Corte certo e dúvida sobre ‘porta aberta’ em junho: o que esperar do Copom nesta semana
Com consenso pelo corte de 0,25 p.p. em abril, mercado aguarda sinalizações sobre a estratégia para junho em meio à volatilidade externa
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O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) se reúne nesta terça-feira, 28, e quarta-feira, 29, em uma reunião praticamente pacificada – o mercado, de forma quase que unânime, estima um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na taxa Selic, atualmente em 14,75% ao ano.
A decisão chega em um momento em que o cenário mudou bastante desde o início da discussão de flexibilização da política monetária: o petróleo Brent voltou a operar acima de US$ 100 o barril, a inflação subiu nas projeções de mercado, e o câmbio depreciou, jogando o dólar para abaixo de R$ 5 pela primeira vez em dois anos.
Desta forma, o comunicado da decisão de política monetária e a Ata do Copom devem concentrar expectativas, com os participantes do mercado atentos aos sinais do Banco Central (BC) sobre sua avaliação dos impactos do conflito.
O debate entre os analistas não é mais se vai cortar, e sim se o Copom vai sinalizar algum guidance sobre junho – ou se vai deixar a porta aberta dependendo de como o cenário externo evoluir nas próximas semanas.
Na última edição do Boletim Focus, o mercado subiu suas projeções para a Selic terminal deste ano. Após semanas a fio projetando 12,50%, agora o consenso espera uma taxa básica de juros em 13% ao fim de 2026 – e com projeções que podem mirar uma postura ainda mais austera do BC a depender das suas sinalizações sobre o tema.
Apesar disso, o momento atual e imediato é de relativo otimismo com o mercado doméstico, dado que o Brasil é exportador líquido de petróleo, principal ativo afetado pelo conflito.
Na esteira de uma injeção massiva de capital, o câmbio segue fraco e o sell-side tece elogios à performance brasileira. Na primeira quinzena de abril o BTG Pactual revisou sua projeção para o superávit da balança comercial brasileira, que deve alcançar US$ 90 bilhões neste ano, representando um acréscimo substancial ante os US$ 75 bilhões da previsão anterior.
Analistas do Bank of America (BofA) emitiram um relatório citando ativos brasileiros como ‘livres de risco’ e chamaram o país de ‘novo ouro’.
Focus espera BC mais austero
O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 17 de abril mostra o mercado cada vez mais convicto de que o ritmo de cortes desta reunião será de 25 pontos-base, levando a Selic dos atuais 14,75% para 14,50% ao ano.
A mediana das expectativas para a Selic no fim de 2026 subiu de 12,50% para 13,00% nas últimas semanas – uma revisão expressiva que reflete a percepção de que há menos espaço para cortar os juros neste ano do que se imaginava antes do choque do petróleo.
Para a inflação de 2026, o consenso do Focus está em 4,80%, com uma alta de 6 semanas consecutivas de revisões para cima, e já bem perto do teto da meta de 4,5%.
Para o Bank of America (BofA), o BC deve manter o ritmo cauteloso de cortes de juros na próxima reunião do Copom, mesmo diante de uma piora recente no quadro inflacionário. A avaliação consta em relatório que aponta para uma redução de 0,25p.p..
“O ambiente se tornou menos benigno, mas ainda há espaço para flexibilização. Na reunião de março, os formuladores de política monetária iniciaram o ciclo de afrouxamento no Brasil, que chamaram de ciclo de ‘calibração’. Desde então, o cenário macro ficou menos favorável, embora ainda suficiente para evitar um aperto adicional”, diz a casa.
“No cenário externo, tensões geopolíticas no Oriente Médio seguem elevando a incerteza sobre preços de energia e cadeias globais de suprimentos. No cenário doméstico, o quadro de inflação se tornou mais heterogêneo, com deterioração das medidas de inflação cheia e núcleo na margem. Ao mesmo tempo, os dados de atividade parecem ter perdido fôlego, sugerindo que os efeitos defasados do aperto monetário ainda estão em curso”, completa.
O BofA ainda adiciona que, por outro lado, o real continua sendo um dos ativos preferidos do mercado, o que dá suporte ao banco central para seguir com o ciclo de cortes e conter efeitos secundários do choque do petróleo sobre a economia.
XP vê Selic terminal em 13,50%
A XP fez uma revisão significativa em seu cenário após a escalada do petróleo. A casa elevou a projeção para o IPCA de 2026 de 3,8% para 4,8% e subiu o piso esperado para a Selic ao final do ano, de 12,75% para 13,50%.
A projeção dos especialistas da XP é de que o choque de oferta em uma economia com hiato do produto positivo – ou seja, operando acima do potencial – demandará uma resposta da política monetária.
“O choque de oferta em uma economia aquecida, com expectativas inflacionárias acima da meta, requer uma resposta da política monetária”, diz a XP em seu relatório mensal de abril.
A casa projeta que o Copom vai cortar 25 pontos-base em abril e, a partir de junho, acelerar para dois cortes de 50 pontos. Entretanto, isso ficaria condicionado a um recuo nos preços do petróleo, que a XP vê como ‘pré-condição essencial para esta aceleração no ritmo de cortes’.
Acerca do mercado doméstico, a XP destaca que o mercado de trabalho segue aquecido e o consumo das famílias mostra força, o que aumenta o risco de que os efeitos secundários do choque de energia se espalhem para outros preços. “O cenário atual de baixa capacidade ociosa na economia brasileira aumenta a probabilidade de materialização desses efeitos secundários, demandando resposta da política monetária”, escreve.
Santander vê corte de 25p.p. e silêncio sobre reunião de junho
O Santander também espera um corte de 25 pontos-base na reunião de abril, e vai além ao cravar que o Copom não deve oferecer sinalização sobre o que vem em junho.
A casa antevê ‘corte de 25 p.b., e sem guidance para a reunião de junho’, conforme escreveu a equipe liderada pela economista-chefe Ana Paula Vescovi. A decisão de não dar guidance seria, segundo o banco, uma forma de preservar a flexibilidade do Comitê num cenário avaliado como ainda recheado de incertezas.
O Santander enxerga a Selic encerrando 2026 em 12,50% ao ano, com uma trajetória que ainda implica em poucos cortes adicionais neste semestre.
Do lado positivo para o Brasil, o banco destaca que ‘a alta do petróleo tende a ser positiva, no relativo, para países exportadores de commodities, como o Brasil’, com o diferencial de juros elevado e os fundamentos externos mais sólidos servindo de suporte ao real.
A curva de juros, porém, já reagiu: o DI para março de 2027 subiu 6 pontos-base na semana mais recente, com os vértices mais longos registrando alta de 8 pontos-base.
*Matéria publicada originalmente em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir