que um título individual que se aproxima do vencimento. É uma das razões pelas quais esses produtos costumam ganhar destaque quando aumenta a expectativa de redução da Selic.

O mesmo mecanismo, entretanto, funciona também na direção oposta: se o cenário muda e os juros continuam subindo, o ETF permanece exposto à marcação a mercado negativa, justamente porque sua carteira continua sendo renovada para manter características semelhantes às do índice.

Já quem comprou diretamente um Tesouro Prefixado ou IPCA+ e pretende levá-lo até o vencimento sabe que as oscilações intermediárias deixam de ter importância prática. A remuneração contratada será preservada.

Isso mostra que não existe superioridade absoluta entre um instrumento e outro. O que precisa estar no seu radar é a adequação ao cenário e ao objetivo do investimento.

Custos também fazem parte da rentabilidade

Nos ETFs existe cobrança de taxa de administração, normalmente entre 0,20% e 0,60% ao ano. Embora esses percentuais pareçam pequenos, eles reduzem a rentabilidade líquida ao longo do tempo, especialmente em estratégias cujo retorno adicional sobre o CDI não seja muito elevado.

Outro aspecto a observar é o spread de negociação: como as cotas são negociadas em bolsa, o investidor pode comprar acima ou vender abaixo do valor patrimonial do fundo, dependendo da liquidez e da atuação dos formadores de mercado. Nos ETFs mais líquidos essa diferença costuma ser pequena, mas ela existe e representa um custo implícito da operação.

No Tesouro Direto, por sua vez, não há taxa de administração, mas existe a taxa de custódia da B3 para alguns títulos e valores investidos. Atualmente, aplicações no Tesouro Selic de até R$ 10 mil são isentas dessa cobrança, enquanto os demais títulos continuam sujeitos à taxa de custódia incidente sobre a parcela que ultrapassar as faixas de isenção previstas no programa. 

Em compensação, a formação de preço é bastante transparente. O investidor negocia diretamente pelos preços divulgados pelo Tesouro Direto, sem a dinâmica de ofertas característica das negociações em bolsa.

A tributação também produz diferenças relevantes

Os títulos do Tesouro seguem a tabela regressiva do Imposto de Renda: a alíquota começa em 22,5% para aplicações de curto prazo e diminui gradualmente até atingir 15% para investimentos superiores a dois anos.

Nos ETFs de renda fixa, a tributação depende da estrutura do fundo. Aqueles que atendem aos requisitos de prazo médio previstos na legislação podem ser tributados à alíquota fixa de 15%, independentemente do tempo que o investidor permaneça com as cotas. Já ETFs cuja carteira não alcança esse enquadramento podem estar sujeitos a alíquotas mais elevadas, podendo chegar a 25%. Foi justamente essa questão que levou algumas gestoras a reformular seus produtos para adequá-los às regras fiscais.

Além disso, os ETFs não possuem come-cotas, mecanismo presente nos fundos tradicionais de renda fixa e multimercados, no qual há antecipação semestral do Imposto de Renda. Nos ETFs, o imposto é recolhido apenas no momento da venda das cotas, possibilitando que o patrimônio permaneça integralmente investido durante todo o tempo da aplicação. 

Essa eficiência tributária é uma das características que vêm tornando os ETFs cada vez mais competitivos para estratégias de longo prazo.

Nem toda exposição à renda fixa precisa ser feita por títulos públicos

Outra contribuição importante dos ETFs é facilitar o acesso a segmentos que normalmente apresentam maior dificuldade operacional para investidores individuais, como é o caso dos ETFs de crédito privado.

Construir uma carteira diversificada de debêntures ou outros títulos privados costuma exigir volumes elevados de investimento e envolve menor liquidez na negociação direta desses ativos. Por meio de um ETF, o investidor consegue acessar uma cesta diversificada de crédito privado em uma única operação, com negociação em bolsa e maior facilidade para entrar ou sair da posição. 

Isso não elimina os riscos inerentes ao crédito privado, mas amplia significativamente o acesso a esse mercado.

A escolha continua começando pelo planejamento

Existe uma tendência de procurar qual produto entrega maior rentabilidade. Na prática, essa costuma ser a última pergunta que o investidor deveria fazer. Antes disso, vale entender qual função aquele dinheiro exercerá dentro da carteira.

Quem pretende formar uma reserva de emergência provavelmente continuará encontrando no Tesouro Selic uma solução bastante eficiente. Para aqueles que desejam garantir uma taxa conhecida para um objetivo com prazo definido tende a encontrar vantagens na compra direta de títulos do Tesouro.

Já investidores que buscam exposição contínua a determinados segmentos da renda fixa, desejam aproveitar de forma mais permanente movimentos da curva de juros ou acessar carteiras diversificadas de crédito privado têm nos ETFs uma alternativa bem viável.

O fato é que nenhum produto substitui automaticamente o outro. Ao meu ver, o mais importante continua sendo aquilo que antecede qualquer escolha de produto: entender por que aquele dinheiro está sendo investido, quando ele será utilizado e qual nível de oscilação faz sentido aceitar durante esse percurso.

Quando essas respostas estão claras, a decisão entre um ETF de renda fixa e um título do Tesouro deixa de ser uma disputa entre produtos e passa a ser apenas uma consequência natural de uma estratégia bem construída.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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