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Entenda o que é crise de crédito e como ela pode afetar a economia e os investimentos

Tema de crise de crédito tem entrado em discussão no Brasil e no exterior após caso de queda de empresas e bancos

Crise de crédito, teto do rotativo. Foto: Adobe Stock
Crise de crédito entra no radar principalmente no exterior com quebra de bancos. Teto do rotativo. Foto: Adobe Stock

Por João Paulo dos Santos

A expressão ‘crise de crédito’ (ou credit crunch, em inglês) vem ganhando espaço nas discussões no Brasil e no exterior no começo de 2023. O termo é usado quando há uma situação econômica que leva as instituições financeiras a diminuir drasticamente a oferta de crédito. Ou seja, quando bancos e outras instituições se tornam mais exigentes para conceder os empréstimos realizados, sejam para pessoas ou empresas.

O alerta foi ligado no mercado do Brasil após o Caso Americanas e do exterior depois das crises dos bancos americanos Silicon Valley Bank (SVB) e Signature Bank, First Republic Bank (FRB) e do Credit Suisse, na Europa. A preocupação maior está relacionada ao mercado de capitais, voltado para os títulos de dívidas das empresas.

Como uma crise de crédito acontece

Segundo a Chefe de Economia da Rico Investimentos, Rachel de Sá, uma crise de crédito pode ter várias raízes, como a perda de credibilidade das empresas e a elevação aguda dos juros, sendo que as duas coisas juntas podem levar as companhias a pagar mais pelos juros altos, o que aumenta a chance delas não conseguirem honrar seus compromissos.

Neste cenário, cresce a aversão ao risco, e se forma um efeito de bola de neve, com financiamentos mais caros, que afetam grandes, médias e pequenas empresas, todas pela dificuldade maior de encontrar boas condições de financiamento que as façam expandir ou até manter suas operações.

Quais os efeitos de uma crise de crédito na economia

Segundo relatório da Guide Investimentos, a desaceleração do crédito tende a ter impacto negativo na economia, já que há uma correlação clara entre concessão de crédito e crescimento econômico.

Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV, explica que, de maneira geral, quando se tem um problema de crédito, ele afeta a economia por dois motivos principais. 

“O primeiro motivo é a falta de acesso ao crédito, principalmente para as empresas. Sem isso, elas deixam de financiar as suas operações e são fortemente afetadas, já que o acesso ao capital é como o oxigênio que as mantém em operação de forma sadia”, afirma.

A segunda questão é que neste cenário o problema de crédito também gera dificuldades de financiamentos para a população ou outras empresas menores usuárias do crédito parcelado, o que retroalimenta a crise.  

Efeitos sobre os investimentos

Dentro de um cenário de crise de crédito há uma aversão a risco. Assim, segundo Rachel, há a possibilidade de acontecer um efeito manada, como na época da pandemia, quando houve uma saída grande de cotistas dos fundos de crédito, mesmo daqueles que apresentavam boa liquidez. 

“Por conta dessa saída de cotistas existe uma desvalorização da cota e isso causa um efeito manada, com consequências negativas também para os demais investidores. Por outro lado, estamos falando de um ambiente de taxa de juros elevadas e isso é bom para o investidor de renda fixa”, afirma a economista.

Ela ainda alerta que nestes momentos é preciso ter cautela e paciência ao buscar boas oportunidades, considerando o cenário de volatilidade do mercado. “Esses ativos podem cair por movimento de mercado, mas se o investidor tiver paciência ou segurar, no caso de um título, até o vencimento, ou num caso de um fundo, esperar aquela janela que o fundo sugere para ganhos sustentáveis, ele tem como ter boas oportunidades”.

Já no mercado de ações, o relatório da Guide aponta que um aumento do estoque de crédito tende a indicar que houve aumento do endividamento das empresas. Contudo, por outro lado, se a desaceleração do crédito gerar espaço para o Copom reduzir os juros, o impacto no mercado de ações seria positivo.

O atual cenário no Brasil e no exterior

Segundo Teixeira, há o receio no mercado hoje de uma possível crise de crédito no exterior e no Brasil por conta da situação econômica do mundo, nessa retomada pós-pandemia menos otimista do que se tinha imaginado antes. Porém, em sua visão, não há um cenário de crise de crédito no momento. 

“A gente viu agora um problema com o banco suíço (Credit Suisse), que precisou ser socorrido por um antigo concorrente que assumiu as operações desse banco. No Brasil tivemos um problema grande como uma rede varejista (Americanas) que, logicamente, impacta o mercado, mas que não necessariamente nos levará a um risco de crise de crédito como um todo” afirma. 

Entretanto, o coordenador da FGV destaca que se o cenário mudar em grandes economias como a dos EUA ou da Europa, o Brasil sentirá os reflexos. “Repetindo o que eu tinha dito anteriormente, no Brasil hoje não se vê um risco de crédito no horizonte, mas ele existe, claro, porque nós dependemos das economias internacionais também”.

O momento externo também é mais destacado pela economista chefe da Rico. Ela vê a elevação rápida dos juros, para os padrões da Europa e dos Estados Unidos, como a causa de um desequilíbrio na gestão dos ativos e passivos de muitos bancos, outras empresas e até mesmo das famílias. 

Uma crise de crédito pode baixar a Selic no Brasil?

A taxa básica de juros é fixada pelo Banco Central a partir de estudos que são feitos sobre a economia de cada país, e no momento, principalmente em busca do controle da inflação. “A decisão de querer baixar a taxa de juros em qualquer momento, seja agora ou durante uma crise, sempre vai ser baseada em juros com o intuito de proteger o sistema financeiro da melhor maneira possível. Então, tem uma série de considerações que precisam ser analisadas para que se possa chegar a uma conclusão”, diz Teixeira. 

Por isso, ele afirma ser improvável imaginar que o BC atue para baixar a Selic de forma apenas a considerar uma crise de crédito. “Embora não seja impossível, iria contra a qualquer lógica dentro do que se conhece de resolução de crises como essa”. 

O coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV acredita que a medida só seria considerada por esse motivo se houvesse um movimento igual por parte da maioria dos bancos centrais pelo mundo para controlar um cenário de crise mundial. Aí sim a redução seria considerada como a melhor maneira de fortalecer a economia.

Já Rachel de Sá ressalta que embora não seja o objetivo principal da escolha da taxa de juros atualmente, os bancos centrais já estão monitorando e podem levar em conta essa alternativa, caso enxerguem que a inflação esteja controlada num futuro.

“Nos Estados Unidos o Fed (Federal Reserve) também está levando isso em consideração, justamente porque a alta de juros foi um dos motivos pelos quais muitos desses desequilíbrios aconteceram. Então, eles têm que levar isso em consideração, mas ao mesmo tempo tem que controlar a inflação. É como ficar entre a cruz e a espada”, afirma.

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