Mercado

Juros em queda no Brasil e estáveis nos EUA. Como isso afeta o investidor?

Decisões sobre juros podem fortalecer dólar contra o real, mas outros fatores determinantes para o câmbio podem contrabalancear movimento

Rolo de cédulas de Real cruzada sobre notas de Dólar
Real é a 7ª moeda mais valorizada em 2023; veja o ranking. Foto: Adobe Stock

Há dias o mercado aguarda esta super quarta. Hoje (1º/11), os bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil anunciam suas decisões de política monetária. Os movimentos já são amplamente esperados pelos investidores: mais uma redução de 0,5 ponto porcentual para a Selic no Brasil, para 12,25%, e a manutenção do nível de juros nos Estados Unidos, na faixa entre 5,25% e 5,50%.

Renda fixa nos EUA chama atenção. É hora de investir?

Com isso, o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos diminui mais uma vez. “A gente tem visto há quase um ano o diferencial de juros caindo, e a tendência deve se manter. No Brasil, vamos continuar cortando os juros, ao que tudo indica, e a trajetória do Fed ainda está incerta”, afirma André Cordeiro, economista-sênior do Inter.

Mas o que isso significa para a economia brasileira e para quem investe?

Selic em 12,25% e juros estáveis nos EUA; saiba o que espera da ‘Super Quarta’

Impacto no dólar

Esse movimento de aproximação das taxas de juros pode ter um efeito na cotação do dólar aqui no Brasil. Com os juros mais elevados nos Estados Unidos e menores aqui, muitos dos investidores preferem aplicar seu dinheiro na renda fixa norte-americana. Simplificando, isso significa mais dólares saindo do Brasil, o que desvaloriza o real. E qual o efeito disso? Um dólar mais valorizado pode pressionar a inflação para cima.

Dólar: entenda por que ele sobe e desce e como afeta os brasileiros

“Esse diferencial encurtado, com juro em patamar bastante atrativo nos EUA comparado com o juro brasileiro, que por definição tem mais risco, pressiona o real. Isso pode se materializar em uma desvalorização”, explica André Cordeiro, do Inter.

Há, no entanto, outros fatores que jogam a favor da moeda brasileira, lembra Andrea Damico, economista da Armor Capital. “Um ponto que pode pesar a favor do real é a aprovação de mais medidas arrecadatórias, ou a aprovação da reforma tributária. Por outro lado, as indefinições sobre a meta fiscal do ano que vem pesam contra”, afirma ela.

Segundo ela, uma mudança na meta fiscal de 2024 “pode ser muito determinante para a moeda no curto e médio prazo. Podemos entrar num modo pior para câmbio e para preços de ativos brasileiros em geral”.

Outro ponto levantado por Damico que ajuda a contrabalancear o diferencial de juros é o desempenho da economia brasileira, apesar de sinais de desaceleração no terceiro trimestre deste ano. “As muitas surpresas recentes com os dados de atividade geraram uma discussão de que o PIB potencial brasileiro pode ser mais alto. E um PIB potencial mais alto também pode balancear um pouco o efeito negativo do diferencial de juros”, diz.

Exportações ajudam a sustentar o real

Um ponto positivo para a moeda brasileira tem sido o desempenho da balança comercial. Segundo o Banco Central, no comércio exterior, o saldo em 2023, até 20 de outubro, foi positivo em US$ 45,214 bilhões. Com o resultado, o Brasil registrou fluxo cambial positivo de US$ 24,035 bilhões neste ano até a data, contra uma entrada líquida de US$ 5,139 bilhões no mesmo período do ano passado.

“Muito provavelmente, estamos em um novo nível de exportações. Apesar de o nível de preço ter caído, a quantidade exportada aumentou razoavelmente. Isso gera melhora da nossa balança comercial e reduz o déficit em conta corrente”, diz Damico, da Armor.

Cordeiro, do Inter, aponta que isso tem contribuído para a sustentação do real. “Não temos visto uma desvalorização por causa de fundamentos positivos no Brasil. A balança comercial está com desempenho muito bom, e devemos fechar o ano com um balanço extremamente positivo, isso por si só garante o fluxo de dólar para o Brasil”, diz Cordeiro.

Capital financeiro estrangeiro para o Brasil cai

Outro impacto da perspectiva de juros elevados por mais tempo nos EUA é o fluxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira, que vem caindo. No acumulado do ano até 20 de outubro, o canal financeiro apresentou saídas líquidas de US$ 21,179 bilhões, segundo o Banco Central.

“Desde as eleições [no Brasil], estamos vendo um fluxo de investimentos para o exterior, principalmente para os EUA”, afirma Eduardo Grübler, gestor quantitativo da Warren. “A taxa de juros hoje nos Estados Unidos está muito boa [para o investidor], a gente nunca viu isso. E se não já parou de subir, está quase parando, provavelmente. No Brasil, a gente já teve inflexão, o BC parou de subir a Selic, e é consenso na curva de juros que os cortes devem continuar”, diz.

E agora, BC? Como a decisão do Fed afeta o Copom?

A perspectiva de que o Fed deverá manter os juros em patamar elevado por mais tempo pode tornar o ambiente mais difícil para o BC brasileiro.

“Os juros mais altos nos EUA vão afetar, principalmente, a velocidade dos cortes aqui. Em agosto, quando teve início o ciclo de cortes, imaginava-se que em dezembro já haveria espaço para aumentar o ritmo”, diz Cordeiro. “A autoridade monetária dificilmente irá intensificar o corte, e correr o risco de ter de voltar atrás depois, com o custo de credibilidade. Isso pode acabar forçando o BC a eventualmente pausar o ciclo de corte”, diz o economista do Inter.

“Já a taxa terminal depende mais de fatores estruturais da economia brasileira, e não deve ser afetada. O que muda é a velocidade para chegarmos à taxa terminal”, diz André Cordeiro, do Inter, que estima uma taxa de juros entre 9% e 9,5% no fim de 2024.

Andrea Damico, no entanto, lembra que Brasil e Estados Unidos estão em momentos diferentes em seus ciclos monetários. “Começamos a subir taxa de juros muito antes do Fed, então estamos muito mais avançados no ciclo. Também estamos mais avançados no processo de desinflação e na desaceleração da atividade”, diz.

Quer entender o que é macroeconomia e como ela afeta seu bolso? Acesse o curso gratuito Introdução à Macroeconomia, no Hub de Educação da B3.

Sobre nós

O Bora Investir é um site de educação financeira idealizado pela B3, a Bolsa do Brasil. Além de notícias sobre o mercado financeiro, também traz conteúdos para quem deseja aprender como funcionam as diversas modalidades de investimentos disponíveis no mercado atualmente.

Feitas por uma redação composta por especialistas em finanças, as matérias do Bora Investir te conduzem a um aprendizado sólido e confiável. O site também conta com artigos feitos por parceiros experientes de outras instituições financeiras, com conteúdos que ampliam os conhecimentos e contribuem para a formação financeira de todos os brasileiros.