Organizar as contas
Professor Mira: Com a Copa do Mundo, as apostas crescem e o custo social também
Com o Mundial em curso e o apelo das bets em todos os canais, o volume de apostas deve bater recordes, mas a conta dessa euforia chega à economia das famílias e do país
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Pensa numa pessoa que aposta R$ 50 num jogo de fim de semana. Parece pouco, mas multiplique isso por milhões de brasileiros, todos os meses, e você começa a entender por que esse hábito deixou de ser um detalhe do entretenimento e passou a ser uma variável econômica relevante.
Os números mostram a velocidade desse movimento. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o gasto mensal dos brasileiros com apostas saltou de R$ 4 bilhões, em janeiro de 2023, para R$ 29 bilhões, em dezembro de 2025. Quase oito vezes mais, em menos de três anos.
O comércio que perdeu dois Natais
Esse crescimento não fica restrito às plataformas de apostas, ao contrário, ele drena dinheiro de outros setores. O mesmo levantamento da CNC mostrou que o varejo brasileiro deixou de faturar R$ 143,8 bilhões em dois anos por causa da migração de renda para as bets, o equivalente a dois períodos de Natal inteiros, a época mais forte de vendas do calendário comercial.
E há outro dado que considero ainda mais sério: cerca de 269 mil famílias entraram em situação de inadimplência diretamente por causa das apostas, segundo a metodologia usada pela entidade, que isola esse efeito de outras variáveis como desemprego ou alta de juros.
De onde sai o dinheiro que vai para apostas
A origem dos recursos usados para apostar é o ponto que mais me preocupa. Pesquisa Datafolha de maio deste ano mostrou que 19% dos apostadores já usaram dinheiro guardado na poupança, 10% recorreram ao cartão de crédito e 8% pediram dinheiro emprestado para continuar jogando.
Vale registrar que esses percentuais vêm caindo desde 2024, quando estavam em 22%, 15% e 15%, respectivamente, o que é um pequeno sinal positivo. Contudo, o problema de fundo continua muito sério: quando a reserva de emergência, criada justamente para proteger a família de imprevistos, é usada para sustentar uma atividade cuja matemática é desfavorável ao apostador, a lógica da proteção financeira se inverte. Em vez de reduzir risco, a família passa a acumular risco.
Um custo invisível que toda a sociedade paga
Existe um argumento recorrente de quem defende o setor: as bets geram arrecadação tributária, e isso é real. O problema é que arrecadar não significa compensar.
Um estudo divulgado no fim do ano passado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, em parceria com a Umane e a Frente Parlamentar Mista de Saúde Mental, estimou que as apostas online geram um custo socioeconômico de R$ 38,8 bilhões por ano ao país, somando gastos com saúde mental, suicídio, desemprego e afastamento do trabalho. Quase 80% desse valor está ligado diretamente à saúde.
Para você ter uma referência de tamanho, a Receita Federal informou que, entre janeiro e abril de 2026, a arrecadação com apostas esportivas e jogos de azar somou R$ 4,586 bilhões, uma alta de 99,14% sobre o mesmo período de 2025, quando o recolhimento foi de R$ 2,283 bilhões.
Em outras palavras, o que entra no caixa público é significativamente menor do que o que sai, de forma difusa, da saúde mental, da produtividade e da estabilidade financeira das famílias.
A Copa do Mundo turbina esse cenário
Com a chegada da Copa do Mundo, o apelo das plataformas de apostas está em todos os canais de mídia, e os próprios números do setor mostram a dimensão do que está por vir.
Mesmo sendo projeções vindas de empresas do mercado de apostas, o que pede um filtro crítico na leitura, ainda assim, os números chamam atenção: as estimativas apontam que o volume global apostado durante a Copa pode chegar a US$ 60 bilhões, crescimento de mais de 50% sobre o Mundial de 2022. Para o Brasil, a expectativa do setor é capturar cerca de 10% desse total, o equivalente a R$ 31 bilhões durante a Copa.
Mais relevante que o volume, talvez, seja o perfil de quem vai apostar: uma pesquisa da Creditas em parceria com a Opinion Box mostrou que 56% dos brasileiros pretendem apostar ou participar de bolões durante a competição, percentual que sobe para 70% entre os jovens de 18 a 24 anos.
E executivos do setor são francos sobre a estratégia: o crescimento esperado não vem apenas de quem já aposta, mas de milhões de pessoas que terão o primeiro contato com plataformas de apostas justamente durante o Mundial.
É exatamente esse tipo de momento, com forte apelo emocional, mobilização nacional e marketing massivo em todas as mídias, que torna a educação financeira ainda mais urgente, pois é precisamente quando a euforia coletiva se mistura com a facilidade de apostar com poucos cliques, que decisões financeiras ruins encontram terreno fértil para se repetir e se multiplicar.
Apostas versus investimentos: uma disputa complexa
É comum ver comparações entre o quanto o brasileiro investe na bolsa e o quanto gasta em apostas, mas essa comparação precisa ser feita com cuidado, porque são duas lógicas diferentes.
Segundo a Anbima, o volume total investido por pessoas físicas no Brasil chegou a R$ 8,5 trilhões em 2025. Desse total, a renda variável, ou seja, investimentos em ações, representa 12,9%, equivalente a R$ 1,11 trilhão. É uma fatia relevante, embora ainda distante da maturidade de mercados mais desenvolvidos.
A diferença essencial não está só no tamanho dos números, mas na natureza deles. Investimento é estoque que se acumula com o tempo, baseado em fundamentos e expectativa de retorno calculada. Aposta é fluxo recorrente que se consome no mesmo instante em que é gasto, baseado inteiramente no acaso. Um constrói patrimônio, o outro o dissolve.
Então, apesar de ser óbvia a lógica de uma pessoa parar de gastar a fundo perdido com apostas e passar a usar esse dinheiro para investir, melhorando a própria vida e a economia do país como um todo, cair nesse argumento simplista está muito longe de dar conta de todas as camadas presentes neste debate.
Falei disso há pouco tempo aqui na coluna, mas é um tema ao qual sinto a necessidade de voltar a todo momento, pois vejo a educação financeira como caminho essencial para reverter a gravidade do quadro.
Por que a educação financeira virou urgência
O que esses números revelam, no fundo, não é um problema de regulação ou de tributação, embora ambos sejam importantes. É um problema de educação financeira.
Muita gente já domina o aplicativo do banco, faz Pix com naturalidade e até investe em produtos financeiros simples. Mas a diferença entre risco calculado e aposta, entre disciplina e impulso, entre construir patrimônio e tentar um atalho, ainda não está consolidada. E é justamente nessa lacuna que o vício em apostas encontra espaço para crescer.
Mais do que uma ferramenta para ensinar a organizar contas e aplicar dinheiro, a educação financeira precisa ser entendida como proteção básica do orçamento familiar e da promoção de bem estar social. O que está em jogo vai muito além das reservas financeiras individuais, estamos permitindo que uma atividade predatória coloque em risco a sustentabilidade da economia e o futuro de milhares de pessoas em todo o país.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3