Galípolo: O principal item que deve pressionar a inflação no longo prazo é a IA
Na Expert XP 2026, Galípolo comentou sobre os fatores que vão pressionar a inflação brasileira e descartou protagonismo do endividamento das famílias
Em painel sobre a política monetária do Brasil, na Expert XP 2026, Gabriel Galípolo foi questionado sobre três fatores que têm forte influência na trajetória da inflação brasileira e destacou: o choque nos preços do petróleo, o avanço dos investimentos em inteligência artificial (IA) e o fenômeno climático El Niño.
Para o presidente do BC, o principal item que deve pressionar a inflação no longo prazo é a IA, tendência que elevou os níveis de investimento das empresas, mas também os custos, principalmente em energia.
“Quando a IA estiver plenamente em operação, a produtividade vai aumentar e a renda de quem trabalha com isso também terá um efeito inflacionário”, explicou.
Contudo, Galípolo trouxe à tona uma discrepância. O fato de que mesmo com a IA melhorando a produtividade dos trabalhadores, estes não estão abraçando mais demandas, apesar de ter um tempo maior para as entregas. “As empresas ainda não estão sentindo a necessidade de contratar mais pessoas, mas no futuro pode vir a fase das demissões que também terão impacto na curva de juros”, avaliou.
Para Galípolo, IA está no foco dos investidores locais e estrangeiros, que estão olhando com certa preocupação se existe uma boa relação entre equity e dívida.
Já em relação ao fenômeno El Niño, o presidente do BC manifestou que há diversos estudos em andamento para equacionar os impactos, embora seja difícil mensurar, porque há casos em que vão na contramão, como beneficiar positivamente a produtividade agro. “Não é fácil monitorar”, lamentou.
Questionado sobre o petróleo, Galípolo fugiu de sinalizações concretas e afirmou que a commodity é uma variável monitorada pela autarquia dia após dia. “Choque de petróleo é sempre uma variante importante, temos olhado os efeitos de segunda ordem”, afirmou.
Porém, fez a ressalva que é complexo separar os efeitos próprios do choque de oferta do petróleo e a resiliência da economia. O presidente da autarquia também destacou o papel do Brasil no cenário global, que tem sido visto com bons olhos por ser exportador líquido de petróleo.
Com uma série de slides, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, tentou convencer o mercado financeiro sobre as falácias que existem em relação às projeções de inflação e taxas de juros, coletadas pelo Boletim Focus.
Projeções de inflação
Durante o painel, Galípolo destacou que os dados refletidos no Focus – que reúnem as opiniões de cerca de 100 economistas e agentes do mercado financeiro – têm muitos pontos em comum com as projeções dadas por empresas e indústria.
“Existe uma falácia de que o Banco Central usa muito a Faria Lima na sondagem de juros. E de que membros do mercado financeiro podem influenciar a política monetária de forma a ter taxas de juros mais elevadas. E isso não é bem assim”, pontuou. Na sequência, o presidente da autoridade monetária se dedicou a apresentar ao público como funciona a pesquisa Firmus, que reúne no último mês de cada trimestre as projeções do setor empresarial, envolvendo segmentos como comércio, serviços e indústria de transformação.
Nos slides apresentados, Galípolo fazia questão de frisar como muitas das projeções de inflação registradas na Firmus, muitas vezes superam até mesmo as projeções do Focus, contrapondo a teoria que Faria Lima tem mais voz que as empresas.
O presidente do Banco Central também tentou desmistificar a teoria de que a Faria Lima pode influenciar o curso dos juros, o que na visão de Galípolo não teria lógica alguma, dado que se os juros sobem, ativos de dívida ficam menores, ações desvalorizam, o que vai na contramão da lucratividade no mercado financeiro. “Até para os bancos, os juros altos geram mais passivos do que ativos”, comentou.
BC é um transatlântico não um jetsky
Outro ponto abordado por Galípolo foi sobre o panorama do BC para a segunda metade do ano, se em algum momento a autarquia poderia dar uma pausa para observar a trajetória da inflação e dos juros antes de tomar novas decisões.
O presidente do BC reforçou um ponto de vista já presente nas Atas da instituição. A visão de que o Brasil possui um mercado de trabalho e atividade econômica resilientes. Mas expectativas desancoradas com o mercado, que provavelmente está monitorando outras variáveis não consideradas pela autarquia.
“Ainda que estejamos com juros restritivos, essa postura do mercado é uma sinalização adicional de que talvez os juros permaneçam restritivos por um período mais longo”, defendeu.
Para Galípolo, a palavra-chave é calibração, contudo destacou que o Banco Central não costuma reagir rapidamente a uma única variável, como o mercado esperaria, e sim prefere fazer estudos e escolhas com muita parcimônia. “Em relação a tendências, o Banco Central está mais para um transatlântico do que um jetski”, brincou e reforçou a necessidade de interpretar dados e variáveis com serenidade.
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Juros no crédito são menos sensíveis à Selic
Durante o painel também foi abordada a relação do endividamento das famílias que consomem muito crédito com a elevada taxa de juros. Galípolo afirmou que não existe uma relação de sensibilidade entre ambas variáveis. Para ele, as taxas do crédito que costumam ser muito elevadas, não tem uma correlação direta com a evolução da Selic.
“Olhando para as famílias, o maior endividamento se concentra no crédito sem garantia”, apontou o presidente do BC, lembrando que esse fluxo se intensificou com a pandemia e a adoção do Pix, que permitiu que mais pessoas desbancarizadas tivessem acesso a linhas de crédito.
Galípolo criticou ainda o sistema de parcelamentos no crédito, que acaba turbinando o endividamento. E citou a dificuldade de pequenas e médias empresas obterem financiamentos por conta de garantias.
Na opinião do presidente do BC, não existe um risco sistêmico por conta do endividamento. “Juros de crédito são menos sensíveis à Selic e isso facilita a comparação”, concluiu.