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Entenda a relação ‘meia entrada no cinema’ e crédito direcionado dita por Campos Neto

Entenda a relação ‘meia entrada no cinema’ e crédito direcionado dita por Campos Neto

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, um homem branco, de terno e óculos, segura um microfone
O presidente do BC, Roberto Campos Neto. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Redação B3 Bora Investir

Os juros básicos da economia brasileira no maior patamar dos últimos seis anos segue em discussão tanto por analistas e autoridades, quanto pela população brasileira. Para tentar explicar um dos motivos para a Selic estar em 13,75% ao ano, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, usou um benefício muito conhecido da população – que é o ingresso meia entrada para cinema, shows e eventos – para esclarecer o atual patamar de juros.

Segundo o dirigente do BC, entre os problemas que geram juros altos no país, está o alto volume do chamado crédito direcionado – que são linhas de empréstimos que têm taxas menores por conta de subsídios.

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“No crédito direcionado, a gente pode fazer a análise do cinema que vende a meia-entrada. Se eu vendo muita meia-entrada e quero ter o mesmo lucro, a entrada inteira eu tenho que subir o preço. O crédito funciona um pouco assim”, afirmou o presidente do Banco Central.

O crédito direcionado é formado por linhas de empréstimos para habitação, produção rural e venda de veículos – em sua maioria, concedidos por bancos públicos. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também concede esse tipo de crédito para o setor produtivo.

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            Para explicar por que a concessão de empréstimos, com juros menores, afetam o patamar da taxa Selic, Campos Neto comparou o volume total do crédito no país a um “tubo”.

“Se um pedaço do tubo está imobilizado [crédito direcionado, com juro mais baixo], eu tenho que aumentar a pressão no outro [subindo mais a taxa total]. Quando você tem muito crédito subsidiado, a sua potência de influenciar com o juro diminui. Então tem que ter um juro mais alto do que você teria”, declarou.

Concessões de crédito direcionado

Em fevereiro, o volume de crédito direcionado alcançou R$ 2,2 trilhões, com avanços de 0,6% no mês e de 14,3% em doze meses, segundo o Banco Central. Para as empresas, o saldo do crédito direcionado avançou 0,1% no mês e 7,7% em doze meses, atingindo R$ 737,3 bilhões, enquanto o saldo do crédito direcionado às famílias somou R$ 1,4 trilhão, com altas de 0,8% no mês e de 17,9% na comparação interanual.

O diferencial das taxas de juros entre as concessões de crédito com recursos livres e direcionados é gritante. Para pessoas físicas, o valor médio do empréstimo com recursos livres ficou em 58,3%, enquanto o direcionado foi de 10,3%. Para empresas, os juros livres ficaram em 24,2% e os direcionados, 13,2%. Os dados são de fevereiro e foram divulgados pelo BC.

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Crédito direcionado no mundo

O crédito direcionado representa 42% do volume total de crédito no Brasil. Segundo o presidente do BC, esse patamar é muito elevado na comparação com outros países. Ao considerar apenas os dados internacionais disponíveis para países parecidos com o Brasil – como Colômbia, China, Coreia do Sul, México e Peru – fora nós, o maior percentual de crédito direcionado é do México, com 26%.

Segundo Roberto Campos Neto, a maioria dos outros países possui percentual abaixo de 5%.

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“Juros altos não é problema só do BC”

Na semana passada, em encontro com empresários do Grupo Esfera, o presidente do Banco Central, disse que os juros elevados no Brasil têm várias razões e trata-se de um problema de todos, governo, sociedade, e Banco Central. Roberto Campos Neto afirmou ainda que o país tem um problema estrutural para cortar despesas, que vem de outros governos.

“O problema dos juros é de todos, do BC, da sociedade, do governo. A taxa de juro real é alta, mas tenho 42% de crédito direcionado, não só do BNDES. Se eu tiver mais crédito livre, a potência da política monetária aumenta e o juro é mais baixo. Se quer dar crédito subsidiado para todo mundo, a taxa será mais alta. E o país tem um problema estrutural para cortar despesas. O BC é só parte da solução, mas tem que ter participação do Ministério da Fazenda, Congresso”, concluiu.

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