“O Brasil precisa ser porto seguro em um mundo de muita incerteza”, diz Durigan
Ministro da Fazenda afirmou que o governo pretende manter o esforço de ajuste fiscal e reforçar a credibilidade do país
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira (24), durante a Expert XP, que o governo considera ter construído uma base sólida para a economia brasileira nos últimos anos, mas reconheceu que ainda há desafios importantes relacionados às contas públicas, ao endividamento e ao custo do crédito no país.
Ao longo da conversa, Durigan abordou temas como o cenário econômico, a política fiscal, o endividamento da população e o papel da educação financeira para melhorar a qualidade do crédito no Brasil.
Economia brasileira tem “base importante”, mas desafio está nas contas públicas
Na avaliação do ministro, o Brasil chega ao fim do atual mandato presidencial em uma situação econômica melhor do que em anos anteriores, apesar das dificuldades do cenário doméstico e internacional.
“A situação de hoje, com todas as dificuldades internacionais e locais, é algo que a gente não via há muito tempo no país. Nós chegamos nessa altura do campeonato com índices muito importantes para as pessoas”, disse. O ministro destacou redução da desigualdade, da fome, a geração de empregos, o desempenho da balança comercial e o comportamento da inflação.
“Chegamos no fim do último ano do mandato do presidente com desigualdade menor. Com o relatório da FAO dizendo que é o menor nível de fome do país da história. Geramos mais de 100 milhões de empregos, balança comercial bateu recorde. Tivemos a menor inflação de um mandato presidencial.”
O ministro ponderou, porém, que esses resultados não significam que todos os problemas estejam resolvidos.
“Não falo isso com ufanismo e querendo mostrar que está tudo certo. Mas foi construída uma importante base. Nos resta uma milha final de esforço, que é a milha do endividamento público e dos juros, que me incomoda e é preciso que a gente faça os esforços necessários”. Segundo Durigan, o compromisso da equipe econômica é fortalecer as contas públicas para criar condições para juros mais baixos e ampliar a capacidade de investimento em políticas públicas.
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“O compromisso que eu tenho, com o presidente, é fortalecer o país, em especial as contas públicas, para que a gente tenha juros mais baixos e fortaleça as políticas públicas que mais impactam a vida e o crédito das pessoas.”
Ao comentar a política fiscal, Durigan afirmou que o governo realizou um ajuste estrutural ao longo dos últimos três anos. “A gente fez um esforço nos últimos três anos para realizar um ajuste estrutural, que teve um resultado de 2 pontos percentuais do PIB no resultado primário. Não é o desajuste das contas públicas que explica o aumento do endividamento.”
Brasil precisa ser “porto seguro” para investidores
Na visão do ministro, o ambiente internacional continua marcado por elevada incerteza, com inflação e juros mais elevados que no passado recente. Um dos sinais mais claro disso é o nível atual de juros nos Estados Unidos, um dos patamares mais altos nos últimos 20 anos.
“A incerteza fiscal tem causado inflação no mundo todo. O Banco Central espanhol, mexicano, canadense, inglês – todos podem ter de aumentar a taxa de juros. Em todo o mundo, a situação fiscal é complicada e eu diria até pior que a nossa”.
Para Durigan, isso traz uma oportunidade para o Brasil se colocar como “porto seguro” nesse mundo incerto. “O Brasil precisa ser porto seguro de um mundo de muita incerteza. Temos que aumentar a credibilidade e segurança e mostrar o Brasil como o porto seguro dos investimentos. É onde a gente vai ter previsibilidade e segurança para atrair o investimento privado.”
Endividamento da população
Outro tema abordado foi o elevado endividamento das famílias brasileiras. Para Durigan, o perfil da dívida mudou nos últimos anos – “um tema que me incomoda profundamente”, disse.
Segundo ele, muitas famílias deixaram de recorrer ao crédito para adquirir patrimônio e passaram a utilizá-lo para despesas básicas. O ministro avaliou que a expansão do crédito ocorreu de forma muito rápida e que parte da população não teve condições de administrar esse processo adequadamente.
Durigan defendeu que a legislação acompanhe as transformações do mercado, especialmente diante do crescimento do consumo digital e dos serviços financeiros.
“Hoje o consumidor é financeiro e digital. Se a gente não tiver um olhar atencioso e moderno para como a gente protege essas duas vertentes do consumo, o consumo digital e o consumo financeiro, nós vamos enxugar gelo.”
Na avaliação dele, as informações disponíveis no sistema financeiro poderiam ser utilizadas para evitar a contratação de crédito por consumidores já excessivamente endividados. “Se eventualmente a gente sabe que determinado consumidor já tem cinco plásticos [cartões de crédito], tem dívida atrasada, por que autorizar a emissão de um novo cartão com limite que certamente vai trazer mais endividamento para essa pessoa?”, questionou.
Segundo o ministro, o objetivo seria usar a inteligência do sistema financeiro para desestimular operações consideradas inadequadas. “Temos que usar a inteligência financeira para desestimular o crédito ruim.”