Objetivos financeiros

Yo Fordelone: O sonho de ficar rico pode estar deixando você pobre

Quando a decisão de investir nasce do medo de ficar de fora, a chance de errar aumenta


Yolanda Fordelone

Yolanda Fordelone

Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.


A alta recente da bolsa trouxe alegria para quem estava investido e muitas dúvidas para quem não estava. Vai subir mais? Ainda dá tempo de entrar? A pergunta é natural, mas esconde um problema: quando a decisão de investir nasce do medo de ficar de fora, a chance de errar aumenta.

O mercado tem talento para transformar desejo em pressa. Basta um ativo disparar, seja uma ação, uma criptomoeda ou o assunto da moda nas redes, para surgir a sensação de que todo mundo está ganhando dinheiro menos você. Quem compra por esse impulso costuma entrar perto do topo, sem entender direito o que comprou, e sai no primeiro susto, transformando oscilação em prejuízo real.

O sonho de enriquecer rápido sai caro. Ele leva a concentrar tudo em uma aposta só, a arriscar dinheiro que não poderia ser arriscado, a operar alavancado e a confundir sorte com talento. E há um agravante: os ganhos de quem acertou aparecem, enquanto as perdas de quem errou ficam em silêncio. Só enxergamos o lado vencedor da estatística.

Retornos extraordinários existem, mas vêm acompanhados de riscos extraordinários. Se alguém promete ganho alto, rápido e sem risco, o único retorno garantido é de quem vende a promessa.

A dificuldade de acertar o momento aparece até nos números do mercado brasileiro. Os economistas Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti, da FGV e da USP, acompanharam todas as pessoas que começaram a fazer day trade no mercado futuro de índice da B3 entre 2013 e 2015. Entre as que persistiram por mais de 300 dias, 97% perderam dinheiro, e só 1,1% ganhou mais do que um salário mínimo. Os pesquisadores também não encontraram evidência de que operar mais ensine a operar melhor.

Sobre o “ainda dá tempo?”, ninguém sabe o que a bolsa fará no próximo mês, e isso vale para analistas, gestores e influenciadores. A pergunta mais útil é outra: o que eu quero para o meu dinheiro, em quanto tempo e quanta oscilação eu aguento? Quem investe com objetivo e prazo definidos não precisa adivinhar topo nem fundo.

E esperar o momento perfeito costuma sair mais caro do que errar o momento. Um estudo do Schwab Center for Financial Research comparou investidores hipotéticos que receberam o mesmo valor todo ano (US$ 2 mil, totalizando US$ 40 mil ao longo de 20 anos) para aplicar no S&P 500, o principal índice da bolsa americana.

Quem acertou o fundo do mercado todos os anos, algo praticamente impossível, terminou com US$ 186 mil, pouca diferença para quem aplicou no primeiro dia útil do ano, sem adivinhar nada (US$ 170 mil). Já quem esperava a hora ideal, parado em renda fixa, acumulou só US$ 47 mil.

Na prática, o caminho menos emocionante costuma ser o que funciona: reserva de emergência antes de qualquer risco, carteira diversificada, aportes regulares e, para quem quiser se aventurar em ativos mais arriscados, só uma fatia pequena do patrimônio, sabendo que ela pode ser perdida. Riqueza raramente vem de um lance genial. Vem de consistência, tempo e juros compostos.

A bolsa em alta pode ainda reservar oportunidades, mas só para quem entra com plano. Para quem entra com ansiedade, é apenas mais um jeito de empobrecer sonhando com riqueza.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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