Agro amplia presença no mercado de capitais e atrai cada vez mais investidores
Em congresso da ABAG, especialistas destacam crescimento de instrumentos como CRAs, LCAs e Fiagros e defendem maior participação do financiamento privado no setor
O agronegócio movimentou R$ 3,2 trilhões em 2025 e respondeu por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Para um setor dessa dimensão, ampliar e diversificar as fontes de recursos é fundamental para sustentar os próximos ciclos de crescimento. “O agronegócio tem sido um motor de crescimento do Brasil há décadas. Os números mostram a força do setor e a dimensão do desafio de garantir recursos e condições para que ele continue crescendo.”, afirmou Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
Nem sempre foi assim. Durante a abertura do evento, o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, destacou a transformação da produção agropecuária brasileira nas últimas décadas. “Há 50 anos, o Brasil era importador de alimentos. E neste ano nós vamos passar os Estados Unidos como o maior exportador de alimentos do mundo. É extraordinário, mas temos desafios pela frente”, afirmou Alckmin.
Para Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), o próximo passo é transformar a capacidade produtiva desenvolvida pelo país em maior protagonismo no cenário global. “O próximo passo é transformar essa capacidade em liderança. O verdadeiro protagonismo de uma nação não se mede apenas pelo que ela produz, mas pela sua capacidade de guiar transformações”, afirmou Plöger.
Mercado de capitais ganha relevância no financiamento ao agro
O mercado de capitais brasileiro começou 2026 aquecido. No primeiro semestre, as ofertas alcançaram R$ 361,8 bilhões, o maior volume já registrado para o período na série histórica da Anbima. A renda fixa respondeu por R$ 288 bilhões desse total. Instrumentos ligados diretamente ao agronegócio já movimentam centenas de bilhões de reais. Em junho de 2026, o estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs) superou R$ 474 bilhões. As Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) somaram R$ 563 bilhões, enquanto os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) chegaram a R$ 174 bilhões e os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs) ultrapassaram R$ 30 bilhões.
Os Fiagros também vêm ampliando a conexão entre investidores e o setor produtivo. Atualmente, cerca de 57 fundos estão disponíveis na bolsa, reunindo mais de 600 mil investidores pessoas físicas.
Para Flavia Palacios, diretora da Anbima, a participação do agronegócio no mercado de capitais é resultado de uma evolução das últimas duas décadas, com a criação e a adaptação de instrumentos voltados às particularidades do setor. Entre os principais exemplos, ela cita os CRAs e os Fiagros, que ampliaram as possibilidades de conexão entre investidores e empresas do agronegócio. “Evoluímos muito em instrumentos e capacitação. Nos últimos 20 anos, adequamos os instrumentos de mercado de capitais, entendendo que alguns setores precisavam de instrumentos mais específicos, endereçar as particularidades era importante”, afirmou.
Para Masagão, a dimensão do setor exige uma combinação cada vez maior de fontes de recursos. “O agro não pode depender somente de financiamentos públicos ou de recursos direcionados. Eles não perdem sua importância e continuam sendo de extrema relevância, mas o mercado de capitais tem potencial para complementar”, afirmou.
Essa complementaridade também é destacada por Fabiana Perobelli, superintendente de Relacionamento com Clientes da B3. Segundo ela, o mercado de capitais não deve substituir mecanismos como o Plano Safra, mas ampliar sua participação como fonte adicional de recursos para o setor.
“O mercado de capitais não vai substituir o Plano Safra, mas vai andar ao lado”, afirmou. Para Perobelli, após o desenvolvimento dos instrumentos, um dos próximos desafios é torná-los mais acessíveis e adequar a comunicação tanto para quem busca financiamento quanto para quem investe.
Derivativos ajudam produtores a administrar riscos
O desenvolvimento do mercado de capitais para o agro vai além do financiamento. Contratos futuros e opções podem ser utilizados por produtores e empresas para administrar a exposição às oscilações de preços dos produtos e insumos. “Outro tema de muita relevância e com a participação da B3 é a gestão de risco para os produtores do agronegócio. Nós disponibilizamos contratos futuros e operações de derivativos que permitem aos produtores gerenciar a volatilidade de preço dos seus produtos e dos seus insumos”, disse Masagão.
A procura por esses instrumentos vem crescendo. No contrato futuro de boi gordo, o volume médio diário negociado passou de R$ 650 milhões em 2025 para R$ 935 milhões em 2026. Já no futuro de milho, o número de contratos em aberto avançou 55%. Ainda assim, Masagão avalia que há espaço para ampliar a utilização desses instrumentos diante da dimensão da produção brasileira.
O potencial de expansão também se aplica à formação de preços no mercado doméstico. Embora o Brasil esteja entre os maiores produtores globais de commodities como soja, café, açúcar e algodão, referências importantes para a negociação desses produtos ainda são formadas fora do país. Segundo o executivo, desenvolver mercados locais mais líquidos pode aumentar a transparência para os produtores sobre os preços pelos quais seus produtos serão vendidos e fortalecer a conexão entre os diferentes participantes da cadeia.
Na avaliação de Perobelli, ampliar o acesso dos produtores aos instrumentos já disponíveis será uma das principais frentes do próximo estágio de desenvolvimento desse mercado. “Os instrumentos existem, a gente precisa torná-los mais acessíveis para o produtor”, afirmou.