Ibovespa beira os 200 mil pontos: o que explica o salto da bolsa e o que esperar para o resto do ano
Brasil se beneficia como exportador líquido de petróleo em meio ao conflito no Irã
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Na esteira de sinalizações positivas sobre um eventual acordo entre Estados Unidos e Irã, o Ibovespa fechou acima de 198 mil pontos pela primeira vez na história nesta segunda-feira, 14, ao mesmo tempo que o dólar fechou abaixo de R$ 5 pela primeira vez em dois anos. As marcas foram renovadas na terça-feira, com novo recorde na pontuação do Ibovespa, aos 198.657,33 pontos. E o dólar encerrou a R$ 4,99.
O último gatilho para o índice beirar os 200 mil pontos foi uma fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um panorama em que o conflito se mostrou, no fim das contas, um direcionador positivo para o mercado doméstico.
Embora guerra seja sinônimo de pânico e números vermelhos no mercado, o fluxo de capital e outras variáveis que reagiram ao conflito favoreceram o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, e o dólar.
O que inicialmente foi discutido como risco e fator negativo passou a ser considerado, na verdade, mais um vento favorável para um mercado que já somava volumosos fluxos de capital estrangeiro.
Com o Brasil figurando como exportador líquido de petróleo, o BTG Pactual revisou, nesta semana, sua projeção para o superávit da balança comercial brasileira, que deve alcançar US$ 90 bilhões em 2026 segundo a casa – um acréscimo substancial ante os US$ 75 bilhões da previsão anterior.
As exportações brasileiras em patamar volumoso – sobretudo de commodities como grãos, minério de ferro e petróleo – mantiveram um fluxo relevante de dólares.
No âmbito doméstico, o fluxo de capital estrangeiro teve papel relevante na valorização recente do índice, enquanto o investidor local mantém postura mais cautelosa.
Dados indicam que, mesmo com o Ibovespa em níveis elevados, os fundos de ações registraram saídas líquidas ao longo de 2025. Além disso, a atividade no mercado primário segue limitada, com baixa ocorrência de novas ofertas.
“Esse contexto sugere que há espaço para uma eventual recomposição da participação do investidor doméstico, condicionada principalmente à atratividade relativa entre renda variável e renda fixa”, analisa Sérgio Samuel dos Santos, economista da Ailos.
Assim como ralis vistos em um passado recente, a alta do Ibovespa no início do ano de 2026 esteve fortemente atrelada ao fluxo do investidor estrangeiro. Foram R$ 26,4 bilhões injetados em janeiro, R$ 15,3 bilhões em fevereiro e R$ 11,9 bilhões em março – com expectativa de continuidade no mês de abril, ainda em curso.
“Estamos em um cenário de guerra, mas a guerra não necessariamente está sendo prejudicial para os mercados globais. A bolsa americana sobe nos últimos 10 dias. Por aqui, o Brasil está relativamente bem posicionado nesse cenário, já que não temos grande impacto geopolítico e somos exportadores líquidos de petróleo”, comenta Marcelo Freller, Estrategista de Investimentos do C6.
Além disso, o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos também seguiu como um condutor positivo. A Selic atual é de 14,75% ao ano, em início de ciclo de flexibilização, entretanto a taxa permaneceu por 15% por um período longo, oferecendo mais de 11 pontos percentuais a mais do que os juros básicos dos EUA (Fed Funds), que ficam entre 3,5% e 3,75%, sendo o maior spread do mundo entre economias relevantes.
O cenário cria o incentivo chamado de carry trade, dado que o investidor pode alocar um dinheiro ‘barato’ em dólar, converte para real e aplicar no mercado brasileiro, com um ganho carrego que cobre por si só os riscos normais de câmbio.
O cenário impulsionou as principais ações do Ibovespa fez o índice convergir para mais próximo da média histórica.
O fim da tese de ‘Ibovespa barato’?
Com o panorama atual, as ações de maior peso na carteira do índice operam em alta de dois dígitos percentuais de alta no acumulado de 2026, em alguns casos com altas acima de 50%.
“O investidor estrangeiro entra nas ações mais líquidas, as maiores do Ibovespa. São as que acabam recebendo o aporte maior, porque é onde o gringo consegue entrar”, explica Freller, do C6.
Performance das principais ações do Ibovespa em 2026:
- Vale (VALE3): +21%
- Petrobras (PETR4): +56%
- Petrobras (PETR3): +62%
- Itaú (ITUB4): +19%
- Axia Energia (AXIA3): +34%
- Bradesco (BBDC4): +13%
- Sabesp (SBSP3): +27%
- B3 (B3SA3): +45%
Nesse contexto, a média de preço sobre lucro do índice subiu e fica agora acima da média histórica, diferentemente do cenário visto em 2025, com a disparidade entre o preço do índice e o lucro das empresas sendo substancial.
Dados da Oceans14 mostram uma média de P/L do Ibovespa acima de 12,2x atualmente, ao passo que a média histórica do índice é de 10,9x.
“Realmente, não é um mercado barato. Agora, a curva de juros, na nossa visão, no relativo, ela é mais barata. Ela tem um prêmio em relação a soma histórica muito maior do que a bolsa, principalmente quando a gente olha para os títulos prefixados e as NTN-B’s longas. Isso chama atenção, porque o mercado já precifica, de alguma forma, uma redução de taxa de juros”, comenta Malek Zein, analista de ações da Suno Research.
Freller, do C6, compartilha da mesma tese de aumento da atratividade da renda fixa no panorama atual.
“Em termos de preço sobre lucro não dá mais para falar em Ibovespa barato. O índice chegou a estar muito barato em 2025, mas no momento não é mais possível falar sobre isso, visto que está mais próximo da média histórica. E temos o prêmio de risco com a atratividade da renda fixa, já que o Ibovespa ficou muito caro em relação à NTN-B”.
Trade eleitoral
Em ano eleitoral, e assim tradicionalmente de maior gastos, o Ibovespa deve reagir positivamente ao aumento de possibilidade de ajuste fiscal.
Como em ciclos eleitorais anteriores, o mercado enxerga a variável da eleição muito mais como um fator de aumento de volatilidade do que um divisor de águas para o cenário de preços. Em outras palavras, não há uma relação mecânica entre o resultado das eleições e o futuro do Ibovespa ou do dólar.
“Na política, o cenário eleitoral vai ficando mais claro. O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro despontam como os principais candidatos, com as pesquisas indicando uma disputa acirrada. Vemos espaço limitado para outros candidatos. Embora seja um tema relevante, não consideramos as eleições um fator determinante para os mercados financeiros no curto prazo. O evento tende a gerar volatilidade, mas não um direcionamento claro para os preços dos ativos brasileiros nos próximos meses”, diz o time de macroeconomia da XP, liderado por Caio Megale.
*Matéria publicada originalmente em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir