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Professor Mira: Guerra, petróleo e juros. Por que o Brasil é o país que mais sofre com conflitos que não são seus

Circula muito a ideia de que investidores estrangeiros fogem do Brasil quando os juros sobem lá fora


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


Uma pausa nas hostilidades entre Estados Unidos e Irã fez o petróleo recuar e as bolsas globais respirarem, e isso, aqui no Brasil, representa um alívio real, mas passageiro. 

O que importa de verdade para nossos investimentos por aqui é o mecanismo que liga um conflito no Oriente Médio até mesmo ao preço do financiamento imobiliário que você paga, e esse mecanismo passa por uma cadeia que boa parte do mercado tende a simplificar demais.

A cadeia funciona assim: guerra eleva o petróleo, o petróleo eleva a inflação global, a inflação global pressiona os bancos centrais a manter juros altos, e juros altos no exterior mudam a equação do capital que flui para o Brasil. 

Cada elo dessa corrente tem nuances que determinam se você vai pagar mais ou menos pela próxima casa que comprar, e vale a pena a gente falar sobre isso.

O gringo não põe dinheiro no Brasil? Depende do diferencial

Circula muito a ideia de que investidores estrangeiros fogem do Brasil quando os juros sobem lá fora. É uma licença didática que uso com frequência porque simplifica o entendimento de quem não acompanha macroeconomia em profundidade. Mas, dita assim, a frase é só parcialmente correta.  

O que atrai ou repele capital internacional não é a taxa absoluta de juros de cada país, é o diferencial entre a taxa interna e a externa, ajustado pelo risco-país e pela expectativa de desvalorização cambial. É o que a economia chama de carry trade: o investidor toma dinheiro barato numa economia com juros baixos e aplica numa economia com juros altos, embolsando o diferencial. 

O Brasil opera hoje com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, e isso explica por que, mesmo com todos os ruídos fiscais, o país recebeu US$ 17,78 bilhões em investimento estrangeiro direto no primeiro semestre de 2026, o maior fluxo em oito anos. O capital não foge do Brasil só porque os juros subiram nos EUA, ele foge quando o diferencial, descontado do risco, deixa de compensar.

Isso significa que a guerra no Oriente Médio afeta o Brasil não diretamente, mas indiretamente: se a inflação global sobe e os juros externos acompanham, o diferencial em relação ao Brasil estreita, e o atrativo do carry trade diminui. É um efeito de segunda ordem, não de primeira, e entender isso evita que você reaja ao noticiário como se cada crise geopolítica fosse um terremoto direto sobre o seu bolso.

A dívida que cresce sozinha

Aqui entra um ponto muito mal compreendido no debate público:  a dívida pública brasileira bruta atingiu 81% do PIB em maio de 2026, segundo o Tesouro Nacional, e o FMI projeta 97,8% no fim do ano. O IPEA, em sua Carta de Conjuntura de julho, revelou que o resultado primário do governo inverteu de superávit de R$ 16,2 bilhões para déficit de R$ 145,2 bilhões em 12 meses. A meta oficial de superávit para 2026 é de R$ 4,1 bilhões, número que parece piada diante do rombo acumulado.

A matemática da dívida que cresce “sozinha” é real, mas a análise vai além da questão do estoque nominal (valor total acumulado que o governo deve em um dado momento, expresso em moeda corrente sem descontar a inflação). Olivier Blanchard, professor de economia do MIT e ex-presidente do FMI, formulou teoria sobre a condição de sustentabilidade fiscal com uma lógica direta: a dívida se estabiliza quando o superávit primário cobre a diferença entre a taxa de juros real e a taxa de crescimento da economia. Se os juros reais superam o crescimento, a dívida cresce mesmo sem novos gastos. Se o crescimento supera os juros, a dívida encolhe como proporção do PIB mesmo com déficit nominal. 

No Brasil de 2026, o juro real da dívida está acima de 9% e o crescimento projetado é de 2,4%. A diferença é expressiva, e é por isso que a dívida cresce em ritmo superior ao da economia. Uma taxa de 15% dobra o estoque nominal em cinco anos, mas o dado que realmente importa é a proporção sobre o PIB, e essa proporção piora porque os juros superam o crescimento de forma persistente. 

País emergente não pode ter dívida de primeiro mundo

A comparação com países desenvolvidos é tentadora e frequentemente usada para argumentar que o Brasil poderia conviver com dívidas de 100% ou 200% do PIB. O Japão opera com dívida de 258% do PIB e os Estados Unidos com 125%, e nenhum dos dois enfrenta crise fiscal aguda. A diferença não está apenas no tamanho do juro, está na natureza da moeda.

Dólar e iene são moedas de reserva global, então, quando o tesouro americano ou o ministério das finanças japonês emitem dívida, existe demanda estrutural por esses títulos, porque estão expressos numa moeda de que o mundo inteiro precisa. O Brasil emite em reais, uma moeda com credibilidade internacional limitada e sem status de reserva, assim, o investidor estrangeiro que compra dívida brasileira assume risco cambial, e esse risco tem preço.

É por isso que o limite de endividamento de um país emergente é estruturalmente inferior ao de uma economia desenvolvida, independentemente do nível de juros. Não é uma questão de matemática simples, é uma questão de profundidade do mercado de capitais doméstico, confiança institucional e demanda global pela moeda em que a dívida está expressa. John Maynard Keynes observou, nos anos 1930, que a taxa de juro é um fenômeno monetário antes de ser fiscal e o Brasil confirma essa tese todos os dias.

O juro alto não é só descontrole fiscal

Sabemos que a desorganização fiscal brasileira é uma das camadas que explica nossos juros altos, mas os seus componentes são ainda mais complexos: o risco-país pressiona a curva de juros longa, e o Tesouro precisa pagar prêmio para rolar a dívida. Mas a Selic de curto prazo é determinada pelo Banco Central com base no sistema de metas de inflação, no hiato do produto e nas expectativas de preços, não diretamente pelo déficit fiscal.

Há ainda componentes estruturais que mantêm o juro brasileiro elevado mesmo em cenários de maior equilíbrio fiscal. A taxa de poupança doméstica é baixa, o que reduz o volume de capital disponível para investimento e eleva o custo do dinheiro. A indexação da economia, herança de décadas de inflação alta, faz com que choques de preços se propaguem com mais velocidade e persistência, e a produtividade do trabalho cresce pouco, limitando a expansão da oferta. Nenhum desses fatores se resolve exclusivamente com ajuste fiscal, e ignorá-los é supor que a Selic vai cair para um dígito só porque o governo gastou menos.

O que fazer com tudo isso

O Brasil é um país que paga caro pela própria história. Os juros altos refletem o custo fiscal, mas também refletem poupança insuficiente, indexação persistente e uma moeda sem demanda global. Cada um desses fatores tem dinâmica própria e horizonte de resolução distinto, e nenhuma política pública, ajuste orçamentário ou decisão de Copom resolve os três ao mesmo tempo.

Para o investidor, isso tem uma implicação prática direta: o cenário de juros estruturalmente elevados no Brasil não é uma anomalia que vai se corrigir rapidamente. É o resultado de décadas de escolhas e heranças institucionais, e quem planeja a carteira como se a Selic fosse inevitavelmente convergir para níveis de economia desenvolvida costuma se decepcionar com o prazo.

Isso não é um convite ao pessimismo, ao contrário, pois entender por que os juros são altos, por que a dívida cresce e por que crises externas nos afetam de forma assimétrica é o que permite construir uma estratégia que funciona dentro da realidade brasileira, não apesar dela. Quando você compreende o mecanismo, não precisa prever o próximo conflito no Oriente Médio, precisa saber o que fazer quando ele vier, e essa clareza não se improvisa na hora do noticiário.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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