Entrevistas

“A melhor maneira de instaurar uma cultura de poupança é ter clareza dos objetivos para o futuro”, diz Nélio Costa

Chefe da área de planejamento financeiro da Nord Research dá dicas para planejar a aposentadoria e o papel do Tesouro Renda+ e da previdência privada nessa empreitada

Nélio Costa, chefe da área de planejamento financeiro da Nord Research. Crédito: Divulgação
Nélio Costa, chefe da área de planejamento financeiro da Nord Research. Crédito: Divulgação

Como conseguir juntar dinheiro para aposentadoria? A dúvida de milhões de brasileiros tem ganhado contornos cada vez mais preocupantes com a escalada no rombo da previdência pública e das dificuldades históricas da população de conseguir poupar. 

O chefe da área de planejamento financeiro da Nord Research, Nélio Costa, explica que o primeiro passo na hora de pensar na aposentadoria é estimar a renda necessária para essa fase da vida e chegar no chamado ‘número mágico’. 

“Usa-se como base o padrão de vida atual e o ajusta por uma projeção dos gastos. Primeiro consideramos a Previdência Social, depois as rendas passivas de investimentos – como imóveis alugados, por exemplo. Quando esses valores são insuficientes, tem de se projetar uma previdência complementar”.

Para ajudar nessa missão, o Tesouro Nacional lançou há um ano o Renda+, título criado para complementar a aposentadoria. No papel, corrigido mensalmente pela inflação, o investidor escolhe uma data para iniciar a receber a renda extra (paga por 20 anos). 

Em 2023, o título atingiu 70,6 mil investidores com estoque de R$ 1,6 bilhão, ou seja, 2,5% do total de R$ 46,6 bilhões em vendas do Tesouro Direto. “O título veio para facilitar o planejamento de aposentadoria porque mostra de forma clara quanto o investidor precisa acumular para ter a renda desejada no futuro”, afirma o especialista da Nord Research.

O mercado de previdência privada também cresceu no ano passado, com avanço de 28,4% na captação líquida que atingiu R$ 42 bilhões. Dentre as diferenças em relação ao Tesouro Renda+ estão os tipos de resgate que podem ser escolhidos pelo poupador. 

“O investidor pode escolher a renda vitalícia, que é um valor que ele vai receber para sempre. Tem também a opção de contratar a renda deixando a reversão para os seus beneficiários ou filhos”, diz Nélio Costa.

Seja o Renda+ ou a previdência privada, o indispensável é ter um objetivo claro e poupar. “A melhor maneira de instaurar nas pessoas uma cultura de poupança é poder trazer clareza no que elas querem para o futuro, de como conseguir isso e traduzir em números”. 

Confira abaixo a entrevista completa com Nélio Costa, chefe da área de planejamento financeiro da Nord Research.

Bora Investir: Quais os primeiros passos na hora de juntar dinheiro para a aposentadoria?

Nélio Costa: Primeiro é preciso estimar a renda necessária na fase de aposentadoria. Para fazer isso, a gente vai usar como base o padrão de vida atual (os custos mensais) e ajustar por uma projeção dos gastos. Por exemplo: quando ficamos mais velhos, o custo com plano de saúde aumenta. Por outro lado, as despesas com filhos diminuem. Então um bom ponto de partida é considerar o custo atual e aumentar ou reduzir de acordo com suas estimativas.

Com isso, a gente chega em um número mágico: quanto preciso ter de renda por mês quando for me aposentar e não tiver mais geração de renda de ativa. Então, para conseguir cobrir estas despesas, vamos ver de onde virá a renda. O primeiro valor que consideramos são aqueles que recebemos da Previdência Social. Você descobre este valor pelas regras do INSS. Hoje, por exemplo, se uma pessoa tem uma renda de R$ 7 mil por mês, eu vou estimar que ela vai receber entre R$ 4 mil e R$ 5 mil de INSS – que seria uns 60% da renda atual. É claro que cada caso é um caso e isso pode mudar – por exemplo, um funcionário público que irá se aposentar com sua renda integral, independentemente do valor.

Depois de olhar a Previdência Social, a próxima fonte são as rendas passivas de investimentos – seja por ser dono de uma empresa ou ter imóveis alugados, etc. No nosso exemplo a pessoa vai ganhar R$ 4 mil de INSS, R$ 3 mil de imóveis e R$ 2 mil de outros investimentos. Então, ela terá uma receita de R$ 9 mil para um custo de vida de R$ 8 mil – um valor confortável para se aposentar sem maiores problemas.

O próximo passo – e o mais comum – é quando esses valores são insuficientes. Se uma pessoa projeta um custo de vida necessário de R$ 10 mil e vai receber R$ 2 mil de INSS e nada de aluguel ou investimentos, tem que se projetar uma previdência complementar.

+ Quanto investir no Renda+ para ter renda de R$ 5 mil em 20 anos?

Bora Investir: E como se faz esse cálculo?

Nélio Costa: Vamos usar o mesmo exemplo. A família precisava de R$ 8 mil. Vai receber R$ 2 mil de INSS e precisa cobrir R$ 6 mil de renda passiva. A partir daí, é possível fazer cálculos estimando uma taxa de juros real razoável, algo como 4% a 5% ao ano, para atingir o valor necessário.  

Quero fazer aqui um parêntese: o dinheiro físico – R$ 600 mil, R$ 1 milhão, R$ 2 milhões – se converte em renda da mesma forma que a água se converte em energia quando liga-se uma turbina. Então o dinheiro gera uma renda mensal que chamamos de rentabilidade. Ao pegar o exemplo de R$ 1 milhão, hoje investidos numa aplicação que paga 0,35% ao mês de juro real – descontando inflação e o imposto – tenho que esse valor vai gerar uma receita de R$ 3.500 por mês para pagar o meu custo de vida. 

Normalmente essa perpetuidade não é suficiente. A pessoa que tem R$ 1 milhão, saca R$ 3.500 por mês, passar a ter R$ 1.003.500 e continua com R$ 1 milhão no mês seguinte. Isso é a perpetuidade. Na vida, pegando esse exemplo, o que normalmente vemos são pessoas que precisam sacar R$ 6 mil por mês dentro desse universo de R$ 1 milhão. Então agora passo a ter R$ 997.500, ou seja, esse patrimônio começa a ser consumido. Portanto é isso que precisa ser estimado. 

Um planejamento de aposentadoria estima a idade que uma pessoa vai viver, o quanto vai sacar por mês e a rentabilidade dessa carteira para saber se esse dinheiro é suficiente. Então é preciso calcular o valor da liberdade financeira, ou seja, quanto que se precisa ter em carteira para que, com essa rentabilidade conservadora, se consiga fazer saques mensais de acordo com a necessidade. 

Bora Investir: O brasileiro ainda se preocupa pouco com poupar para a aposentadoria. Como conseguir criar um comportamento de investimento para o longo prazo?  

Nélio Costa: A criação desse comportamento é um desafio porque grande parte dela passa pela questão comportamental humana. É aquela dúvida básica: você prefere receber R$ 50 hoje ou R$ 150 daqui a 20 anos? Quando se fala para escolher algo que só vai te beneficiar daqui 15, 20 ou 30 anos não dói. É aquela mesma escolha: eu vou na academia ou comer uma pizza? A pizza vai dar um prazer mais momentâneo, mas ir à academia vai me ajudar a construir um futuro melhor. 

É da natureza humana não fazer escolhas que beneficiam o futuro em detrimento do curto prazo. Portanto é algo que a gente tem que realmente educar, ensinar e cutucar. A melhor maneira de instaurar nas pessoas uma cultura de poupança é poder trazer clareza no que elas querem para o futuro, de como conseguir isso e traduzir em números. 

É preciso se perguntar: qual é o meu objetivo? Se for comprar uma casa, por exemplo, vamos pensar que seja necessário guardar R$ 900 mensais. Esse valor é a entrada da sua casa própria. Se não guardar, você não vai ter a casa. Tornar o objetivo claro faz aquele dinheiro ter sentido. Aquele valor passa a ser conectado com algo que emocionalmente é valioso para você. A gente precisa de um grande esforço educacional e cultural, com lembranças constantes de que, se não guardar hoje, no futuro você pode passar por dificuldades. 

Bora Investir: O Tesouro Nacional criou há um ano o Renda+. O senhor acredita que esse título tem justamente a função de facilitar a conta na hora de acumular poupança para aposentadoria?

Nélio Costa: Sim. O impacto mais positivo do Título Renda+ foi exatamente o de facilitar para os investidores o conceito de que dinheiro e renda estão interligados, que um se transforma no outro. 

A vantagem do Renda+ é que para cada título comprado o investidor vai receber tantos reais por mês. Exemplo: se você tiver cem títulos, recebe R$ 1 mil a mais por mês. Claro que depende de cada um, esse é apenas um exemplo hipotético. O Título, portanto, mostra ao investidor que para se ter um complemento de aposentadoria de R$ 2 mil por mês, você precisa ter tantos títulos. Com isso, fica claro o que se precisa para acumular e receber de aposentadoria. 

Outra diferença do Renda+ é que numa carteira mais arrojada investida no mercado, não é possível cravar que você sempre vai receber uma rentabilidade por mês. Vai ter mês que vai render mais e, em outros, menos. Agora, quando você entra num título público, numa taxa de renda fixa, é possível precificar e mostrar quanto a sua carteira vai render todo o mês.

Portanto esse título veio para facilitar esse planejamento de aposentadoria. Quem tem um conhecimento mais profundo de educação financeira e investimentos consegue montar uma carteira própria. Mas o Tesouro Renda+ deixa isso muito mais fácil. É esse valor que você precisa juntar para ter sua aposentadoria garantida. Então o propósito educacional dele é muito bom.

Além do ponto de vista educacional, é óbvio que o Tesouro Renda+ também pode ser utilizado pelo investidor que é mais familiarizado, ou seja, que tem um conhecimento mais profundo. É um produto que também pode ser utilizado em complementação da aposentadoria.

Bora Investir: Quais as principais diferenças entre o Tesouro Renda+ e um plano comum de previdência privada?  

Nélio Costa: Em todo o processo de aposentadoria têm um período de acúmulo e um de utilização do recurso. O Tesouro Renda+ pode ser usado nas duas pontas. Se no período de acúmulo, o investidor fez a sua poupança no mercado de capitais através da sua própria carteira e faltando um dia para a data de aposentadoria pega esse patrimônio e compra o Renda+, ele passa a ter a distribuição desses pagamentos mensais pelo Tesouro. 

Quando a gente fala de uma previdência privada, basicamente o investidor transfere para uma seguradora esse risco. Então ele investe nesse período e a seguradora consegue conceder uma renda. No Tesouro Renda+ toda a renda que eu vou receber é paga em 240 parcelas, ou seja, num prazo certo por 20 anos. 

Na Previdência temos outros tipos de renda. O investidor pode escolher a vitalícia, que é um valor que ele vai receber para sempre – tanto faz se ele falecer com 70 anos ou 105 anos. Tem também a opção de contratar a renda deixando a reversão para os seus beneficiários ou filhos. Exemplo: se o investidor tem uma renda de R$ 5 mil por mês e falece, os favorecidos podem receber esse valor por mais tempo que os 20 anos do Renda+. Então se tem mais flexibilidades e formas de recebimento. 

No Tesouro Renda+, na hora que o investidor compra o título, ele já tem essa rentabilidade definida. Então, se hoje eu comprei um título que paga a inflação mais 6%, vou ter esse ganho até o recebimento do benefício. Se eu tenho um fundo de previdência, ele pode render, em média, inflação mais 7%, mais 8%, mas pode render inflação mais 2%. Portanto no fundo se tem uma gestão que é incerta, ao passo que o Renda+ tem uma gestão que é definida.

Bora Investir: Em relação ao Imposto de Renda, como funciona os prazos e valores nas duas modalidades?

Nélio Costa: Na fase de recebimento do benefício em previdência privada, para quem declara o Imposto de Renda na modalidade completa existe a possibilidade de se ter um benefício fiscal, ou seja, um abatimento na declaração anual. Para o investidor que tem essa característica, é mais inteligente fazer o investimento em previdência porque esse benefício fiscal eleva a rentabilidade. 

Exemplo: para quem declara o IR na modalidade completa e tem uma renda bruta tributável anual de R$ 100 mil, esse investidor pode pegar R$ 12 mil (12%) e investir num plano de previdência. Esse dinheiro tem um incentivo fiscal, ele vai diminuir o valor sobre o qual o meu imposto é cobrado. É o que a gente chama de base de cálculo, ou seja, valor sobre o qual a Receita Federal vai cobrar o imposto. Então, a vantagem da Previdência privada é que eu posso colocar até 12% da minha renda em descontos para diminuir minha base de cálculo e isso baixa o quanto o investidor têm de imposto devido naquele ano. Para a pessoa que não faz a declaração de IR completa, a Previdência se torna um investimento em fundos e isso não traz uma rentabilidade garantida. Então vai depender da performance do gestor. 

Nos títulos públicos, não apenas o Renda+, o Imposto de Renda é regressivo de 22,5% a 15%, dependendo do prazo que o dinheiro for aplicado. Até 180 dias é 22,5%; de 181 dias a 360 dias é 20%; 361 a 720 dias é 17,5%; e acima de 721 dias cai para 15%. Já a Previdência tem um regime de tributação regressivo ou progressivo. 

No regressivo, o imposto cobrado vai ser de 35% – que é mais do que os 22,5% do Tesouro – mas ele pode cair até 10%. Se o dinheiro for aplicado por mais de 10 anos, ele vai pagar 10% de imposto no regime regressivo. Isso também é um benefício. No progressivo se leva em conta o valor do benefício que será recebido no resgate. Os percentuais variam de zero a 27,5%, dependendo do valor da renda final.

Bora Investir: O segmento de previdência privada avançou 8,8% na captação bruta de 2023. A que se deve essa escalada?

Nélio Costa: Desde 2017 os fundos de previdência começaram a ganhar muito mais flexibilidade. Antes um fundo de ação tinha que ter no máximo 49% em renda variável e hoje pode estar 100% exposto. Então as principais gestoras do Brasil foram lançando fundos de previdência mais vantajosos, já que neles não se paga come-cotas.

Num fundo tradicional, todos os meses de maio e novembro paga-se uma antecipação do imposto. Se no meio do caminho eu quero mudar de estratégia e ir para um fundo agressivo ou multimercado, preciso fazer o resgate, pagar o imposto e aplicar novamente na previdência. Agora num fundo já para aposentadoria, além de não desembolsar o come-cotas, é possível fazer portabilidade com facilidade. Ou seja, se estou montando uma estratégia de aposentadoria agressiva e quero mudar para uma moderada, o investidor não paga nenhuma taxa e vai para uma outra gestão. 

Hoje as previdências atingiram o status de um fundo normal de investimentos com o benefício de não ter come-cotas e portabilidade. A estratégia, portanto, depende de cada investidor. 

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